Terminou a saga sobre a vida dos professores, muito mais morosa e menos interessante do que os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust. Esperamos que tenha terminado mesmo, apesar das ameaças não tão veladas do secretário-geral da FENPROF à saída da árdua maratona negocial. A ministra da Educação sublinha que "o país estará sempre à frente do interesse de uma classe". Era urgente passar da discussão das carreiras dos professores para o trabalho nas escolas; Isabel Alçada entendeu-o e agiu, depressa e bem, em circunstâncias e com interlocutores muito adversos. E conseguiu o essencial: que os professores se sentissem estimulados, sem deixar cair a ideia de avaliação e recompensa do mérito, à qual os sindicatos opunham - e opõem - uma resistência muito pouco pedagógica. Os professores têm agora a garantia de que a excelência será efectivamente recompensada. Os restantes funcionários públicos, que não só não têm acesso garantido ao topo da carreira como estão sujeitos a um sistema de quotas muito estreito, onde os "excelentes" e os "muito bons" são escassíssimos, mesmo que o seu trabalho o mereça (e merece-o numa proporção muito maior do que a má-língua diz), têm muito que meditar sobre métodos de combate, prioridades e objectivos. Mas o Ministério da Educação pode finalmente dedicar-se àquilo que lhe dá nome. A Educação, pois é. Até que enfim.
Isabel Alçada já anunciou que está a trabalhar na revisão e ajustamento dos currículos, o que é de muito bom augúrio. O número de disciplinas leccionadas nos segundo e terceiro ciclos do ensino básico é inversamente proporcional ao sucesso escolar dos alunos, o que deve fazer-nos reflectir. A intenção de reduzir a variedade de matérias do terceiro ciclo é de louvar, mas é urgente olhar também para o segundo ciclo. A existência de uma disciplina chamada Área de Projecto é algo que escapa ao meu entendimento: não deveriam todas as "áreas" - História, Matemática, Português, Inglês, Ciências, Educação Visual, Educação Física, etc. - ter um projecto? A aprendizagem de métodos de trabalho e de elaboração de projectos não é a base de qualquer matéria que se queira ensinar? O excesso de disciplinas não-curriculares prejudica o rendimento dos alunos nas disciplinas curriculares. É talvez tempo de, também para os alunos, se reivindicar uma carreira única: o que é um currículo que inclui matérias não-curriculares? O melhor projecto que se pode dar a uma criança ou adolescente é o hábito de pensar, interrogar a realidade. Parece-me evidente que a aprendizagem das Línguas, da Literatura, da Matemática, da História ou das Ciências ditas exactas beneficiaria muito do ensino da Filosofia, esse saber fundador e central que tem sido arredado para área de especialização. A verdadeira Educação para a Cidadania começa, ou devia começar, pelo ensino da Filosofia. Tão cedo quanto possível, porque pensar e fazer perguntas é uma actividade a que, em geral, as crianças dedicam mais e melhor tempo do que os adultos.
A ministra falou da necessidade de assegurar a segurança nas escolas. O avanço que, a esse nível, se conseguiu nos últimos anos no primeiro ciclo do ensino básico é notável; mas uma criança de 9 ou 10 anos passa de uma relação de ensino personalizada num professor e de uma escola pequena, onde os seus tempos estão todos preenchidos e o espaço é familiar, para uma escola imensa, com uma dezena de matérias e professores distintos, com horários cheios de "furos" e sem nenhum controlo. O modo de funcionamento do segundo ciclo do ensino básico necessita de ser repensado; esse período difícil e escorregadio em que já não se é exactamente criança mas também ainda não se é adolescente é particularmente crítico para o desenvolvimento futuro da personalidade e das competências de cada um. Nunca percebi porque se acabou com o conceito, útil e eficaz, de "ciclo preparatório". Imagino que devia ser caro ter escolas destinadas apenas a dois anos de ensino. Mas funcionava.
Isabel Alçada avançou já duas outras medidas importantes: o ensino da música e o reforço do ensino profissionalizante. Está provado que a música desenvolve capacidades de concentração, plasticidade mental, ritmo e harmonia que potenciam muito as outras aprendizagens - a começar pelo Português e pela Matemática. E é indispensável que o ensino técnico seja valorizado, ampliando a empregabilidade dos jovens e a eficiência do país.
A educação começa pelo trabalho e pelo bom senso, duas coisas que andavam há demasiado tempo esquecidas.
Texto publicado na edição da Única de 16 de Janeiro de 2009