Foram duas semanas de agitação. Pobres de conteúdo. Ricas de promessas. Arruadas. Jantaradas. Jogadas. Caçadas ao voto. Piadas de gatos fedorentos. Verdades. Meias verdades. E outras assim-assim.
O povo passou ao lado dos profissionais do agitar bandeiras. Serenamente, foi formando a sua decisão. O Zé tem consciência da situação em que o país se encontra. Sabe que a saída vai exigir suor, sacrifícios, lágrimas e será demorada. Não acredita nas varinhas mágicas da felicidade material exibidas durante a campanha. Por isso, revelando bom senso, no dia 27 deu a vitória ao PS. Como escrevi no último artigo, José Sócrates é, nesta fase da vida do país, o político com capacidade, vontade, energia, conhecimento e credibilidade para enfrentar as dificuldades. Acresce que o faz num ambiente de esperança e de motivação e não de derrotismo. Foi uma extraordinária vitória. Ganhar com 7,5 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo, o PSD, que andou convencido que, no dia 28, estaria com o problema de escolher entre os inúmeros candidatos a ministros, secretários de Estado, chefes de gabinete, assessores e profissões correlativas, é obra.
E não fica mal lembrar que a extraordinária vitória do PS foi conseguida num ambiente de gravíssima crise mundial económica, financeira e social. O PIB a diminuir. O défice a crescer. O endividamento a aumentar. O investimento parado. O desemprego em níveis anormalmente altos. O descontentamento dos professores por causa das quotas. As corporações agarradas a privilégios. As inventonas. A nojenta exploração do processo Freeport. As campanhas de alguma comunicação social. Ataques maciços e ferozes de toda a Oposição à pessoa do primeiro-ministro. Como não o conseguiram vencer, agarraram-se à tábua de salvação da perda da maioria absoluta. Ficaram todos felizes.
Agora é a sério. Há que governar. Sem o rufar dos bombos. Sem o agitar das bandeiras. Sem a demagogia da campanha. Os números são frios. O que nos espera é quente. Com maioria, a responsabilidade é apenas do governo. Sem maioria, é de todos os partidos e do Presidente da República. Os portugueses ficaram cansados de eleições e querem que José Sócrates governe. Se a Oposição enveredar pelo bota abaixo, impedir que se tomem medidas estruturais e se tiver como principal objectivo derrubar o governo, os portugueses não perdoarão. Lembrem-se do processo que levou Cavaco Silva à primeira maioria absoluta que o PSD tanto gabou e agora pede para a Câmara Municipal de Lisboa.
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009