Tal como apareceu nos jornais, parece um atentadozito que noutros tempos faria primeira página, mais um Watergate à portuguesa: um elemento da Educação, Isabel Alçada, deixou deliberadamente um gravador ligado junto a um grupo de jornalistas que aguardavam uma declaração de um secretário de Estado. Um gravador... O grau zero das escutas, o método Richard Nixon. E assim falaram descontraidamente dos assuntos do dia, como o 'Face Oculta', tendo os seus desabafos e piadolas sido gravados. Isto exige concentração. Foi uma escuta a jornalistas que estavam a discutir entre amigos as escutas feitas ao amigo Vara e ao amigo Sócrates. Falta ainda o toque final. Após ter sido descoberto por uma jornalista da TVI (olhinho educado pelas bocas da Moura Guedes), o membro do ministério disse: "Assim temos as mesmas armas." O que nem é justo, porque os jornalistas têm os bufos na PGR ou lá onde é, e o assessor tem a ERC, o "DN", a RTP, o "JN", e os tais blogues de que o Pacheco fala.
Há já pouca disponibilidade mental para discutir mais escutas - ainda mais a jornalistas, embora estas não tenham sido caucionadas por um juiz e mandadas para a co-incineração pelo Noronha. Mas o que leva o gabinete da ministra da Educação a arriscar uma jogada destas? Demonstrar publicamente a conversão ao socratismo? Jack Bauer e o "24"? Saber o que pensam os jornalistas? É espreitar o twitter. Apanhá-los a dizer palavrões? É ir a uma redacção. Pesporrência caloira de um funcionário? Mas ainda não foi promovido. Ou, a ministra Isabel Alçada está muito à frente? É por aqui...
Só pode ser um resultado de muito ano a escrever para tweenies e teens - e isto é um elogio. Se há uns anos os adolescentes perderam a noção da sua própria privacidade, hoje estão convictos de que a privacidade dos outros é algo que está ali para ser pirateada e lhes pode pertencer, desde que não sejam descobertos.
Muitos ficaram espantados com a "extraordinária capacidade tecnológica" da PJ a escutar Armando Vara. Tinham como tabela a tecnologia utilizada nas escutas a Ferro Rodrigues em 1998: "estou-me a c&g%r para o segredo de Justiça". Mas, numa década, as obscenidades ditas ao telefone por políticos podem ser as mesmas ou até mais rurais. Mas a tecnologia avança.
Do seu contacto com a e-juventude, Isabel Alçada saberá que por todos os lados existem pubs que anunciam em inglês "desconfias que @ teu namorad@ te engan@?". E mostram os aparelhinhos para aceder aos SMS em directo, escutar as chamadas e até saber a localização GPS. Faz parte do TPC de qualquer escritora para teens saber estas coisas. Um 'Magalhães' para cada aluno da primária, um SIS em cada aluno da secundária.
Aliás, já se abriu uma nova oportunidade: a protecção de telemóveis de namorados traídos, ou empregados espiados. Para nós, simples cidadãos, há regras de bom senso, banalíssimas, e que podemos cumprir: basta pensar que é possível que o seu patrão, o ex-amor de sua vida, maior inimigo, ministro da tutela (redundância, sei) ou apenas um casual serial killer está a segui-lo e a espreitá-lo. É um bom começo.
Tem assim que viver numa constante paranóia e acreditar que o telemóvel é um microfone que conta tudo. Lembre-se que quanto mais sofisticado for o smartphone mais ele tem para chibar. E, mesmo assim, haverá sempre um funcionário de um ministério pronto para deixar um gravador ligado. Ou uma porta entreaberta, um micro direccional barato que ouve a 300 metros. É o pior pesadelo do Presidente da República e o sonho molhado dos sonhos molhados do ministro Santos Silva.
Depois de seguir estas regras básicas, temos que nos artilhar para escutar quem julgarmos que possa estar a escutar-nos. Afinal, se estamos a viver uma "Aventura no País dos Escutados" é "preciso ter as mesmas armas", como dizem do gabinete de Isabel Alçada.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009