Durante grande parte do século XX a Turquia foi um muro geopolítico. Escondida atrás deste muro, Ancara lutou abaixo do seu peso e da sua história na política internacional.
Desde a sua primeira vitória eleitoral em Novembro de 2002, uma das grandes ambições dos governos do partido da Justiça e Desenvolvimento tem sido transformar a Turquia num trampolim geopolítico regional. No caso de ser bem sucedida, o trampolim permitirá a Ancara participar cada vez mais no processo de decisão estratégico da primeira divisão mundial.
A transição de muro para trampolim foi muito rápida. Há dez anos a Turquia estava mergulhada numa grave crise económica. As principais viagens e reuniões diplomáticas dos seus decisores políticos e militares tinham lugar nos EUA, países europeus e Israel. Hoje em dia, os destinos das viagens dos líderes turcos são muito diferentes.
Esta semana, por exemplo, o Presidente turco, Abdullah Gul, esteve na Índia e no Bangladesh. Ahmet Davutoglu, um dos ministros dos Negócios Estrangeiros mais interessantes na actual política internacional, esteve no Cazaquistão e tinha planeado passar em Teerão para conversações com o Presidente Mahmoud Ahmadinejad e o ministro de Negócios Estrangeiros, Manouchehr Mottaki. Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro turco está em visita oficial ao Qatar.
Se olharmos para a economia da Turquia também vemos coisas curiosas. Vemos, por exemplo, que a Rússia é hoje em dia o principal parceiro comercial de Ancara. Há dez anos, dois terços das trocas comerciais turcas eram feitas com os países europeus. Vemos também uma Turquia determinada a aumentar as suas ligações económicas com o Egipto e a Síria.
Tudo isto mostra uma visão e uma acção estratégica determinada a ganhar autonomia em relação a Washington, Israel e Bruxelas. Esta autonomia é um passo essencial para transformar a Turquia num actor regional influente numa região instável e fragmentada do ponto de vista político e económico. O problema é que nas cidades turcas a opinião pública está dividida em relação ao assunto.
Se olharmos para a sociedade turca, vemos que o Governo de Tayyip Erdogan é cada vez mais impopular nas ruas e está em luta mais ou menos permanente com os juízes, grandes empresários e o exército. A abertura aos curdos e a reconciliação com a Arménia, duas iniciativas políticas e diplomáticas do Governo essenciais para a mudança da imagem e a reputação internacional da Turquia, estão em dificuldades.
A abertura aos curdos gerou uma grande controvérsia na sociedade turca e deu origem a uma forte reacção contra o nacionalismo curdo. Em vez de diminuir a violência entre curdos e não-curdos, como era pretendido pelo Governo, a abertura acabou por contribuir para o seu aumento.
A reconciliação com a Arménia após décadas de hostilidade está a revelar-se muito mais controversa do que Erdogan e Davutoglu imaginaram quando o resultado das longas e delicadas negociações com Yerevan foi anunciado no início de Outubro. A oposição do Azerbeijão, um aliado tradicional de Ancara, por causa da dificuldade em resolver o intratável problema de Nagorno-Karabakh, complica ainda mais as coisas. Erdogan passou as últimas semanas a recuar na questão arménia. A direcção, o conteúdo e a retórica da política externa turca não são consensuais na sociedade turca.
Onde é que tudo isto deixa as relações da Turquia com a União Europeia? Nos anos que se seguiram à vitória eleitoral de 2002, Ancara esteve genuinamente interessada em fazer o caminho para a Bruxelas. A nova orientação da política externa e da economia turca para a sua vizinhança sugerem que o partido da Justiça e Desenvolvimento tem hoje muito menos interesse na União Europeia. Ancara age cada vez mais como se tivesse os recursos necessários para ser um actor regional autónomo. A Turquia parece estar a dizer adeus a Bruxelas. Ou será até já?
A hora da Alemanha
Há nuvens no horizonte da união monetária europeia. Tudo indica que vêm aí duas coisas. A primeira é um programa de reformas a médio prazo nas áreas do emprego, investigação e desenvolvimento, energia e tecnologias verdes e economia digital. A segunda é um claro aumento do poder e influência da Alemanha. A saúde da zona euro vai exigir quase de certeza uma garantia de Berlim. Países e sociedades fiscalmente irresponsáveis como Portugal passarão a ter ainda menos autonomia ao nível fiscal.
Número
9 anos depois de ter ganho as primeiras eleições, o Governo do partido da Justiça e Desenvolvimento quer transformar a Turquia num influente actor geopolítico regional. Ancara parece estar a dizer adeus à União Europeia, mas a política externa turca não é consensual.
Soluções
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Miguel Monjardino
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010