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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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9:00 Sexta-feira, 29 de Jan de 2010
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A recente biografia de Eça de Queirós, assinada por A. Campos Matos, estudioso admirável da vida e obra do grande ficcionista, aviva a lembrança de um desses enigmas que nos atravessam os dias, e para os quais se não atina facilmente com a chave explicativa.
A braços com o projecto de um novo romance, A Batalha do Caia, que em seu entender abalaria os alicerces do imaginário nacional, decidiu Eça recorrer a Ramalho Ortigão numa carta espantosa de eventual safadeza. Avançava ele aí de facto com uma extraordinária chantagem, baseada na convicção de que "a ideia publicada ou não é um capital". E prosseguia, "Esse capital tenho direito a ele: que me venha do Chardron (ou do público, melhor) pela publicação, ou que me venha do governo, pela proibição - é-me indiferente: e você está por esta encarregado de fazer produzir o capital."
As circunstâncias do imbróglio serão bastante conhecidas. Menos líquida se mostrará porém, não a realidade, mas o lugar, da missiva em que Ramalho responde à tentativa de manipulação por parte do seu amigo, subtraindo-se à estratégia que pretende instrumentalizá-lo. Começa por declarar, "Quer você um lucro, ao fim de contas, provenha ele da edição dos seus escritos, ou da ameaça de os trazer a lume." E continua com frontalidade, "Admita que me impõe uma manobra de pressão inadmissível, reveladora de evidente falta de senso moral e de intolerável pieguice de carácter." Conclui com isto, "Lavo por consequência daí as minhas mãos, caríssimo José Maria, desejando-lhe quand même o maior dos sucessos."
Encontrada pelo signatário das presentes linhas, e por ele transcrita no seu livro As Batalhas do Caia, semelhante epístola veria a sua autenticidade contestada, ou pelo menos posta em dúvida, pelo referido e tão estimável A. Campos Matos. Garantida a sua existência sob palavra de honra, mantém-se todavia o utilizador dela inteiramente às escuras quanto ao sítio onde a terá achado. A verdade é que não a inventaria ele por razão alguma do Mundo, e sobretudo pela sua absoluta inépcia para a fantasiar.
Abalançar-se-á um provável leitor desta crónica, queirosiano ou ramalhiano, ou saudavelmente comum, a esclarecer o mistério? Prestar-nos-ia o favor sem preço de nos limpar do vício que não nos assenta, nem ambicionamos, da mais refinada das aldrabices.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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9:00 Sexta-feira, 22 de Jan de 2010
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A enxurrada de trash que invade as nossas livrarias, cada vez menos situadas em plena rua, e cada vez mais nos centros comerciais, recomenda alguma estratégia de defesa. O recurso aos alfarrabistas que teimam em sobreviver, não tão empolgados pela mania da efemeridade, constitui nessa lógica expediente de que lançar mão. Procure-se aí pois a dignidade das marcas do nosso percurso como espécie, oferta quase por completo ausente das grandes superfícies, e até mesmo a excelência de quanto o big-brother dos variados quadrantes registe pela sua singularidade criativa, e pelo concomitante risco de se desencaminhar nas prateleiras.
Quem tiver rumado a Hay-on-Wye no País de Gales saberá bem que energia mobiliza todos aqueles que afluem a essa simples aldeola, considerada a capital das second-hand bookshops, e que aí buscam a solução temporária, mas nem por isso menos salvífica, para os seus objectivos de vida. Efectua-se com antecedência a reserva nos hotéis locais, organiza-se o itinerário dos estabelecimentos que abarrotam de velhos livros, e regressa-se a casa como de uma excursão às Caraíbas com o palpite de haver triunfado, ou de haver fracassado, na prossecução de um sonho. E não deixa de ser verdade que o sentido de pertença a um colectivo, o dos que demandam um título ambicionado, ou perdido de vista, em muito concorre para transformar tais empresas numa questão da alma, implicada na mais empenhada das peregrinações.
O sucessivo desaparecimento das livrarias tradicionais, e a estabilidade correspondente dos clássicos alfarrábios, deveria aconselhar aos proprietários destes uma certa alteração de costumes. Referimo-nos sobretudo ao horário do seu funcionamento, o qual insiste em prever o esdrúxulo descanso ao sábado à tarde, exactamente quando a maioria de nós aufere do tempo adequado a uma visita. Pugnar pois pela maior disponibilidade dessas lojas, abertas para os cidadãos que as frequentam com crescente vontade, e já agora por prática idêntica nos museus nacionais e municipais, obstinadamente fechados aos feriados, afigura-se-nos um daqueles imperativos de civilização que asseguram a constância da felicidade que nos resta.
Afinal quem lê, e a que horas, no país onde tão pouco se lê?
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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8:00 Sexta-feira, 15 de Jan de 2010
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Exercendo entre quem o usa tranquilizante efeito igualizador, e suscitando em quem o vê sentimentos de reverência timorata, o unifome dos políticos não escapa à genérica semântica da farda, podendo merecer pretexto a meditação de algum interesse. E a circunstância de se reflectir no que se veste muito do contexto social que lhe subjaz, ajudando-nos na construção da velha identidade pátria, tradicionalmente fragilizada, tornará atempadas talvez as linhas que deixarmos aqui.
Se seleccionarmos como amostra o panorama do colectivo parlamentar que mais ou menos nos serve, eis que nele detectaremos um espectro de imperativos a que o uniforme responde, e que se manifesta inabalável por qualquer tentação de escolha individual. Aí figura o fato escuro com a gravata lisíssima, ou raramente listada, numa dinâmica que viaja da direita para a esquerda, mas que no percurso gradualmente se esvai da energia que a alimenta. Distinguindo-se embora o desconchavo da gravatinha coruscante, arvorada pelo deputado que haja descido das berças, a farda triunfa quase sem quebra nos membros do partido da maioria relativa, o que nos conduz a que pareçam estes mascarados, quando os avistamos em indumentária de fim-de-semana, passeando tristemente pelas galerias de um centro comercial. Se na formação da esquerda histórica predomina entretanto o mesmo adereço, nem sempre todavia alinhado com o minimalismo de bom tom, já no seio dos muito jovens se declara o contrafeito abandono de estigma semelhante, compensado porém pelo pelintra casaquinho do amanuense cumpridor. E só na esquerda mais à esquerda reina, e sem a mínima rebeldia, diferente disciplina, posto que não menos férrea, expressa no pullover desprovido do garrote que aperte as goelas.
Inúmeras indagações se mostram oportunas a este propósito, e desde logo a que procurasse estabelecer até que ponto influenciará no ânimo dos eleitores a representação do uniforme, e as fantasias que lhe vão conexas. Seria curioso também seguir as variantes da farda no feminino, e até para nos não acusarem de desrespeito de quotas, e auscultar a facilidade, ou a dificuldade, com que os uniformes das diversas áreas aceitariam a tatuagem, simpática porventura a uma faixa não assumida da direita mais à direita, se ousasse ela ir tão longe, ou o piercing, afecto talvez a um sector da esquerda mais à esquerda, se perdesse este completamente a vergonha. E não se duvide de que concluiria uma tal pesquisa, ao contemplar o valor da farda dos nossos mandatários como fétiche puro e simples, pela absoluta ineficácia dela como tónico libidinal.
Suponhamos que trocavam um dia destes, e entre si, de uniforme Paulo Portas e Francisco Louçã. Calcule-se com que espanto escandalizado haveriam de receber a metamorfose as respectivas bancadas, e com que troça reagiria a ela o sobejante da Assembleia da República. E imagine-se com que boa gargalhada os premiaria cada um de nós, e sobretudo os não tão sisudos como costumam ser os homens públicos, que vegetamos como meros cidadãos de um país que anda a despedir-se aos poucos, e sem disso se dar conta, da saudável vontade de rir.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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11:48 Quarta-feira, 13 de Jan de 2010
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O surto da ainda corrente gripe A, aproveitado pela generalidade da comunicação como prato forte de sucessivas manchetes, ficará por símbolo de uma dessas alucinantes estratégias preventivas, sistematicamente apostadas em nos envenenar os dias. Referendado com alguma hesitação pelos responsáveis da política sanitária, ter-se-á distinguido todo esse alarme, encapotado de bom conselho, mais pelo seu efeito perverso do que pela sua legítima justificação. Aparecido na lógica de uma onda pretensamente informativa, multiplicada por consultórios televisivos, preocupados com a saúde dos homens, e às vezes também com a dos animais, só a custo conseguiria a campanha anti-gripe afastar-se de um plano perigosamente inclinado. E por aí, desprovidos os "esclarecimentos" dos particularismos que os tornassem rigorosos, precipitar-se-ia uma grande mancha da população numa espiral de medo, susceptível de desencadear acessos de pouco saudável hipocondria. Saía-se de uma moléstia pela porta da frente, e entrava-se numa outra pela das traseiras.
Defender o doseamento de determinados alertas, e apelar para a sensatez de os ler à luz de um amplo espectro de dados, haverá de parecer a uns quantos, e de certeza aos propugnadores de tais dinâmicas, sinal de retrógrada concepção de vida, quando não de inconsciência imperdoável. Mas a inquietante cornucópia de ensinanças que nos despejam em casa sobre a diabetes, o glaucoma, a fibromialgia, a síndrome de Alzheimer, a artrite reumatóide, a erisipela, o pé-de-atleta, a dança-de-São-Vito, e quejandos e infinitos terrores, só poderá descerrar-nos um quotidiano de cidadãos combalidos, e presos à angústia de quem, sobrevivendo num perpétuo hospital, se vê atirado de especialidade para especialidade sem achar a receita que lhe proporcione o bem-estar meridiano. Debitados por sumidades supostamente indiscutíveis, os avisos que nos chegam, em regra afinados por um toque a fogo desembestado, misturam-se ao paladar das iguarias que nos proíbem, mas que logo a seguir opiparamente nos oferecem, irresistíveis em cores e texturas, na publicidade do mesmo canal.
A acrescer à poluição que faz irrespirável o ar, inaguentável o sol, impotável a água, e incultivável a terra, o pânico em que nos entretêm equivale a uma espécie de promissora morte lenta, muito mais insofrível do que a morte eficaz. Não se estranhe por isso que nos apeteça o segundo dilúvio lustral, um que não seja de chuvas ácidas porque dessas temos já quanto baste, ou um primeiro baptismo de fogo purificador, o que nos devolva à tranquilidade da cinza, e do nada, para que sempre tende, e afinal, o pobre corpo que levamos.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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8:00 Sexta-feira, 1 de Jan de 2010
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Entregou a alma ao Criador a FMR, a mais bela revista do Mundo, imolada pelos ventos da história, a soprar agora rasteirinhos. Na circular que acompanha o derradeiro número, o 34, da que recentemente passara a chamar-se FMR Nera, a fim de a distinguir da que com ela alternava, a FMR Bianca, mais aggiornata, e menos exigente, escreve o seguinte um tal Paolo Lugli. "Caro assinante, venho informá-lo de que, em consequência da conjuntura macroeconómica internacional, e da alteração do cenário dos meios de comunicação, a nossa sociedade decidiu pôr termo à publicação da sua revista." E acrescenta ele, esclarecendo os destinatários, "Em sua substituição a sociedade projecta uma inovadora revista on-line, e em moldes de ampliar a difusão dos conteúdos a um público mais vasto, e aos jovens."
Há cerca de três anos, falando desta FMR, malograda hoje, nas páginas do semanário Expresso, o qual continua felizmente a sair em papel e tinta, via-a eu como "homenagem a uma certa condição europeia", votada a "honrar o eterno, reabilitar o efémero, celebrar o kitsch, e repescar o out-of-the-way". E formulava então o voto de que não deixasse de se cumprir o desiderato do seu director, Franco Maria Ricci, de "dare all'Italia il primato delle più bella rivista che esista". Não ouviriam os deuses a minha súplica, nem a de Ricci que se afirmava determinado a lutar pela vida do magnificente periódico "sem a assistência do poder, e sem o mecenato das empresas". A enxurrada de misérias e inutilidades varreria a FMR do mapa, teimando nessa estratégia que anda a excluir rapidamente do nosso convívio quanto se destaque como perdurável, como coleccionável por isso, e como susceptível de por conseguinte registar o decurso do tempo, e o sensual efeito que sobre a matéria exercem os agentes naturais.
Suponho que a vanguarda do instante terá de algum modo concluído pelo academismo da esplêndida FMR Nera, apegando-se à convicção da obsolência de toda uma estética que prefere a leitura à piscadela de olho, o som ao chinfrim, o cheiro ao pivete, o paladar à sensaboria, e o toque da descoberta ao arranhão da saciedade. Abundam em tal cartilha expeditos galeristas, em tudo iguais a vendedores de automóveis, ou de apartamentos, e críticos que na pontuação oscilam entre as quatro estrelas, atribuídas ao monte de palha, e as cinco estrelas, glorificadoras do monte de merda. No desaparecimento da FMR são as exéquias dos sentidos humanos, nobilitadores da espécie, que se organizam, e é a ressurreição do vazio da inteligência, e do engenho, que se promove. Busquem-se mais fundas razões do assassínio, e deparar-se-nos-á a instalação do blackout globalizador, fazendo baixar ao grau zero absoluto o relativo grau zero da invenção, e a apocalíptica performance de um colosso da indústria, vomitando para os céus o luto da sua fumaça.
Não se nos autorizando proclamar, "A revista morreu, viva a revista!", resta-nos ainda assim um rio de lágrimas, a carpir a sua perda, e a alimentar um ultra-romantismo que julgávamos sepulto, e reduzido a cinza, nos figurinos do gosto, entretanto desactualizados.
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23:33 Sexta-feira, 25 de Dez de 2009
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Os proverbiais balanços de fim de ano, destacando o que nos doze meses transactos se encaixou no lugar cimeiro do nosso quadro de valores, ou o que simplesmente nos deu no goto, convocam em geral um desfile de monumentalidades. Selecciona-se o maior, o mais importante, ou o mais precioso, e esquecem-se as pequenas lucilações, não raro responsáveis por um relâmpago de felicidade. Nasce esta em geral do livro de que ninguém falou, da frase que se ouviu ao acaso das ruas, do filme que passou despercebido, do compasso do quarteto que desconhecíamos, ou da tonalidade de uma nuvem de Outono, avistada da varanda da nossa casa.
O meu tributo seguirá assim desta vez para um punhado de aparentes irrelevâncias que me iluminaram 2009, e que de certeza absoluta ninguém mais elegerá como merecedoras de consideração. Refiro-me ao obscuro autor de uma monografia sobre talha barroca, só encontrável nas prateleiras de algum alfarrabista, ao jovem ficcionista inédito, e que porventura jamais chegará ao escaparate das livrarias, o qual redigiu uma cadeia de parágrafos, todos eles incomensuravelmente superiores a um qualquer da pacotilha escriturária que por aí anda, e à vendedeira de melões da beira da estrada que, repondo numa locução banal o Português de lei, atirou para a lixeira toda essa ganga de loja de trezentos, impantemente vestida pelos literatos feitos à pressa. Para tal gentinha, cujo anonimato se me impõe respeitar, vai a minha derramada gratidão, e a minha vontade teimosa de prosseguir na pesquisa de cintilantes minudências.
Tudo isto pertence a um ofício de escrita que, em consequência do continuado decurso do tempo, tropeça com espanto boquiaberto naquilo que lhe apontam como admirável, quando não como genial. E enchem-se-me as estantes de volumes tidos por insuperáveis, e que nem com o bocejo caridoso se descerram, despachados após a leitura do primeiro período para o cemitério das obras-"primas" em função da histeria da moda, ou da compulsão do consumo. Deixando no entanto de parte, e além de letras e tretas, instalações e performances, sempre festejadas com cinco estrelas, e gritarias fumarentas, impingidas como prova da infinita resistência do ouvido humano, será sobretudo aos bichos, às plantas, às rochas, e às variações da luz, ou da temperatura, que nos reportaremos para a comovida homenagem, preceituada pela queda da folha derradeira do calendário.
Mas à entrada do novo decénio prometemos ficar atentíssimos ao trânsito dos viajantes tresmalhados, esses que, não subindo sequer aos jornais, não constarem dos tops dos ignorantes, ou dos distraídos, e que apenas imprimirem na neve a pegada que na neve se for apagando.
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9:00 Sexta-feira, 18 de Dez de 2009
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A coincidência do mais acotovelante dos consumismos, marca actual da quadra que atravessamos, com a redução a quase nada, imposta pela estética reinante, do tradicional universo natalício, incita-nos a um rápido apontamento. A contragosto é que a aquisição afobada de presentes, de ornamentos, e de comestíveis, exigida por uma falsa razão de sobrevivência da nossa espécie de ocidentais, nos consente o tempo destas escassas linhas.
O Natal irá emparceirar de futuro, não se duvide, com a recém-importada Noite das Bruxas, ambas as efemérides no topo da escala como fenómenos significativos de idêntico volume de vendas. E quando o Halloween ultrapassar as Festas, restar-nos-á no máximo a vitrine do museu de antropologia cultural, se entretanto não descer o próprio "museu" à categoria de conceito a abater, com o acervo dos objectos desenterrados por uma longínqua exploração arqueológica.
Pegamos no vetusto Júlio Dinis, e em A Morgadinha dos Canaviais, sua obra-prima, para cuja releitura nos falta às vezes paciência, e lá deparamos com uma paisagem de sinais que a dinâmica dos comportamentos, nem sempre ingénua, anda freneticamente a rasurar. Já o romancista desafiava os tentados por uma "moda tola" a que festejassem o "Natal de Cristo, segundo o estilo velho", mantendo "genuínos esses costumes nacionais" sem "desdouro de nome (...) ou brazão". Mal saberia ele que presenciava o início de uma longa, e porventura capciosa campanha de descaracterização.
O Natal do nosso ficcionista aquecia-se ainda no presépio à Machado de Castro, dotado da sua "pequena gruta toda cravejada de caramujos e rosas de papel, com estames de fio de prata", e povoado não apenas pelas figuras centrais, mas por uma jovial multidão, não raro anacrónica. Constituíam-na "pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestuários", "galegos dançando, ao som da gaita de foles", e "um vareiro e uma vareira". E completavam-na "um grupo celebrando um pic-nic", e até "uma amazona inglesa".
O de hoje, a existir, contentar-se-á com uma vareta vertical para São José de pé, um Z para Maria ajoelhada, uma tirinha horizontal para o Menino, um rectângulo para o boi, e outro para o burro. Tudo isto se exibirá em aço inoxidável, assinado por um designer em alta, a condizer com os obsequiosos cartões que se enviam, e se recebem, por motivos labirínticos, e que se ilustram com uma indigência de doirados rabiscos, indistintos dos que timbram o convite para o réveillon no casino da esquina.
Natal, verdadeiro Natal, só existe o que nos testemunhou a infância, e que daqui por um punhado de décadas terão esquecido as crianças que vierem, quando não eternamente pobres, fatalmente hiperactivas, herdeiras em partes desiguais da época que vai correndo.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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9:00 Sexta-feira, 11 de Dez de 2009
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Retiradas do estábulo às tantas da madrugada, e subtraídas ao nórdico sono da depressão, induzido pelo défice de serotonina, as oito renas deixam-se levar na obediência que de tudo desiste. Acumulam-se no pátio os flocos do nevão que ao longo de uma semana não parou de cair, o que obriga as pobres criaturas a enterrar até à barriga as patas no frio. Mas chegaram elas já a essa fase em que quase tudo se torna indiferente, e em que um sacrifício a mais, ou um prazer a menos, pouco significado cobra no quadro geral da existência. Habituadas ao silêncio por décadas de escravatura, nem a armação que ostentam lhes autoriza aquela auto-estima que admite que se diga que sim, quando se quer, e que não, quando se não, e que nos acompanha os passos como candeia alumiadora de várias noites de escuridão. Descendentes das que formaram o grupo dos primeiros animais domesticados pelo bicho-homem, conformam-se agora as renas a que as conduzam assim, incapazes de encontrar na moleza do coração a energia do grito libertador.
Atreladas ao decorativo trenó, aguardam elas de olhos escancarados, mas corajosamente enxutos, que o gordo senhor contente que as chicoteia, e que com as crianças entretém relações não isentas de alguma suspeita, empilhe encomenda sobre encomenda, tarefa para a qual a modernidade principia a exigir a mobilização de uma bateria de guindastes. E a caixa do veículo vai desaparecendo debaixo de quanto cabe na imaginação, mas nem sempre na bolsa, dos destinatários dos multímodos pacotes. Aí se amontoam o roupão, o estojo de toillete, e o novo telemóvel, para o pai, o vestido, a serigrafia, e o novo forno eléctrico, para a mãe, a parka, os dvds, e a nova PlayStation, para o filho, a boneca que ressona, o cão que faz cocó, e o novo secador de cabelo, para a filha, mais a proverbial mantazinha para aquecer os joelhos, a depositar no lar de terceira idade ao fim da tarde do dia de Natal, para a avó em perpétuo sorriso, mas que não desvia o olhar do ecrã do televisor. A isto se junta o cd de O Lago dos Cisnes para o irmão, tão apaixonado pela música séria, e o mais recente romance histórico do ícone televisivo para a cunhada, tão exigente leitora, e tão compulsiva. Como esquecer de resto o enésimo frasco de Chanel nº5 para a tia solteirona, cada vez mais inodora, e o enésimo par de peúgas para o primo solitário, anualmente reconhecido pela oferta daquilo de que tamanha falta sentia? E na categoria das últimas lembranças lá se incluem o caixote de vinhos para o médico de família, o pirex para a empregada doméstica, e a corbeille de produtos da estação para o amigalhaço que conseguiu meter-nos o afilhado no funcionalismo administrativo.
Quando o Pai Natal salta para o banco do trenó, acrescentando a sua avantajada massa, imune a dietas, àquela carga insuportável de presentes, as oito renas amocham insolentemente na neve. E virando a cabeça para trás, fixam as coruscantes pupilas na barba branca do pançudo distribuidor de embrulhos, e berram em coro, e em fúria igual à dos professores rebeldes à avaliação, "Que um raio te parta!, que venha um foguetão puxar para Marte esta merda toda!"
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Mário Cláudio
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9:00 Sexta-feira, 4 de Dez de 2009
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A viagem, reduzida à pura dimensão do consumo da distância, e dos lugares, alinha com outras formas desse ter, agigantado sobre o ser, que sustenta o discurso dos moralistas hipócritas, quando não aparece simplesmente responsável pela globalidade do desconforto. E a competição que se estabelece entre os que estiveram aqui, ou acolá, e os que nunca lá foram, configura característico traço da actualidade urbana, agora que o ruralismo deixou de contar como área imageticamente registável, salvo na medida em que constitui isso mesmo, destino de veraneio, ou de fim-de-semana. Quando até ao advento do turismo de massas se mencionava um viajante, implicava-se na referência a vénia por aquele que sem dúvida deduziria assinalável aprendizado do seu nomadismo, e desde logo esse proveito que o conhecimento do Mundo apresentava quanto ao que na feliz locução inglesa se exprimia por "to broaden the mind", ou "alargar as ideias".
Que espírito se ampliará hoje, permitam os histéricos da modernidade que se pergunte, com a package holiday nas Bahamas, na Patagónia, ou no Árctico? Tão-só o do sujeito que quiser que o reputem de muito sabido, ou de muito arejado, ficção que uma classe cada vez menos média, voltando ao país após a surtida-relâmpago, põe a circular entre as secretárias da repartição pública, à roda da mesa da sala dos professores, ou por detrás do balcão da loja do centro comercial. Esquecem-se entretanto a infame diarreia, provocada pelo tandoori deglutido na jornada ao Taj Mahal, a descarga eléctrica da alforreca, atingindo as partes que não deveria no Mar das Caraíbas, ou a humilhação que se sofreu, quando apenas se desejava pernoitar no Raffles de Singapura, e o recepcionista, reparando nas malas em reles imitação de pele de porco, estatuiu sem delongas, "Deliveries by the back door!" Em vez disto exibem-se as fotos onde todos surgem sorridentes, e relata-se a noite no alpendre do bungalow, a observar num fascínio a desova dos corais.
Recordo os garridos excursionistas portugueses que avistei, há tempos, defronte do Baptistério em Florença. De costas viradas às esplêndidas portas de Ghiberti, abriam-se eles em magotes para as fotos que lhes tiravam, calculando já a quem haveriam de as mostrar. E a pobre guia falava, e falava, sobre aquelas maravilhas, apontando-as a ninguém que se dispusesse a prestar-lhe a mais ínfima das atenções.
Com as curtas férias da passagem de ano, e a tentação das neves que tão interessantes clichés proporcionam, tolera-se aos vagamundos que ostentem a dentadura diante da câmara, ou do telemóvel, e em cima dos skis. Mas pede-se-lhes que se abstenham de qualquer movimento menos cauto, não vá ficar-lhes o regresso a casa dolorosamente marcado pela fractura do perónio.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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9:00 Sexta-feira, 27 de Nov de 2009
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Pedro, acabado de ingressar na quarta década da sua existência, mora sozinho num apartamento dos Pinhais da Foz, não muito distante da produtora de conteúdos onde trabalha como designer. Razoável leitor de literatura de exigência, interessa-se pela evolução do jazz, e pelas questões ecológicas, pratica caça submarina no Verão, e vai ao ginásio no Inverno, e costuma acolher aos fins-de-semana um companheiro, sempre o mesmo, que não raro fica com ele mais do que sábado e domingo.
Há dias, cruzando-se no átrio do prédio com António, seu vizinho do andar de cima, e quadro superior de uma empresa de laminados, havendo-o saudado este com um sorriso em que a cortesia aberta se dissolve na ligeira troça, não pôde Pedro impedir-se de ler no movimento rapidíssimo dos lábios do seu civilizado condómino o vocábulo bissilábico "bicha" que, exportado pelos Brasileiros, confortavelmente se implantaria entre nós.
Manuela, mulher de António, e professora do ensino secundário, tendo rejeitado, há vários anos, a enorme saca que persiste em conformar o adereço de inúmeras colegas suas, e na qual encafuam os pontos para corrigir, o necessário à cosmética, e o penso higiénico de emergência, empenha-se em frequentar o centro comercial que contém a FNAC onde se abastece dos romances de Luis Sepúlveda, e dos tratados de Júlio Machado Vaz. Nos lanches na pastelaria do bairro, reunindo-se com as amigas do prédio, sobre as quais se orgulha em silêncio de exercer um certo ascendente magistrial, tem andado Manuela a insistir, agora que tanto se debate o tema, naquilo a que chama "o problema homossexual".
"Não se trata de um vício", perora ela, entretendo na ideia a imagem de Pedro, o solitário, "e o mais natural será que não passe de uma condição hereditária, de um atraso no desenvolvimento da puberdade, e talvez sobretudo de um descontrolo de glândulas." Mas não deixa de aduzir, "Não esqueçamos que o erro reside em muitos casos nessas mães possessivas como a minha sogra, mas no António, e graças a Deus, não se manifestaram, bem pelo contrário, quaisquer efeitos especiais." Ri com gosto da pilhéria, e sumaria, "É preciso compreendê-los, lembrando-nos do caso dos Gregos, isto muito embora esses fossem pagãos, e não neuróticos, e temos que admitir que tais relações se revestem muitas vezes de uma certa beleza, quando um dos parceiros morreu, ou quando os dois morreram já."
Cai o sol de Outono nas ondas do Atlântico, ao chegar Manuela ao prédio, e a tempo de ouvir ainda a empregada de limpeza que, enxugando na bata as mãos molhadas do líquido abrilhantador dos mármores, desabafa com a porteira logo a seguir ao trânsito de Pedro que entretanto desapareceu, e à subsequente piscadela de olho que entre ambas costumam trocar, "Que casamento?, eu é que lhes dava o casamento!, como é que conseguem eles fazer o serviço com dois coisos, e elas sem coiso nenhum?"
Ignorando o ar falsamente envergonhado com que as irreverentes domésticas, fingindo-se apanhadas de surpresa, aguardam o referendo da Senhora que lhes consagre a brejeirice, Manuela atravessa o átrio, e carrega no botão do ascensor. E enquanto espera, compondo os cabelos cendrés, pergunta a si própria se não deverá, não no resto, mas apenas naquilo, e para que não a confundam com semelhante gente, deslocar-se um poucochinho, um poucochinho só, para a esquerda.
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