Os professores têm toda a razão. O sistema de avaliação proposto pelo Ministério da Educação promove a injustiça, transformando em avaliador quem chegou ao topo sem ser avaliado. E assim se desacredita um instrumento fundamental para a qualificação das escolas. A ministra perdeu a oportunidade de dar uma verdadeira autonomia às escolas, continuando a fúria regulamentadora. E prepara-se para promover pequenos tiranetes nas direcções escolares. Mas, mais importante: não consegue trabalhar com os profissionais de que precisa para fazer qualquer mudança.
As reacções dos professores têm sido de justificada indignação. E nestes momentos dá-lhes para o melhor e para o pior. O melhor: protestar e, ao mesmo tempo, organizar-se para discutir o sistema educativo com o resto da sociedade. O pior: repetir, pela boca dos novos movimentos de professores, o que de mais demagógico e falso se tem dito e escrito sobre a escola pública. Que é facilitista; que, ao contrário do que acontecia no passado, se chega à Universidade sem se saber nada; que reina o caos e a indigência nas salas de aulas. É falso. Os alunos saem hoje da escola mais preparados do que saíam os seus pais e os seus avós. Hoje escreve-se melhor do que se escrevia. Lê-se mais e sabe-se mais. Investiga-se mais e melhor. Temos melhores técnicos e profissionais. Vejam todas as estatísticas: somos hoje um país mais escolarizado e melhor escolarizado. E isso foi obra da escola pública e universal e dos seus professores. Um feito conseguido em apenas trinta anos.
O pior que os professores podem fazer é cuspir no prato que eles próprios, com tanto esforço e com tão pouco reconhecimento, cozinharam. É um suicídio fazer coro com aqueles que atacando a escola pública estão, na realidade, a atacar tudo o que eles têm feito. Os professores precisam que os portugueses saibam que têm alguma coisa a defender. E têm: com muitos e graves defeitos, a escola mais democrática, universal e qualificada que o país já conheceu.
Nervo mole
Sarkozy estava de visita a um Salão de Agricultura. Aproximou-se de um homem para o cumprimentar. Deste veio a reacção: "não me toques, que ainda me sujas". Nicolas respondeu como responderia o comum dos mortais: "então desaparece, pobre idiota". Trivial. Por mim, desconfio sempre de um político que faz um sorriso quando lhe chamam 'ladrão' ou 'mentiroso'. Mas parece que a respeitabilidade de um presidente se mede pela ausência de nervo e Sarkozy foi massacrado.
O pior veio depois. Numa entrevista ao 'Le Parisien', Nicolas Sarkozy respondeu a perguntas de leitores. Sobre a polémica, disse o óbvio: "não é porque se é Presidente que nos tornamos em alguém que é possível espezinhar". Mas a versão final da entrevista foi ao Eliseu para 'verificação'. E de lá veio um acrescento: "posto isto, tinha feito melhor em não lhe responder". Pior a emenda que o soneto. O jornal revelou que se tratava de um acrescento não dito pelo Presidente, que, na entrevista, "não exprimiu o mínimo arrependimento". Fica uma lição para Nicolas: devia ter confiado no seu primeiro instinto. Porque pior do que um malcriado ofendido é um malcriado sem espinha.
Daniel Oliveira