Agora que anda tudo de candeias às avessas com jornalistas interventivos, deviam lembrar-se que a última vez que este país esteve à beira de uma guerra civil, em 25 Novembro de 1975, foi um jornalista cabeludo que colocou comandos e páras em Tancos a chorar como meninas nos braços uns dos outros. É o que se vê nas imagens a preto e branco e ficará para a História. E nesse dia o PREC acabou e desde aí praticamente os portugueses não andaram mais à pancada. Excepção feita para forcados bêbados em bares de meninas, insultos inconsequentes em caixas de comentários de jornais e o Pacheco Pereira.
A verdade é que o cidadão comum pode viver o seu quotidiano, mesmo com saídas nocturnas etilizadas, sem um curso de defesa pessoal ou uma moca de Rio Maior escondida no casaco. Na Grã-Bretanha partem-se anualmente 8 milhões de copos em brigas de bar. Por cá, os copos partem-se pela mão dos empregados mal dispostos das cervejarias.
Já há anos que os ginásios em Portugal - através de um franchising neozelandês, o Les Mills - importaram modalidades de grupo que têm nomes sonoramente bélicos (bodyattack, bodycombat, etc.) que são aulas cardio-energéticas para 'libertar' raiva com socos no ar. Mas basta uma mera observação para se constatar que são aulas com uma população muito feminina - além de que no final produz um certo mas contido empowerment, pois é mais que provável que ninguém saia dali decidido a bater no cônjuge ou na sogra.
Mas se há local onde as modas correm mais rápidas que Usain Bolt é nos ginásios. Rio de Janeiro, Manhattan ou Cacém é uma questão de milésimos. E a verdade é que a geração que andou a protestar contra o Serviço Militar Obrigatório anda agora a fazer exerciciozinhos da tropa e a ouvir gritos "enche mais 20!" Primeiro o boxe e depois o muay thai entraram nos ginásios chiques. Mas agora foi mesmo a tropa que entrou para dar ordens aos gravatinhas. E depois disso chegaram os seals e os israelitas.
O boot camp (recruta) é, em termos físicos, a mais completa e exigente das modalidades. Normalmente, é dada por um instrutor com experiência militar, é praticada ao ar livre e recria as condições de tropa, sem barrinhas de energia nem aguinhas coloridas, optimizando resultados, quebrando rotinas e padrões físicos do ginásio. Já existe em inúmeras academias e tem hoje um complemento que é o TRX, um treino de suspensão e força funcional feito com apenas um aparelho de fitas, inventado pelas forças especiais norte-americanas. E que é uma carga de trabalhos, pois ninguém imagina a tortura que é aquele treino em suspensão, força e core até experimentar.
Actualmente, está a sair da obscuridade o krav maga, a "luta de proximidade" israelita que usa apenas o corpo para desarmar adversários e que "até finais dos anos 60 foi segredo de estado". O meu amigo Paulo, fotógrafo de moda e simultaneamente gerente de discoteca e praticante de artes marciais, fartou-se de levar sopapos devido às visitas das "máfias da noite" (isso não era bem violência - era business), foi uns tempos para Israel tirar um curso de bodyguard, voltou com o grau de instrutor de krav maga, e o olhar que se perde por vezes algures entre o maga e o krav. Mas a verdade é que, quem tem amigos assim, não precisa de ter cursos de defesa pessoal, só precisa de ter o colesterol baixo.
Boot camp - Exemplo de um grupo de treino dedicado a esta actividade. Trata-se de uma modalidade com um desenvolvimento tão grande que tem já um "encontro de luxo" em Portugal, em Lagoa New You Boot Camp Portugal Programme, com eventos só para homens, mulheres e mistos, a partir de Inglaterra.
http://www.bootcampportugal.com/
http://www.newyoubootcamp.com
Krav maga - Dos pequenos ginásios para o mainstream, o krav maga, a arte marcial de autodefesa israelita, está a chegar aos Holmes Places e afins.
http://www.ikmportugal.com/
http://www.kravmagaportugal.com/
TRX - É a grande moda e pode ser visto com frequência no Central Park, de Nova Iorque. A melhor forma de evoluir é com um instrutor particular, mas também pode ser feito em grupo. O TRX transforma o peso do corpo do utilizador em resistência variável. Os utilizadores escolhem o nível de dificuldade dos exercícios simplesmente fazendo variar a posição do corpo. Não são necessários pesos adicionais. Com o TRX pode-se treinar em qualquer lugar. Basta prendê-lo a uma estrutura fixa.
http://www.gimnica.pt/conte.php?a=112
Texto publicado na edição da Única de 20 de Fevereiro de 2010