Sobre a relação entre a actual crise e a informação e compreensão pública do que se passa, vale a pena olhar o complexo caso que opôs o gigante da distribuição inglesa Tesco (uma espécie de Wal-Mart britânica) e o "The Guardian".
Tudo começou com um estudo sobre as actividades financeiras da Tesco publicado em Maio e que, no essencial, revelava que, recorrendo a offshores e cruzamentos financeiros os mais diversos, a gigantesca empresa, cujas actividades se estendem da Grã-Bretanha à Tailândia, havia em 2006 montado um sofisticado esquema de pura fuga ao fisco que previa por si só lucros da ordem dos 8,5 biliões de dólares.
A Tesco respondeu com um violentíssimo ataque, mobilizou uma das mais destacadas e agressivas firmas de advogados do Reino Unido, a Carter-Ruck, e lançou sobre o jornal uma bateria de pedidos de indemnização que, se a sentença final em Julho passado tivesse sido outra, envolveria verbas da ordem dos 7,6 milhões de dólares!
A caso compreende uma série de esclarecedores episódios. Desde logo o facto de, poucos dias após a publicação, o "Guardian" ter reconhecido que nela havia incorrecções, ter apresentado os necessário desmentidos com impecável destaque e públicas desculpas à Tesco. Esta recusou liminarmente qualquer acordo, prosseguiu com o processo que implicou facturações de 808 mil dólares da Carter-Ruck, acrescentadas por débitos de quase meio milhão de dólares de consultores financeiros (Ernest Young, etc.), enquanto o jornal terá dispendido idêntico meio milhão com os seus advogados.
Entretanto, em pleno reboliço, o tablóide "Private Eye" publica uma reportagem igualmente sobre a Tesco e os seus negócios financeiros que incluía aspectos parciais contidos no trabalho inicial do "Guardian". A Tesco e os seus aguerridos advogados ignoraram por completo a situação: à evidência, a negação dos dados usados pelo "Private Eye" não se incluíam nas inexactidões reconhecidas pelo "Guardian", aconselhando prudente silêncio, e um conflito com um tablóide jamais proporcionaria à empresa as mais-valias publicitárias de uma eventual vitória judicial sobre um incómodo jornal de referência com o "Guardian". Tanto mais que o enquadramento jurídico da liberdade de imprensa no país de Sua Graciosa Majestade coloca os órgãos de informação num permanente fio de navalha, sem qualquer paralelo nas designadas democracias ocidentais.
A verdade, contudo, é que, em Julho passado e frente ao juiz, a Tesco acabou a atirar a toalha para o ringue, não sem duros prejuízos financeiros para ambas as partes (o texto do chefe de redacção do "Guardian", Alan Rusbridger, que deu o caso por encerrado custou, só por si, umas centenas de milhares de dólares em consultadorias!).
O caso permite várias leituras, mas uma interessa particularmente. De há anos a esta parte que os principais quadros das grandes empresas tratam essencialmente das actividades financeiras dos grupos e de lucros obtidos em operações especulativas e fugas ao fisco, em que os offshores desempenham papel essencial. Um top manager da Tesco possivelmente não distingue um iogurte de um detergente nos seus escaparates, mas é pago a peso de ouro para congeminar intrincados esquemas de pura fuga aos impostos. O essencial é que o grau de sofisticação e especialidade atingido por esta acção torna a actividade do jornalismo de investigação (e das próprias autoridades de regulação e fiscalização) num labiríntico percurso de contingentes resultados. Quando o editor principal do "Financial Times" reconhece que os seus jornalistas (talvez os mais bem preparados do sector) têm dificuldade em compreender todos os esquemas, no que se juntam a reguladores, gestores bancários e público em geral - como é que vamos de democracia?!