As empresas públicas sofrem de um mal crónico que condiciona toda a sua actividade: são públicas. As Estradas de Portugal receberam uma lista de estradas a construir e concordando ou não com elas (desconfio que discordam da racionalidade de boa parte das estradas projectadas), têm de as construir, pois essa é a vontade do accionista, o Estado.
A TAP tem o mesmo problema. Por muito que a gestão seja profissional, tem de respeitar a vontade de um accionista para quem conceitos como rentabilidade ou valor acrescentado não entram na equação. O que o accionista Estado quer é livrar-se de greves, de contestação social, do barulho político e ter uns favores de vez em quando. Por muito profissional que a gestão seja, acaba sempre por ter de jogar com estas peças do puzzle que limita o espectro de actuação e a força para enfrentar os muitos grupos de pressão. Só assim se compreende que, num ano negro, os pilotos da TAP venham exigir aumentos de 11%, ou que a TAP tenha sido 'forçada' a engolir a deficitária e possivelmente falida Portugália (PGA).
Ao longo dos tempos já conhecemos diferentes versões para o futuro da TAP. Primeiro era a fusão da Swissair, que não aconteceu por falência desta. Depois era a junção das três companhias nacionais, TAP, SATA e PGA numa só. Impossível porque os Açores se recusaram, acabando a TAP por ter de engolir o sapo PGA. Uma fusão com a Ibéria também foi hipótese nunca concretizada. Em tempos, a Varig foi opção, principalmente após a falência da companhia de bandeira brasileira. Agora fala-se de uma aliança com a TAM brasileira e com a TAAG angolana. E enquanto perdemos tempo nestes cenários, outros vão concretizando.
A fusão entre a British Airways e a Ibéria irá criar mais um gigante mundial. A nova empresa irá transportar por ano perto de 60 milhões de passageiros e terá uma facturação superior a 16 mil milhões de euros. A TAP transporta quase 9 milhões de passageiros por ano e factura pouco mais de 2 mil milhões. E por muito que os especialistas digam que esta fusão não irá afectar as operações da TAP (ver página 17), principalmente para a América do Sul, custa a crer que este mercado em grande expansão não se torne rapidamente uma prioridade para espanhóis e ingleses.
Fernando Pinto é um gestor público e carrega com ele o peso de ter um accionista que muda de estratégia ao sabor do vento político. O Governo tem que decidir rapidamente o que quer para a TAP. Aposta na política de nicho, confiando na capacidade da pequena companhia em competir com as grandes potências, ou avança para alianças mais alargadas tentando ganhar dimensão e peso em mercados como África e América do Sul. Agora escolha, mas por favor escolha!
João Vieira Pereira
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009