12/02/2012 atualizado às 23:34
Página Inicial » Opinião » Luís Fernando Veríssimo » A sopa

A sopa

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 10 de março de 2010

- Orlando, me explica uma coisa.

Orlando parou de tomar a sopa, com a colher a meio caminho da boca. Era raro a Dalinda dizer qualquer coisa na mesa do jantar. Nos últimos anos, a conversa dos dois durante as refeições tinha se limitado ao básico. "Passa o sal" e pouco mais. E de repente a Dalinda estava pedindo uma explicação.

- O quê?

- Porque é que você toma sopa desse jeito?

- Que jeito?

- Assim.

Ela mostrou com um gesto como ele fazia. Pegava a sopa pelo lado mais distante da colher, contra a borda mais distante do prato.

- Eu sempre tomei sopa assim.

- Porquê?

Orlando hesitou. O que era aquilo? Só curiosidade da mulher? Ou o prenúncio de alguma outra coisa? Uma trovoada longínqua, sinal de tormenta se aproximando? Foi precavido. Perguntou:

- Porque é que você quer saber?

- Para saber.

- E só agora? Trinta anos de casados e só agora você notou como eu tomo sopa?

- Trinta e dois...

- O quê?

- Anos de casados.

- Que história é essa, Dalinda?

- História nenhuma. Eu só quero saber porque...

- Não. Não é só isso. Você está querendo me dizer alguma coisa. Você está preparando o terreno para não sei o quê. Quer me contar alguma coisa, é isso? Não sabe como começar e vem com essa história de sopa. É sobre o Heitor, é?

- Que Heitor?!

- O Heitor da farmácia. Pensa que eu não sei que aquela injecção não precisava ser na nádega? Que ele é que inventou que precisava ser na nádega? Depois eu me informei. Não precisava.

- Orlando! Que absurdo! Eu nunca mais vi o seu Heitor depois da injecção.

- Sei não, sei não...

- Nem me lembro da cara dele.

- Sei não, sei não...

- Está bom, esquece a sopa. Eu só estava querendo puxar conversa. A gente não conversa mais.

- Dalinda...

- Termina logo essa sopa, Orlando.

Mais tarde, na cama.

- Dalindinha...

- O que é?

- Foi a minha mãe que me ensinou a tomar sopa desse jeito. Assim, o lado da colher que a gente põe na boca fica frio, porque a sopa quente entrou pelo outro lado.

- Sei.

- Sobre o que mais é que você quer conversar?

- Eu quero dormir.

- Você ficou brava comigo?

- Não, Orlando. Vamos dormir.

- Dá um beijinho?

- Amanhã, Orlando.

Mas Dalinda não dormiu. Pela primeira vez desde a injecção, pensou no seu Heitor da farmácia. Nos seus cabelos grisalhos, no calor da sua mão moldando a carne da nádega para receber a agulha, na sua voz de locutor dizendo "Não vai doer..." Se não fosse o Orlando lembrá-la, ela teria esquecido do seu Heitor. E agora não conseguia dormir, pensando nos seus cabelos grisalhos, na sua voz de locutor e na sua mão quente demorando para moldar a carne da nádega.

Texto publicado na edição do Actual de 6 de Março de 2010

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Se acaso
0:00 Quarta feira, 23 de fevereiro de 2011, 1
Bodoque
0:00 Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011, 1
Entre grades
0:00 Quarta feira, 9 de fevereiro de 2011,
Os pêssegos
0:00 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011,
Geoffrey
0:00 Quarta feira, 26 de janeiro de 2011,
O homem que casou com a sua mão direita
0:00 Quarta feira, 19 de janeiro de 2011, 3
Resoluções
0:00 Quarta feira, 12 de janeiro de 2011,
Crer
0:00 Quarta feira, 5 de janeiro de 2011,
2010, Adeus
0:00 Quarta feira, 29 de dezembro de 2010, 1
Cinzas
0:00 Quarta feira, 22 de dezembro de 2010,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP