O surto da ainda corrente gripe A, aproveitado pela generalidade da comunicação como prato forte de sucessivas manchetes, ficará por símbolo de uma dessas alucinantes estratégias preventivas, sistematicamente apostadas em nos envenenar os dias. Referendado com alguma hesitação pelos responsáveis da política sanitária, ter-se-á distinguido todo esse alarme, encapotado de bom conselho, mais pelo seu efeito perverso do que pela sua legítima justificação. Aparecido na lógica de uma onda pretensamente informativa, multiplicada por consultórios televisivos, preocupados com a saúde dos homens, e às vezes também com a dos animais, só a custo conseguiria a campanha anti-gripe afastar-se de um plano perigosamente inclinado. E por aí, desprovidos os "esclarecimentos" dos particularismos que os tornassem rigorosos, precipitar-se-ia uma grande mancha da população numa espiral de medo, susceptível de desencadear acessos de pouco saudável hipocondria. Saía-se de uma moléstia pela porta da frente, e entrava-se numa outra pela das traseiras.
Defender o doseamento de determinados alertas, e apelar para a sensatez de os ler à luz de um amplo espectro de dados, haverá de parecer a uns quantos, e de certeza aos propugnadores de tais dinâmicas, sinal de retrógrada concepção de vida, quando não de inconsciência imperdoável. Mas a inquietante cornucópia de ensinanças que nos despejam em casa sobre a diabetes, o glaucoma, a fibromialgia, a síndrome de Alzheimer, a artrite reumatóide, a erisipela, o pé-de-atleta, a dança-de-São-Vito, e quejandos e infinitos terrores, só poderá descerrar-nos um quotidiano de cidadãos combalidos, e presos à angústia de quem, sobrevivendo num perpétuo hospital, se vê atirado de especialidade para especialidade sem achar a receita que lhe proporcione o bem-estar meridiano. Debitados por sumidades supostamente indiscutíveis, os avisos que nos chegam, em regra afinados por um toque a fogo desembestado, misturam-se ao paladar das iguarias que nos proíbem, mas que logo a seguir opiparamente nos oferecem, irresistíveis em cores e texturas, na publicidade do mesmo canal.
A acrescer à poluição que faz irrespirável o ar, inaguentável o sol, impotável a água, e incultivável a terra, o pânico em que nos entretêm equivale a uma espécie de promissora morte lenta, muito mais insofrível do que a morte eficaz. Não se estranhe por isso que nos apeteça o segundo dilúvio lustral, um que não seja de chuvas ácidas porque dessas temos já quanto baste, ou um primeiro baptismo de fogo purificador, o que nos devolva à tranquilidade da cinza, e do nada, para que sempre tende, e afinal, o pobre corpo que levamos.