Retiradas do estábulo às tantas da madrugada, e subtraídas ao nórdico sono da depressão, induzido pelo défice de serotonina, as oito renas deixam-se levar na obediência que de tudo desiste. Acumulam-se no pátio os flocos do nevão que ao longo de uma semana não parou de cair, o que obriga as pobres criaturas a enterrar até à barriga as patas no frio. Mas chegaram elas já a essa fase em que quase tudo se torna indiferente, e em que um sacrifício a mais, ou um prazer a menos, pouco significado cobra no quadro geral da existência. Habituadas ao silêncio por décadas de escravatura, nem a armação que ostentam lhes autoriza aquela auto-estima que admite que se diga que sim, quando se quer, e que não, quando se não, e que nos acompanha os passos como candeia alumiadora de várias noites de escuridão. Descendentes das que formaram o grupo dos primeiros animais domesticados pelo bicho-homem, conformam-se agora as renas a que as conduzam assim, incapazes de encontrar na moleza do coração a energia do grito libertador.
Atreladas ao decorativo trenó, aguardam elas de olhos escancarados, mas corajosamente enxutos, que o gordo senhor contente que as chicoteia, e que com as crianças entretém relações não isentas de alguma suspeita, empilhe encomenda sobre encomenda, tarefa para a qual a modernidade principia a exigir a mobilização de uma bateria de guindastes. E a caixa do veículo vai desaparecendo debaixo de quanto cabe na imaginação, mas nem sempre na bolsa, dos destinatários dos multímodos pacotes. Aí se amontoam o roupão, o estojo de toillete, e o novo telemóvel, para o pai, o vestido, a serigrafia, e o novo forno eléctrico, para a mãe, a parka, os dvds, e a nova PlayStation, para o filho, a boneca que ressona, o cão que faz cocó, e o novo secador de cabelo, para a filha, mais a proverbial mantazinha para aquecer os joelhos, a depositar no lar de terceira idade ao fim da tarde do dia de Natal, para a avó em perpétuo sorriso, mas que não desvia o olhar do ecrã do televisor. A isto se junta o cd de O Lago dos Cisnes para o irmão, tão apaixonado pela música séria, e o mais recente romance histórico do ícone televisivo para a cunhada, tão exigente leitora, e tão compulsiva. Como esquecer de resto o enésimo frasco de Chanel nº5 para a tia solteirona, cada vez mais inodora, e o enésimo par de peúgas para o primo solitário, anualmente reconhecido pela oferta daquilo de que tamanha falta sentia? E na categoria das últimas lembranças lá se incluem o caixote de vinhos para o médico de família, o pirex para a empregada doméstica, e a corbeille de produtos da estação para o amigalhaço que conseguiu meter-nos o afilhado no funcionalismo administrativo.
Quando o Pai Natal salta para o banco do trenó, acrescentando a sua avantajada massa, imune a dietas, àquela carga insuportável de presentes, as oito renas amocham insolentemente na neve. E virando a cabeça para trás, fixam as coruscantes pupilas na barba branca do pançudo distribuidor de embrulhos, e berram em coro, e em fúria igual à dos professores rebeldes à avaliação, "Que um raio te parta!, que venha um foguetão puxar para Marte esta merda toda!"