Manuel Alegre ainda não é o candidato presidencial do PS - mas vai sê-lo, quer Sócrates o deseje sinceramente quer não. Na sua primeira candidatura a Belém, Jorge Sampaio também enfrentava fortes resistências entre os socialistas quando se declarou disponível. Mas impôs-se à direcção de António Guterres. O facto de se ter chegado à frente quando faltavam muitos meses para as eleições inibiu outros potenciais concorrentes socialistas de se apresentarem contra ele.
Ainda que informalmente, Alegre está no terreno. E em condições bem mais favoráveis do que aquelas em que, na altura, Sampaio se dispôs a participar. Desde logo, foi testado há quatro anos e com bastante sucesso, mesmo sem o apoio oficial do PS. Depois, e ao contrário do que sucedeu nas últimas presidenciais, não se vê outro socialista que possa ou queira disputar-lhe a primazia. Mário Soares não está certamente interessado em repetir a desagradável experiência de há quatro anos. António Guterres, empenhado no trabalho que faz com gosto na ONU, não dá o menor sinal de atracção por Belém. E Jaime Gama, que poderia até sentir-se tentado pelo lugar, não está com certeza disponível para um combate fratricida e de resultado mais que duvidoso como aquele a que Soares se dispôs em 2005.
Alegre apostou forte e apostou bem. A aparente hesitação da direcção do PS pretende sugerir que não houve entendimento prévio entre as duas partes. Mas ninguém duvida de que, se não se rendeu já, José Sócrates vai render-se, mais cedo ou mais tarde. A não ser que consideremos um cenário delirante, com o primeiro-ministro a precipitar uma crise, não para se recandidatar à chefia do Governo, mas para enfrentar Cavaco nas presidenciais.
Seja como for - e pondo de parte tal cenário -, a protocandidatura de Alegre é muito útil ao PS. Enquanto se discutem as presidenciais não se discute a crise. Nem as dificuldades de um Governo condenado a trabalhar nas condições que os eleitores lhe impuseram, pois já se viu que nem o Presidente nem a direita lhe vão dar pretextos aceitáveis para se demitir na mira de ser compensado em eleições. Por outro lado, Alegre reforça e até dispensa o PS de se envolver directamente na guerrilha com Cavaco, porque ele próprio vai assumir, com a legitimidade de quem pretende disputar-lhe o cargo, essa tarefa de desgaste do actual Presidente.
Tudo indica, portanto, que Alegre receberá o apoio de Sócrates e, numa eventual segunda volta, o de toda a esquerda. Resta saber que Presidente seria, ou será o candidato-poeta, na hipótese de ganhar a eleição. Para termos uma ideia, basta imaginá-lo hoje em Belém, com o PS a negociar o Orçamento com o PSD e o CDS, deixando a esquerda de lado.
Tudo visto e ponderado, talvez Sócrates considere remota a hipótese de Cavaco perder, agora que já parece evidente a sua recandidatura. Ou, então, o primeiro-ministro sabe, ou calcula, que nunca se confrontará com Alegre em Belém, pela simples razão de que, pelo seu lado, já não estará em São Bento.
Uma farsa em Belém
Santana Lopes declarou-se honrado por ter recebido das mãos de Cavaco Silva a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Cavaco disse ter-lhe atribuído a condecoração - e mais três a outros tantos altos dignitários - para cumprir "o dever e a tradição". A cerimónia foi simples mas solene, os discursos foram breves como convinha e todos ficaram felizes por terem desempenhado os seus papéis a contento.
Porque não deve ser fácil resistir a uma Grã-Cruz e também porque lhe ficaria mal recusar, Santana lá foi a Belém recebê-la. Porque a "tradição" é para ser cumprida e diz que devem ser condecorados os que exerceram "altas e complexas funções", Cavaco lá se decidiu a esquecer a sua adaptação da lei de Gresham, segundo a qual os maus políticos tendem a expulsar do mercado os bons políticos, tal como acontece com a má moeda.
O tempo, é certo, acaba por mitigar muitas afrontas. Mas a expressão de Santana, com a sua melhor cara de enterro, e a de Cavaco, com o seu sorriso mais artificial, traduziam bem toda a incomodidade que as palavras omitiram. A cerimónia que vimos pela televisão foi um daqueles momentos penosos a que a representação política por vezes sujeita, não só os seus protagonistas, mas também a compungida assistência. Cumpriu-se um "dever" e uma "tradição", diz o Presidente. Ficamos assim esclarecidos sobre a verdadeira função das condecorações. Umas servem para premiar, nas grandiosas celebrações do Dia de Portugal, os amigos políticos de cada Presidente. Outras destinam-se a agraciar, em ambiente mais recatado, quem exerceu "altas e complexas funções" - e não apenas quem as exerceu com mérito muito acima da média, como seria de esperar. Sendo esta a tradição, ou o sistema, como se diz no futebol, não se vê porque haveria Santana de ser discriminado. Nem porque se há-de gastar tanto dinheiro em cruzes e grã-cruzes que, na verdade, já pouco significam.
Casino BPN
E vão 4,2 mil milhões. Não se trata de dinheiro virtual apostado num casino electrónico por um doido descontrolado pelo vício. É a verba que a CGD já injectou no famoso BPN. Quando é que isto acaba? E alguém responderá algum dia pelo assalto original? Diz o presidente da Caixa que esses milhões não têm impacto nas contas do banco público. Talvez a gestão bancária se tenha tornado uma ciência oculta e a CGD esteja a ser governada por alquimistas.
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010