Depois da tentativa falhada de compra da TVI pela PT, um negócio que teria a ver com a intenção de José Sócrates de afastar José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes da estação televisiva, a operadora de telecomunicações deve fazer uma profunda reflexão sobre a sua forma de funcionamento.
A demissão de Rui Pedro Soares da comissão executiva é um primeiro passo. A eventual saída de Fernando Soares Carneiro pode ser o segundo. Ambos representa(va)m a golden share do Estado na PT. Mas engana-se quem pensa que estas saídas resolvem o problema de fundo: a PT tornou-se uma empresa que os Governos de plantão utilizam para pagar favores políticos e/ou para atingir objectivos, uns louváveis, outros muito pouco estimáveis.
A par disto, claro, existe uma gestão muitissimo profissional e um grupo de quadros de altíssima qualidade. Mas o contágio político está a minar a credibilidade e os valores da empresa. E quando, de cada vez que surge uma situação destas, nos atiram com o argumento de que a PT é a única empresa portuguesa cotada na Bolsa de Nova Iorque e, portanto, não faz operações duvidosas nem pisa o risco das boas regras de governance, começamos por achar que sim, depois duvidamos e, no final do dia, não acreditamos.
E não acreditamos porque os factos recentes - para não ir buscar acontecimentos mais antigos - mostram que, depois do que se passou com o investimento do fundo de pensões da PT em fundos da Ongoing, operação decidida por Soares Carneiro à revelia do Comité de Investimentos da operadora; depois da divulgação das actas de reuniões do conselho de administração da PT no site e no jornal da Ongoing, o que foi considerado "um acto terrorista" pelo chairman da PT, Henrique Granadeiro; e depois do mesmo Granadeiro, em entrevista ao Expresso, ter convidado Soares Carneiro a demitir-se, nada aconteceu. Fernando Soares Carneiro continua a presidir ao fundo de pensões da PT. Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, que controla o "Diário Económico", que divulgou as actas, continua a presidir ao comité de governance da PT. E Rui Pedro Soares só saiu (embora fique na empresa...) porque as buscas da Polícia Judiciária na PT e no Taguspark, no quadro do processo Face Oculta, tornaram a situação insustentável.
Em todo este processo nem Henrique Granadeiro nem Zeinal Bava ficam bem na fotografia. Granadeiro porque quer mas parece não poder; Bava porque parece que estava a desenhar uma operação sem dar conhecimento ao seu presidente - e depois foi obrigado a abortá-la. E porque ambos não deram um murro na mesa quando o poder político lhes impôs como membro da comissão executiva uma pessoa que obviamente não tinha um curriculum à altura das exigências dessa estrutura - nomeação que só foi aprovado pelo núcleo duro nacional de accionistas (Joe Berardo, Ongoing, Visabeira, Joaquim Oliveira) porque, tirando o BES, estão todos fortemente endividados e nas mãos do banco público (Caixa) ou do banco nacionalizado (BCP).
Última nota: seria um desastre para Portugal se a PT caísse nas mãos da Telefonica ou doutra multinacional. É para evitar isso que existe a golden share e é por isso que ela deve continuar a existir na pureza dos seus objectivos iniciais- e não para os Governos lá colocarem os seus homens de confiança.
Revisitando conceitos
Três gestores com uma longa e reconhecida carreira profissional, todos engenheiros de formação - Eduardo Gomes Cardoso, José Torres Campos e Luiz Moura Vicente - publicaram um livro dirigido aos gestores das pequenas e médias empresas, "Gestão de Sucesso num Mundo em Mudança".
O livro fornece um conjunto de informações utilíssimas para a esmagadora maioria do nosso tecido empresarial, constituído em 99,78% por micro, pequenas e médias empresas, conjunto que é responsável por 75% do emprego. Em 2008, das 372.961 empresas que entregaram a sua declaração de informação empresarial simplificada, há 330.577, ou seja, 88,6%, que nada exportam e só 1,9% (7140 empresas) vende mais de €500 mil para o exterior anualmente. Dito de outro modo, 99,2% das empresas portuguesas exportam menos de dois milhões de euros e só 0,8% mais do que esse valor.
Ora, o país dificilmente sobreviverá se não conseguir aumentar a sua capacidade de exportar produtos inovadores e de qualidade, que sejam reconhecidos e apetecidos pelos mercados externos. E as PME dificilmente sobreviverão à crise e à globalização se não definirem estratégias empresariais correctas e flexíveis, capazes de se adaptar a mudanças rápidas e à descoberta de novos mercados. Por isso, toda a ajuda que empresários e gestores possam ter é fundamental para sobreviver e ter sucesso. É exactamente isso que este livro faz, de uma forma muito prática e concisa, com um "tableau de bord" utilíssimo, onde são discriminados os factores essenciais de sucesso para quem se arrisca na aventura necessária dos mercados externos.
Uma das partes mais interessantes desta obra é a revisitação que faz do conceito de produtividade, desafiando a ortodoxia dominante, pois lembra que mantendo-se inalteráveis todas as outras variáveis, uma subida no valor real dos ordenados pagos, originaria só por si um aumento da produtividade do trabalho, sendo a inversa também verdadeira,
Daí decorre que países com salários mais elevados apresentam normalmente uma produtividade mais elevada. E que países com um pujante sector de serviços financeiros tem geralmente um valor acrescentado muito superior à média (vide o Luxemburgo, apesar de 10% da mão-de-obra ser constituída por portugueses, o que prova que não temos um defeito genético que nos impeça de ser produtivos...). O que daqui decorre é que a descida de salários não é, no nosso país, a panaceia para o aumento da produtividade, uma verdade esquecida por muitos, em particular por grandes instituições internacionais, como o FMI, Banco Mundial ou OCDE.
Bofetada de luva branca
Vítor Constâncio foi eleito pelo Ecofin como o nome a apresentar ao Conselho Europeu de Março para ocupar o lugar de vice-governador do Banco Central Europeu. Foi uma escolha unânime, batendo os outros dois candidatos ao lugar. É uma grande vitória para o país e uma grande vitória para Constâncio, pois resulta essencialmente do prestígio nacional e internacional de que o governador do Banco de Portugal desfruta.
Convém lembrar que Constâncio já tinha sido convidado para se candidatar ao lugar há quatro anos - e que só não avançou na altura por razões familiares. E que agora vai ficar com o pelouro da supervisão bancária em toda a União Europeia - uma bofetada de luva branca em todos os que o acusaram, por ódio político, de ter falhado na supervisão do sistema financeiro português, casos evidentes de Paulo Portas, Bagão Félix e Nuno Melo.
Entre as teorias da conspiração avulta a que divide os membros do BCE em pombas e falcões. Segundo os seus detractores, Constâncio-pomba teria assim sido escolhido para este cargo para que o candidato da Alemanha venha a ser o próximo presidente do BCE, substituindo o francês Jean-Claude Trichet. Acontece que, logo aquando da criação do BCE, Alemanha e França reservaram para si o cargo de presidente. E a disputa foi tão intensa que teve de haver um compromisso, sendo Duisenberg o candidato que emergiu. Mas acabou por ceder o cargo a um francês, que agora passará naturalmente para as mãos de um alemão.
A escolha de Constâncio não dependeu, portanto, da circunstância alemã. Aliás, quando Juncker resolveu adiar a primeira reunião para debater o tema para beneficiar o seu candidato, já Constâncio era apoiado por 11 países - e a Alemanha estava ao lado do candidato luxemburguês, mudando depois de posição para se juntar ao vencedor.
Nos últimos anos, Constâncio não teve vida fácil. Foi acusado de ter feito um favor ao PS, ao avaliar o défice implícito no Orçamento do Estado de 2005 - quando antes tinha avaliado o défice real do Orçamento do Estado de 2001. Foi acusado de ter falhado na supervisão do BPN, um óbvio caso de polícia. Foi acusado de ter falhado em matéria de previsões económicas, coisa que aconteceu em todo o mundo.
Constâncio resistiu a todas as acusações e sai por cima para um cargo de grande responsabilidade e prestígio. Merece-o inteiramente. Foi um grande governador do Banco de Portugal. E a solidez com que o sistema financeiro português ultrapassou a crise é a prova disso mesmo.
"Nós nascemos
para ter asas,
meus amigos.
Não se esqueçam
de escrever
por dentro do peito: nós nascemos
para ter asas.
(...) Aceitemos
esta hipótese,
apesar
de não termos
dela qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo.
Abram as janelas.
Podem sair.
José Fanha, Asas
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010