Num artigo publicado a 12 de Janeiro, na edição do Expresso on-line, Henrique Raposo escreveu que o declínio do sistema de ensino é da responsabilidade de sucessivos Ministérios da Educação, "que destruiu literalmente o ensino público, através de teorias pós-moderninhas". Apesar de o Ministério da Educação ter tido um papel, e importante, na degradação da qualidade de ensino, este não foi de todo o principal, e pode mesmo considerar-se que o erro do Ministério foi derivado de um primeiro erro por parte dos professores.
O problema começou, inevitavelmente, nos professores. Que existem e sempre existiram bons professores, isso é certo; que muitos ensinam e transmitem os seus conhecimentos eficazmente aos alunos, obtendo estes bons resultados, isso também. Contudo, uma porção significativa desta classe, ao se encontrar numa posição confortável em termos de direitos e deveres, onde a progressão de carreira é facilmente atingível, deixou denegrir brutalmente a qualidade do seu trabalho, consciente de que, na prática, pouco podia ser feito acerca da sua posição - e estavam certos. Daqui adveio uma inevitável torrente de estatísticas negativas nos exames nacionais, e foi então que o Ministério cometeu o seu erro.
No momento em que o Ministério mais precisava de tomar conta do sistema de ensino pelo qual é responsável, acabou por deixá-lo nas mãos da classe que originou o problema. Ao baixar absurdamente os níveis de dificuldade dos exames nacionais, com vista a melhorar as estatísticas, o Ministério declarou que o problema do ensino nacional estaria totalmente concentrado num único exame final, e não nas escolas ou nos seus professores, aceitando que estes mantivessem a baixa qualidade de ensino. Ao contrário do que afirma o Henrique Raposo, o Ministério da Educação não é responsável pelo declínio da qualidade de ensino, mas é-o por permitir que assim continue.
Uma possível solução para este problema é a avaliação de desempenho, na medida em que premeia os realmente bons professores, em relação aos restantes. Contudo, o acordo obtido entre o actual Ministério de Isabel Alçada e os sindicatos apresenta uma versão dessa avaliação, tão necessária, que pura e simplesmente não terá um impacto significativo no ensino nas escolas, por duas razões interligadas: todos os professores que obtiverem a nota de Bom poderão chegar ao topo da carreira; e 83% dos professores obtêm essa mesma nota - uma avaliação irreal. Maria de Lurdes Rodrigues, por outro lado, tentou durante o seu mandato implementar um modelo de avaliação que - salvo, possivelmente, o constantemente relatado excesso de burocracia - seria verdadeiro, real e eficaz no tremendo processo de reformular e reorganizar o ensino nacional.
Uma secção socialmente indispensável não pode ser governada pelos seus núcleos internos, visto que esta será uma governação em seu próprio benefício - a medicina ao encargo dos médicos levou à falta de profissionais, provocada pela negação da abertura de vagas nas faculdades de medicina; a indústria farmacêutica nas mãos dos farmacêuticos continua a impedir a baixa de preços de inúmeros medicamentos, devido a várias leis que protegem os seus interesses.
Em suma, assim como os anteriores, também a governação da educação pelos professores deu azo à situação em que se encontra hoje o ensino nacional. Com este modelo de avaliação, o actual ministério voltou a aceitar esta situação e a perdoar aos responsáveis.