15/03/2010 actualizado às 13:36
Cibercidadania A "praga" da Internet vitima agora os informáticos  «  Cibercidadania  «  Blogues  « Página Inicial |

A "praga" da Internet vitima agora os informáticos

23:16 Domingo, 15 de Mar de 2009
Deixe aqui o seu comentário 9 comentários   [2030 visitas]
Aumentar Texto Diminuir Texto Link para esta página Imprimir Enviar por email
del.icio.us technorati digg facebook myspace reddit google search.live newsvine

A primeira vítima da partilha digital foi a indústria musical, já lá vai uma década. O cinema temeu o pior e, talvez por ter reagido cedo, escapou. A seguir foram os jornais a declararem-se vítimas da Internet, essa "praga" que supostamente destrói a capacidade de lucro das indústrias culturais.

A próxima vítima chama-se indústria da informática.

Mais propriamente, os técnicos e programadores. Os despedimentos na indústria informática dispararam. Despede-se mais que nos meios de comunicação social, só que, ao contrário deste sector, há algum novo emprego. Da Microsoft à IBM à Google passando pela Texas Instruments, Philips, Cisco, Pioneer e Dell, nos dois últimos meses foi um corropio de despedimentos (um quadro possível aqui ). Sub-noticiados, em função do seu menor apelo mediático.

É claro que "a crise" é apontada como a grande responsável por este ajustamento. Mas olhar assim para o problema equivale a ter a mesma atitude que custou o domínio do mercado mundial da música às antigas editoras majors: ignorar os avisos, como faz a avestruz, não é boa ideia.

Na verdade, à medida que os serviços informáticos se espalham pela Internet, os programadores estão cada vez mais no mesmo barco que os outros produtores de conteúdos culturais e de entretenimento. Um barco chamado "de onde virá o próximo salário".

A praga da Internet decorre do seu extraordinário poder produtivo enquanto fábrica colectiva global que é simultaneamente rede de distribuição. Com milhões de processadores incansáveis e grátis, software de fábula grátis e milhões de seres humanos a usá-los, a Internet gera abundância nunca vista.

Primeiro, veio a abundância da cópia. Músicas aos milhões, puxáveis por ínfimas fracções de euro (a ligação à Internet tem, apesar de tudo, um preço).

Depois, veio a abundância de informação e entretenimento. Recolher os elementos, produzir uma notícia E DIVULGÁ-LA tornaram-se actividades ao alcance económico de qualquer pessoa. Para editar um blog nem é preciso saber escrever, basta saber apontar um rato e carregar num dos dois botões. Os media gemeram.

O Caterpillar da abundância atinge agora a programação de software. Como nos blogs, basta saber usar o rato para juntar peças e criar um "programa" para produzir resultados. Um programa partilhável, que outros poderão utilizar, reutilizar, manobrar. Sem que nenhum programador tenha de mexer um dos seus bem pagos dedos.

Não falo apenas de sistemas como o fantástico Pipes , da Yahoo!, ou o arsenal de aplicações da Google prontas a enfiar em qualquer página ou site. Várias empresas competem na arena das widgets - pequenas "caixas" com conteúdos ou serviços que são distribuidas e redistribuidas pelos próprios utilizadores.

Subindo um pouco - mas não muito - na escala do conhecimento: hoje um programador amador ou hóbista (como é o meu caso) pega em conjuntos de rotinas previamente empacotadas e produz aplicações que até meses atrás só estavam acessíveis a profissionais de alto nível.

Assim, tarefas que antes da Internet estavam profissionalizadas e podiam render bons salários, são hoje acessíveis, a custo zero virtual, a praticamente qualquer QI acima de macaco.

Duas consequências, a primeira observável desde logo, a segunda a médio prazo.
Primeira: as respectivas classes profissionais sofrem no ego a degradação do reconhecimento social e na carteira a degradação da economia das respectivas indústrias. Quanto mais inflacionado estivesse o nível do ego colectivo, pior (muitos jornalistas ainda se acham deuses superiores, apesar de em muitos casos não se distinguirem do cidadão informado e de raciocínio capaz).

Segunda, ocorrerá uma triagem, que separará tais classes em vários níveis conforme o seu grau de adaptabilidade às novas circunstâncias. Que comportam tanto de ameaça quanto de oportunidade. Programadores que hoje se acham parte de uma elite terão de procurar o ganha-pão nas zonas do fraco valor acrescentado, na parte nada nobre da programação a retalho, assim ao nível do ajudante de mecânico, comparando com o mundo automóvel. Isto a maioria, enquanto as minorias subirão na escada do valor passando aos macro-serviços.

Tal como sucede na indústria da música e no jornalismo, actividades onde continuamos a assistir ao pungente fingimento de que tudo está na mesma, também entre a indústria da informática teremos, não tarda, o grupo dos negacionistas - os que dirão que "a crise" é a única responsável pelos despedimentos e restruturações e que, mal o dinheiro volte a jorrar, retomarão os antigos privilégios.

Más notícias para eles: não, não retomarão privilégios. O tsunami do amadorismo varrerá também essa praia.

Paulo Querido , jornalista

9 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
O termo programador é redutor
nunofaria (seguir utilizador), 1 ponto , 10:17 | Segunda-feira, 16 de Mar de 2009
Na verdade do ponto de vista de um informático essa maior autonomia é até uma benção pois liberta-nos de muitas tarefas 'básicas' e corriqueiras que não se apresentam como grandes desafios.

Em simultâneo falamos maioritariamente de milhões de particulares que nunca recorreriam aos serviços de um informático. Desta forma os empregos que não gerariam são gerados pelas plataformas gratuitas que utilizam.

Para um nível básico todos esses plug-ins, add-ons, plataformas open software são suficientes mas a partir de um certo ponto é necessário apoio de um informático para avançar para o nível seguinte.

Mesmo a realização do mesh-up das melhores ferramentas online e a sua exploração em todo o seu potencial exige um conhecimento técnico e de estruturação de informação e trabalho de posicionamento na Internet que não está ao alcance da maioria dos utilizadores.

Uma prova disso é que o sector das IT continua a absorver a bom ritmo os profissionais que entram no mercado.

Tenha atenção também ao perigo para os jornalistas de surgirem blogs de pessoas sem 'formação' na área que apresentam conteúdos e opiniões mais consumidas e consideradas do que as de jornalistas profissionais.

Hoje lê-se muito mais blogs, fóruns, e outros conteúdos com origem em redes sociais do que artigos de imprensa.

Mais um status social em perigo ou há mais em ser jornalista do que debitar uns posts regular e periodicamente?
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
    fiquei triste com este artigo    Ver comentário
jmiguelpereira (seguir utilizador), 1 ponto , 12:17 | Segunda-feira, 16 de Mar de 2009
    Re: O termo programador é redutor    Ver comentário
fimdalinha (seguir utilizador), 1 ponto , 23:09 | Segunda-feira, 16 de Mar de 2009
    Re: O termo programador é redutor    Ver comentário
xpresso (seguir utilizador), 1 ponto , 20:53 | Segunda-feira, 30 de Mar de 2009
Visão demasiado simplista
Jorg3 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:40 | Segunda-feira, 16 de Mar de 2009
O Paulo levanta alguns pontos interessantes de discussão mas acho que no essencial tem uma visão enviusada do assunto em questão.

Concordo em grande parte com o que nunofaria levantou no comentário anterior. Diz em grande parte o que acho.

Acho que a demanda por programadores/ informáticos é crescente e aliás uma das áreas críticas no nosso país. Não há sequer mão de obra suficiente.

Os blogs, plugins grátis, etc são tarefas básicas que em nada prejudicam programadores, bem pelo contrário.

Uma analogia: conhecem o jogo Guitar Hero em que a guitarra é um conjunto de 4 botões com cores e simulam e tocam musicas ? Será que isto ameaça os verdadeiros músicos ou guitarristas ? Será que ao invés disso faz com que aqueles que perdem tempo nesse tipo de guitarra com 4 botões os limite intelectualmente, perdendo-se verdadeiros musicos e guitarristas.

Os plugins pre-feitos, blogs pre-feitos, templates, themes, tudo isto valoriza ainda mais os programadores porque cada vez mais quem quer desenvolver uma solução personalizada (e é para isto que os programadores existem, não para criarem blogs ou sites básicos e estáticos para o próprio umbigo) terá de pagar mais e não se ficar por produtos standard.

A opção estratégica por esse tipo plugins e soluções pre-feitas sem o envolvimento de conhecimentos técnicos e o mínimo nivel de personalização, condicionando a estratégia (pois adapta-se o problema à solução informática e nao o inverso) é um erro crasso e um suícidio.
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
Hype != Realidade
crlf (seguir utilizador), 1 ponto , 12:32 | Segunda-feira, 16 de Mar de 2009
O que neste artigo se entende por "indústria informática", o desenvolvimento orientado ao consumidor, não deverá ultrapassar 1% daquilo que realmente é esta indústria.

A indústria da informática na sua esmagadora maioria está no desenvolvimento e manutenção dos sistemas de informação internos (seja em quadros ou outsourcing). Se incluirmos nesta fatia o desenvolvimento corporativo virado para web, então estamos a falar de mais de 90% de todo o investimento e mão de obra.

Empresas como a Microsoft ou a IBM são um espelho disto. A maioria do seu pessoal são comerciais, técnicos e consultores orientados para o mercado empresarial. E é difícil definir em que áreas estão a despedir pessoal.

Já o Google, dado o ritmo a que cresceu era uma questão de tempo até começarem os ajustes. A infraestrutura que suporta as suas aplicações já não cresce ao mesmo ritmo que antigamente, e isso traduz-se em menos necessidade de mão-de-obra.

Finalmente, quanto aos "widgets" e ao produzir "aplicações que até meses atrás só estavam acessíveis a profissionais de alto nível", não quero soar corporativista, mas quem trabalha nesta área sabe que isto é daquelas conversas que se ouvem há décadas (literamente). Muitas tecnologias já foram anunciadas nestes termos (porque cai bem nos ouvidos dos gestores menos informados). No entanto, as tentativas de tornar esta "conversa" real em situações não triviais ou falha, ou tem resultados desastrosos. A gestão de conteúdos não é programação.
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
Concordo sim
fimdalinha (seguir utilizador), 1 ponto , 12:49 | Segunda-feira, 16 de Mar de 2009
Concordo porque muito francamente... sou um desses e dá para ganhar a minha vida... sem tirar nenhum curso de engenharia, fui, ao longo dos anos, acumulando muita experiencia em "computadores". Sou um daqueles que trabalha em "computadores".
Uma coisa posso contribuir para esta discussão neste blog ou forum ou o que lhe queiram chamar...
A versatilidade que tenho, desde hardware, sistemas operativos, programação, etc, surgiu por uma necessidade (dos clientes) e por um gosto (meu). A informação sempre esteve disponivel (ainda sem Internet, sempre existiu uma coisa chamada Livro) e de facil acesso. Junte-se o facto de ser da geração Spectrum... e ca estou eu, sem ser engenheiro, a resolver problemas que muitas vezes atravessam varias areas da propria engenharia.
Não precisei de tirar o curso na Universidade para adquir o conhecimento, alias, do modo que o mundo informático evolui, é muito dificil estar 5 anos sem actualizar conhecimentos e tecnicas, quando acabarmos o curso ja tudo mudou. A bem dizer dava jeito o DR, sempre podia cobrar mais caro...
Saudações amadoras para os profissionais encartados...
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
    Re: Concordo sim    Ver comentário
xpresso (seguir utilizador), 1 ponto , 20:28 | Sábado, 28 de Mar de 2009
É a informática estupidos !!!!
fimdalinha (seguir utilizador), 1 ponto , 23:11 | Segunda-feira, 16 de Mar de 2009
Sem ofensa.. a origem da frase não é minha...
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
9 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Arquivo


Aviso
FAQ. Como funciona a comunidade no Expresso
Para fazer o seu comentário precisa de estar registado. O registo é gratuito e demora pouco mais de 30 segundos.

Se já for utilizador registado, coloque o seu mail e palavra-chave nos campos para o efeito, na página de registo. Depois disso, poderá comentar qualquer conteúdo.

Clique aqui  para se registar.

Em caso de dúvida escreva-nos para novosite@expresso.pt, seremos tão breves quanto possível a responder.

Miguel Martins, Editor de Multimédia do Expresso
Gripe A: Newsmap e mapa mundial com actualização permanente
17:40 Terça-feira, 14 de Jul de 2009,
[20927 visitas]
Nuvem de reacções à entrevista de José Sócrates
22:57 Terça-feira, 21 de Abr de 2009,
[1923 visitas]
A "praga" da Internet vitima agora os informáticos
23:16 Domingo, 15 de Mar de 2009,
[2030 visitas]
O mais social dos congressos
22:27 Domingo, 1 de Mar de 2009,
[1305 visitas]
Na net toda a gente sabe que és um deputado
3:40 Sexta-feira, 20 de Fev de 2009,
[1240 visitas]
Voto electrónico: do ciberdebate para a agenda eleitoral?
2:47 Quinta-feira, 12 de Fev de 2009,
[1184 visitas]
Cavaco 2.0: Presidência adere a Youtube e Flickr
13:16 Segunda-feira, 26 de Jan de 2009,
[3258 visitas]
Twitter: prós e contras em 140 caracteres (ou menos)
9:23 Quinta-feira, 8 de Jan de 2009,
[2679 visitas]
Wikipedia recolhe 4,3 milhões em donativos numa semana
15:46 Sexta-feira, 2 de Jan de 2009,
[1762 visitas]
Sabe por quanto se vende o seu perfil na Internet?
9:55 Terça-feira, 23 de Dez de 2008,
[1194 visitas]
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
Prémio Produto Inovação
Primus Inter Pares
Grupo ImpresaACAP