12/02/2012 atualizado às 14:48
Página Inicial » Opinião » J.L.Saldanha » A paralisia do poder

A paralisia do poder

8:00 Segunda feira, 25 de fevereiro de 2008
Num Estado organizado pelo Direito é necessário encontrar uma forma de moderar e limitar os excessos e abusos do poder: são os mil vezes decantados "checks and balance" ou o sempre citado Montesquieu: "le pouvoir arrête le pouvoir."

Para nós nada disto é suficiente: o fim constitucional é que o poder paralise o poder.

É impossível conseguir que os resíduos tóxicos deixem de ser exportados para Espanha e sejam incinerados em Portugal sem uma interminável peregrinação judicial.

Se depois de inúmeras delongas, um ministério toma a medida cruel mas indispensável de dispensar funcionários sem quaisquer funções, logo vem um tribunal competente suspender a medida.

Reestruturar a máquina administrativa, tomar medidas eficazes contra a corrupção (na hipótese improvável de os senhores deputados estarem interessados nisso) ou fazer seja lá o que for, emperra em uma fila interminável de estruturas paralisadas e paralisantes que remetem a decisão de umas para as outras.

Numa economia em crise, os instrumentos jurídicos que servem a captura de receitas e que procuram obter mais do Estado, ou para criar com actividades à volta do Estado, parecem ser a única fonte de salvação.

Não teríamos criado um sistema de providências cautelares que permitem a qualquer bicho careta impedir uma decisão pública se a presciência dos juristas não visse nessa possibilidade de decisão judicial uma pingue fonte de receitas.

Não teríamos aquela inacreditável emaranhada teia de leis sobre o urbanismo, que o Prof. Paulo Morais tem denunciado incansavelmente, se disso não brotasse o maná dos direitos adquiridos e das acções e pareceres sobre direitos adquiridos a demonstrar que existem, como a forma moderna das minas de Potosi.

Podemos ver em directo o afã com que os advogados que também são deputados fazem nascer aquela nova Lei da Responsabilidade Civil do Estado para criar novas vias de ataque ao depauperado bolso do contribuinte.

O raciocínio parece ser este: se falhamos como legisladores aprovando leis tão aleijadas que criam ao Estado o dever de indemnizar, ao menos a profissão forense a que com muita honra (e proveito) pertencemos, terá diante de si novas vias e novas formas de enriquecimento (sem causa).

Tudo isto seria muito bom se não tivesse um preço: infelizmente tem. É o IVA a 21% e o défice do orçamento.

Perante esta paralisia da decisão pública os esboços de autoritarismo governamental não são, como foi ridiculamente sustentado, uma qualquer forma de fascismo. Já se esqueceram o que era o antigo regime?

O que explica as manifestações de autoritarismo discursivo que por aí se vêem é a sensação de impotência de quem verifica que nada funciona e nada se pode mudar.

Por exemplo: como mudar o sistema de urgências e de transporte de doentes?

Só com o beneplácito dos senhores bombeiros voluntários com o seu sistema de pluriemprego e o patrocínio entusiástico do sobado autárquico.

A proibição absoluta de mudar seja o que for é o primeiro princípio do ordenamento jurídico português.

Fiscalista

Palavras-chave  opinião
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Não é assim que se diz,
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:50 | Quarta feira, 27 de fevereiro de 2008
«funcionários sem quaisquer funções» não está bem dito. O que existe em todas as grandes empresas, e por vezes até nas médias e pequenas, são as funções vitais e os adornos ou enfeites funcionais. No Estado, pelo tamanho e natureza da empresa, mais de 60% das funções não passam de adornos funcionais que têm a utilidade das gravatas, anéis, brincos, colares ... com que quase toda a gente se enfeita.
Imolar alguns desgraçados no altar dos sacrifícios para que a sociedade se sinta "salva e purificada do mal" é a função vital de sacerdotes que os deuses das democracias, tal como os deuses de quaisquer outras formas de ditaduras, não dispensam.
 
 Regras da comunidade
    Adornos - dedos e aneis    Ver comentário
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 0:50 | Quinta feira, 6 de março de 2008
    Re: Adornos - dedos e aneis    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 17:51 | Quinta feira, 6 de março de 2008
Paralisia ou mudança?
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 0:45 | Quinta feira, 6 de março de 2008
Saldanha Sanches parece não viver em Portugal. Parece não ver a incrível mudança que se vem operando no país. Onde vê paralisia, outros vêem mudanças bruscas, mal pensadas, mal executadas e radicais.

Alguns exemplos: num ápice o país deixou de ter empresas públicas com peso real na economia, em poucos anos o país deixou de ter agricultura com significado no emprego e na geração de riqueza nacional, em pouco mais de uma década a industria deixou de estar centrada na têxtil e passou a ter um peso grande da industria automóvel, cujo centro de decisão esta algures no centro da Europa, rapidamente as grandes empresas exportadoras se transformaram sendo hoje estrangeiras 18 das 20 maiores empresas exportadoras.

Outros exemplos, desde a queda do muro de Berlim a posição relativa de Portugal na EU passou de país a aproximar-se da média europeia (14 à frente da Grécia), de país quase a par com a Espanha e com a Grécia, para um dos países mais pobres da União (20º muito atrás da Grécia), batendo-se agora com a Roménia e a continuar na actual senda a ombrear com a Turquia.

Portugal mudou e continua a mudar. Todas as reformas, com ou sem contestação tem sido implementadas. Infelizmente o sentido das mudanças tem sido rumo ao passado e não ao futuro. O problema é que todas as mudanças introduzidas têm dado mau resultado. Só o bom senso manda resistir.
 
 Regras da comunidade
    Re: Paralisia ou mudança?    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 18:00 | Quinta feira, 6 de março de 2008
    Re: Paralisia ou mudança?    Ver comentário
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 23:14 | Quinta feira, 6 de março de 2008
    Re: Paralisia ou mudança?    Ver comentário
etudooventolevou (seguir utilizador), 1 ponto , 20:58 | Terça feira, 11 de março de 2008
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Os papa-reformas
17:13 Quinta feira, 20 de maio de 2010, 14
O buraco das fundações
0:00 Sábado, 27 de março de 2010, 4
As escutas ao 1º ministro
0:00 Sábado, 6 de março de 2010, 19
O exemplo da República
17:30 Segunda feira, 1 de março de 2010, 2
A agenda da comissão
0:00 Sábado, 23 de janeiro de 2010, 7
A lição de Berlusconi
0:01 Sábado, 5 de dezembro de 2009, 5
A Jangada dos Tolos
8:00 Quarta feira, 4 de novembro de 2009, 8
O cartel municipal
8:00 Quinta feira, 15 de outubro de 2009, 17
O (mau) capitalismo
8:00 Quarta feira, 23 de setembro de 2009, 8
Fim do segredo bancário
8:00 Quarta feira, 2 de setembro de 2009,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP