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A palavra civismo

Os portugueses têm pelas palavras um amor platónico.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 18 de novembro de 2009

Para a Ana Sara Brito e a Paula Teixeira da Cruz

Talvez seja uma palavra gasta. Como cidadania. Como amor. Ou como a velha e, por isso, vilipendiada democracia. O que gasta as palavras não é o excesso de uso, mas a falta de correspondência. O que é o amor, quando não é acto de dádiva? Sem gestos, trabalho, coragem, as palavras secam. O amor dos portugueses pelas palavras é demasiado platónico. Habituámo-nos à beleza das palavras nos livros, uma beleza de folhas secas, outonal, consolação desconsolada do que podia ser mas nunca foi. Vivemos de sonhos e queixumes, alucinados pelo que nos falta e faltando à realidade que os sonhos nos pedem. Adiamos. Adiamo-nos. Dizemos que matamos o tempo e deixamos que o tempo nos mate. Um dia destes, pensamos, vou dizer tudo o que não disse. Vou fazer tudo o que não fiz. Pensamo-lo com raiva e desespero e vontade e paixão, solitários por entre as gentes. Depois respiramos fundo e adiamos. Por medo ou brandura ou nem isso. Coisas mais pequenas: cagaço, moleza. Ou a grande palavra dos países que não souberam crescer: deslumbramento. O lado de fora do servilismo, que é o avesso concreto do civismo. Precisávamos de criar um dicionário novo, onde as palavras reluzissem com o significado que possuíam antes de as usarmos como trampolins para tronos de miseráveis poderes, porque é miserável todo o poder que se serve a si mesmo em vez de servir a melhoria do mundo.

Amanhã estaremos todos mortos, meus amigos. Sobreviverá a Terra, com a marca que nela deixarmos. Sobreviverá a poeira da memória que deixarmos nos outros - só isso. Civismo é compromisso com o futuro, exercício de amor. E o amor não correspondido desmorona-se, apaga-se, desfaz-se em névoa e amargura. Nem as pedras resistem ao abandono - a profusão de palácios, edifícios e monumentos em ruína acelerada testemunha os efeitos dessa falta de civismo com que nos desrespeitamos a nós mesmos e à nossa História. A areia das praias cheia de lixo, as ondas do mar carregadas de latas, sacos de plástico, garrafas que trazem a mensagem da nossa pior pobreza, que é a de espírito. As fachadas riscadas de insultos e sujidade são o nosso rosto como nação. Deveríamos começar por aplicar a ira que dirigimos à actriz brasileira Maité Proença por cuspir num monumento diante das câmaras de televisão a todos os portugueses que diariamente escarram no chão ao nosso lado - e são muitos. E também aos que estacionam os carros no meio da rua para irem tratar da sua vidinha, imunes ao incómodo que causam à vida dos outros. E ainda aos que furam filas, a olhar para o ar, aos que acham natural que lhes abramos as portas sem se dignarem a soltar uma palavra de agradecimento. E são imensos os que não sabem agradecer as portas que se lhes abrem, física ou metafisicamente. Civismo é memória e gratidão. Ao cessar as suas funções como presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Paula Teixeira da Cruz lembrou a necessidade de agradecer aos que sabem servir generosamente a causa pública, sem olhar a divisões partidárias. E sublinhou a urgência da prática do civismo como forma quotidiana de combate às múltiplas corrupções. O seu mandato à frente do Parlamento da cidade foi um exemplo de dedicação isenta e valorosa à causa pública. Há outros exemplos assim - mas poucos, muito poucos para que a mudança do país possa ser real.

Enquanto o assalto à vara sobre o erário público continuar a compensar, enquanto os que traem metodicamente os seus compromissos e fazem da lealdade sinónimo de subserviência continuarem a prosperar, enquanto os que vivem a lamber as botas dos poderes vigentes, mendigando mordomias, continuarem a latir de contentes, o país não sai de crise nenhuma. Para isso era útil que os políticos aprendessem aquilo que a lisonja lhes faz esquecer, essa coisa simples que é distinguir o trigo do joio. Os 'valores' com que enchemos e despejamos a boca começam por aí, e é facílimo: basta atender às acções das pessoas, à sua entrega ao bem comum, à correspondência entre o que dizem e o que fazem. Basta não ceder à tentação de confundir lealdade e oportunismo, arrogância e liderança, gabarolice e eficiência. Poucos são os que resistem a tempo inteiro ao encantamento do poder - mas cada um de nós, nas suas acções e atitudes quotidianas, é responsável por isso. Os que hoje mandam não são diferentes de nós - e é em nosso nome e para cada um de nós que exercem a profissão de decidir.

Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009

 

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Belíssimo texto. Obrigada:-)
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 12:09 | Quarta feira, 18 de novembro de 2009
Os portugueses professam um amor platónico por demaiadas coisas e algumas tão fundamentais como a Liberdade. Daí decorre tudo o resto.
 
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Irrita-me. Por fazer parecer fácil...
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:26 | Quarta feira, 18 de novembro de 2009
...escrever.

Com o que nos quis dizer, concordo. Mas o deslumbramento, é como coloca as palavras. Que hei-de chamar? Prosa poética. Prosa harmónica.

Pensa e escreve ou escreve sem pensar?

Em simultâneo?

Parece fácil.

Irrita-me.
 
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Decência
honest_abe (seguir utilizador), 1 ponto , 12:54 | Quinta feira, 19 de novembro de 2009
"Amanhã estaremos todos mortos, meus amigos. [...]"

Concordo, até porque como raça (homo sapiens sapiens), e olhando para trás, tendemos a multiplicar o nosso número mas a diminuir o bem-estar geral, criando desigualdades a todos os níveis, e mais importante, esgotando recursos do planeta que nos alimenta.
 
Em relação ao "Amanhã"...bom, a longo prazo nem a Terra, nem o Sol, pelas próprias leis da física estarão aqui. Também, se a Terra estiver e nós não, não interessa muito, certo?

Se ignorarmos esta corrente de pensamento (nem muito) apocalíptica, e assumirmos que há que pensar nas coisas enquanto cá estamos, há um filme em que o Morgan Freeman faz o papel de um juíz (sinceramente não me lembro do título, nem da história) e em que, a certa altura, faz um discurso que vai de encontro ao que a Inês escreveu. No entanto apenas para diferenciar, ele não usa a palavra 'civismo'.

Ele refere que, para lá de religiões, de políticas, de qualquer outro tipo de crenças, somos humanos, e dentro de nós temos instintos semelhantes.
E que um deles é a decência.

"Let's be DECENT" foi a única coisa que consegui reter desse filme. E decência será maximizar o bem-estar global ao ter uma capacidade (rara e extraordinária nos dias de hoje, concordaremos) para nos imaginarmos no lugar da pessoa ao nosso lado.

Enfim...no limite, saberemos que houve quem tivesse pensado nisto, o que já é bom.
 
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Outra questão...
honest_abe (seguir utilizador), 1 ponto , 13:04 | Quinta feira, 19 de novembro de 2009
...desta vez um conselho pessoal.

O que falta neste país/mundo é uma cultura mais nómada. Eu sei, a maioria das pessoas no planeta não tem possibilidade de comer, quanto mais comprar bilhetes para ir não-sei-onde. Mas para os que podem optar, para os que podem viajar um pouco, e não me refiro a excursões, a férias com ou sem guias, um passeio...

Para os que podem conhecer gente com pontos de vista diferente. Refiro-me a conhecê-los e a ver que apesar das diferenças acolhem-nos como família. Refiro-me a descobir que há esperança na boa vontade. Na decência.

Em suma, e se procurava uma das possíveis soluções para esse platonismo: [até me podem convencer que] os portugueses viajam (até em detrimento de "tirar férias"), mas talvez não saibam viajar.
 
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Falta-nos objectividade
user177255 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:28 | Sábado, 21 de novembro de 2009
Como sempre muito profundo!!!
Penso que nos falta alguma frieza na análise da realidade e isso tb está relacionado com a coragem. Coragem para "pensar fora da caixa" como me dizia um estrangeiro. As pessoas são ainda mto preconceituosas, vive-se mto de aparências e da mendigagem. A sociedade é muito fechada e hierarquica. O poder atrai o povo que o vê como forma de ascensão social. E aí qdo o têm, e como o nível socio-cultural de onde vem é geralmente mto baixo, torna-se arrogante e autoritário. De servo passa a tirano. Isto é visivel em países subdesenvolvidos. E nós continuamos no limiar, nunca conseguimos dar o salto.
 
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A palavra civismo - Inês Pedrosa
crise (seguir utilizador), 1 ponto , 0:42 | Domingo, 22 de novembro de 2009
Agradável leitura e firmeza de palavras. Encantado.

"A palavra civismo .. Talvez seja uma palavra gasta. Como cidadania. Como amor. Ou como a velha e, por isso, vilipendiada democracia."

"Enquanto o assalto à vara sobre o erário público continuar a compensar,

enquanto os que traem metodicamente os seus compromissos e fazem da lealdade sinónimo de subserviência continuarem a prosperar,

enquanto os que vivem a lamber as botas dos poderes vigentes, mendigando mordomias, continuarem a latir de contentes, o país não sai de crise nenhuma."
"

E, não vamos mesmo a lado nenhum equanto não se premiarem os valores e penalizarem os vendedores de palavras enganadoras.
É preciso bater no fundo para que caiam os óculos do amor.
O povo acordará
 
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Parabéns a todo mundo.nestes comentadores é quase
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 2:06 | Domingo, 22 de novembro de 2009
Parabéns a todos.Gostei;e até achei interessante a maioria dos assuntos comentados.Ainda bem que estou de acordo;e muito contente,por saber que no meu país;começam algumas vozes a divulgar a evolução que eu aqui,sempre defendi;desde o primeiro dia,que aqui cheguei.Parabéns a todos.E um bom domingo.cum.kantiflas
 
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