Confesso o meu espanto com o silêncio a que a política e a banca se remeteram quando a operação 'Face Oculta' lhes caiu em cima. Uma parte do silêncio é justificável: nos últimos anos a Justiça tem sido pródiga em disparar em todas as direcções, em arrastar processos para as calendas e arranjar umas pseudonovidades para manter 'a bola no ar'. Mas outra parte é absolutamente injustificável: o caso envolve pressões a ministros, empresas do Estado, gestores públicos, advogados espertos e o vice-presidente do maior banco privado português.
O enredo não tem offshores, milhões de euros a circular, almoços no Ritz ou gente com gravatas Hermès. Tem sucata, envelopes em dinheiro vivo, carros de sonho de patos-bravos e almoços em que o fato fica a cheirar a peixe pela tarde fora.
Mas tem mais algumas coisas. A leitura do despacho (artigo nas págs. 4
e 5
) mostra uma evidência. Em Portugal ganha-se muito mais dinheiro em médios negócios feitos à sombra do Estado e longe dos holofotes do escrutínio público do que nos negócios de que todos falamos.
No TGV, nos contentores, nas pontes e auto-estradas há somas monstruosas envolvidas, mas também há (felizmente) muita gente a ver tudo o que corre mal. Noutras áreas, como o Ambiente, circula imenso dinheiro e favores sem qualquer escrutínio ou atenção.
Só isso é que explica o à-vontade com que Manuel Godinho terá montado uma "rede tentacular integrada" para ser favorecido em concursos públicos. Tudo se passava num sector de que ninguém fala. Godinho estava tão à vontade como os beneficiários. Quem é que liga à sucata?
Em Espanha também ninguém ligava aos pequenos concursos dos governos autonómicos. Mas em poucos meses o PP está à beira da implosão por causa de uma rede que dava pequenas prendas e valores em troca de informação e adjudicações.
A 'rede Gürtel' está a dar cabo da política espanhola e mostrou uma face desconhecida do país vizinho. A rede de sucata de Godinho está a mostrar outra face do nosso país. Longe das grandes concessões trocam-se favores, manobram-se ministros e gestores. Tudo isto com pouco dinheiro e nenhum esforço. Em poucos meses, o fio de um sucateiro levou a uma meada que põe em causa a gestão de algumas das maiores empresas, lançou mais uma bomba no BCP e remeteu o PS a um silêncio catatónico. Só se pede que a Justiça seja rápida. O país não aguenta outra 'operação Furacão'.
Ricardo Costa
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009