Com tantos candidatos a heróis da liberdade de imprensa e mártires do socratismo, as audições com que o Parlamento decidiu presentear-nos são, como se viu logo no primeiro dia, um espectáculo garantido. Esperar que dali saiam ideias, propostas ou meras conclusões com algo de construtivo e útil para melhorar o "exercício da liberdade de expressão em Portugal", isso já é pedir de mais. E teria a Comissão de Ética esse objectivo?
Quem ouviu as audições do primeiro dia deve ter ficado com as maiores dúvidas. Nem os deputados das oposições revelaram o menor interesse em discutir as questões sérias que os 'casos' em apreço suscitam, nem os da maioria se mostraram preparados para tentar deslindar as novelas em torno de situações concretas que estão a ser analisadas.
Em qualquer caso, é fácil antecipar o resultado das audições em curso. Sócrates vai sair ainda mais chamuscado das fogueiras que ele próprio se encarregou de atear, pagando pelo que disse e fez, pelo que terá tentado fazer e por todas as malfeitorias que, em função da sua própria conveniência, outros entendam atribuir-lhe. Mas o jornalismo não se sairá melhor porque ficarão mais expostas muitas das suas fragilidades. Sobretudo se os jornalistas convidados não resistirem à tentação de se porem em bicos de pés, com atitudes e comportamentos que minam a sua própria credibilidade e a de toda a profissão - a vaidade, a arrogância, o sentimento de inimputabilidade, a tentação de confundir a carteira profissional com uma carta de alforria e a liberdade de expressão com uma espécie de direito divino de que se consideram investidos.
Como disse Mário Crespo à Comissão, "as pessoas gostam muito de se sentir importantes". Falava a propósito das fragilidades dos jornalistas em situação precária e dos riscos de serem aliciados pelo poder político, ou qualquer outro. O problema é este: pelo mesmo motivo - gostar de se sentir importante - tanto se pode ser tentado a venerar um qualquer poder como cair-se na tentação de se venerar a si próprio.
Com excepção dos patrões dos media, que poderão, eventualmente, trazer algo de novo ao debate, é pouco provável que os protagonistas dos 'casos' conhecidos tenham mais a dizer do que já disseram ou escreveram até à exaustão. E quanto aos convocados sem razão que se vislumbre, a não ser o propósito de compor o ramalhete, inclino-me a pensar, tal como Teresa de Sousa ao pedir escusa da audição, "que a escolha dos nomes obedece a uma mera lógica partidária". "Depor nestas circunstâncias", escreveu ela, "seria permitir a utilização do meu nome numa batalha política, da qual creio que os jornalistas não devem ser parte". Julgo que tem muita razão.
A vingança soarista
Há uma semana, o Expresso noticiava que Fernando Nobre, o fundador da AMI, estava a ser desafiado por sectores soaristas para se candidatar à Presidência da República. Ontem, Fernando Nobre anunciou a sua candidatura, apresentando-a como uma decisão pessoal "em nome da cidadania". De facto, ninguém é obrigado a concorrer para Presidente, por mais fortes e convincentes que sejam os apelos. E o exercício da cidadania é um direito - ou um dever, em certas circunstâncias -, de qualquer cidadão. Bastam, pois, as razões de Fernando Nobre para legitimar a sua iniciativa.
Contudo, a surpresa desta candidatura não pode ser maior, vinda de um homem tão inteiramente dedicado a causas humanitárias e que em momento algum deu sinais de interesse ou ambição política. É certo que participou em comissões de honra das mais variadas candidaturas. Mas até o facto de o fazer num espectro tão largo que vai do Bloco de Esquerda ao PSD - apoiou Mário Soares em 2006, o BE nas europeias e, em simultâneo, António Capucho (PSD) em Cascais e António Costa (PS) em Lisboa, nas últimas autárquicas - concorria para despistar qualquer interesse pessoal. Ou, então, fê-lo já por intenção e táctica presidencial... abrangente.
Num país carecido de renovação da sua classe política e de quem, vindo de fora dos aparelhos partidários, traga causas e valores para o debate, a voz de Fernando Nobre na campanha será com certeza um ganho. E os apoios ou incentivos de terceiros não a diminuem. Mas não iludamos o que já se tornou evidente: Nobre é a espada soarista apontada a Manuel Alegre. E uma prova de que o ex-Presidente - ou, pelo menos, os seus próximos -, prefere a vitória do arqui-rival Cavaco Silva à do seu antigo camarada. As voltas que o mundo dá!...
Parabéns para dois
Só nesta semana, dois portugueses subiram a altos e disputadíssimos cargos na cena internacional. Vítor Constâncio tornou-se vice-presidente do Banco Central Europeu, João Vale de Almeida foi nomeado embaixador da UE em Washington. Como é da praxe, haverá sempre, entre nós, quem lhes diminua a mérito. De Constâncio dirão que falhou enquanto supervisor do sistema bancário, como se algum outro supervisor tivesse acertado na crise que vivemos. De Vale de Almeida dirão qualquer coisa relacionada com guerras de poder entre a Comissão e o Conselho de Ministros, como se ele não tivesse uma brilhante e consistente carreira para justificar o cargo.
Haverá também quem escarneça deste antiquado sentimento de orgulho pelo êxito de compatriotas nossos em palcos de concorrência feroz. Por mim, só tenho pena de não poder felicitar, um a um, todos os portugueses que brilham por esse mundo fora, nos mais variados palcos, níveis e instâncias.
Fernando Madrinha
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010