Spike Jonze, ainda o único surrealista que, pelo menos em Hollywood, fala das pequenas misérias que se vão agarrando como alcatrão aos nossos pés, decidiu - este ano como Tim Burton e Wes Anderson - contar uma história com crianças.
"O que quis fazer não foi um filme para crianças mas um filme sobre a infância", referiu, como se quisesse dizer que é a visita é retrospectiva. De longe, a infância parece apenas um lugar inóspito onde a criança enfrenta a solidão, a depressão, a raiva, a incompreensão, e aprende a fazer as pazes com os limites de uma vida que até ali se julgava sem limites. Que visão majestosa de uma fera amansada, dando-se conta do mundo em que está metida.
É sempre bom sinal quando um cineasta com veia de autor manda as primeiras cenas filmadas para o estúdio, para serem aprovadas, supervisionadas, e o estúdio - neste caso a Warner - deixa entender que não era bem aquilo que eles tinham em mente. Aleluia: enfim um cineasta-autor com reputação de imprevisível, como antigamente!
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| Max refugia-se numa ilha onde vivem umas criaturas gigantescas e fofas, um pouco como os ursos de peluche que já houve lá por casa |
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Clássico da literatura americana
Baseado no clássico escrito por Maurice Sendak em 1963, a história conta como um menino de 9 anos, Max, foge de casa porque ninguém o entende e se refugia numa ilha onde vivem umas criaturas gigantescas e fofas, um pouco como os ursos de peluche que já houve lá por casa. Na ilha o Max quer ser rei de toda a gente, uma ideia cheia de sorte porque as criaturas selvagens que vivem na ilha, vendo bem as coisas, até nem se importariam de ter um rei novo.
As coisas complicam-se daí para a frente. Digamos apenas que o Max, quando se vê cheio poder, tem de fazer escolhas difíceis. E as criaturas, cada vez mais estranhas, continuam a dizer piadas sobre os ossos tenros do novo rei. Tudo muito estranho.
A história, que foi acusada de imoral quando primeiro publicada e continua, depois de tantos anos, aberta a todo o tipo de interpretações, vive muito da mestria visual de Spike Jonze, um rapaz iconoclasta que, aqui e agora, no Hilton de Beverly Hills, aparece vestido com aquilo que parecia ser um fato feito de gabardina e gravata, isto quando o clima de Los Angeles permite sempre que osverdadeiros autores vistam apenas uma tshirt e jeans.
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| O realizador promete um filme «excitante e assustador» |
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Lutas viscerais, cinematografia orgânica
Bom rapaz que nunca fala de si, Jonze diz que procurou, para as filmagens, os locais adequados à textura real da história. As criaturas vivem numa floresta. O filme tem água, areia, árvores e brincadeiras, alem de construções de madeira fantásticas. As filmagens decorreram na Austrália, a duas horas de Melbourne.
Palavras do autor: "Sempre quis levar a história a sério. A criança é de verdade e, por isso, o mundo da sua imaginação tinha de ser real. Não podia ser uma paisagem alternativa feita só com desenhos. Ele vai para a ilha e tem de aprender a viver com aquelas criaturas estranhas. Não sabe bem quais são as regras e, nesse sentido, o Max é mais uma criança nessa situação, como qualquer criança que tenta compreender como funciona um mundo governado pelos adultos. Aos 9 anos a profundidade das tuas sensações não é menor do que as emoções sentidas pelos adultos".
Objecto de arte
É, pois, um filme de conceito. Não sei como é que Hollywood arranjou dinheiro para isto mas a sorte, para já, é toda do público. Este 'Where The Wild Things Are' estreia mesmo a tempo do Halloween. Faz sentido. Não é que seja sobretudo assustador mas é, pelo menos, assustadoramente original e inesquecível. Vem com canções escritas por 'Karen O', que Jonze conhecia do tempo em que fazia vídeos musicais. Ela é dos 'Yeah Yeah Yeahs'.
Para as sequências narrativas, sublinhando a completa integridade do exercício, a banda sonora foi entregue a Carter Burwell. O filme é protagonizado pelo menino Max Records, sendo que a voz do Carol, a criatura mais incompreendida da ilha e a única que entrega toda a sua devoção ao novo rei, ficou entregue ao ursinho assanhado James Gandolfini. "Nunca fiz nada como este filme, excitante e assustador", afirmou Jonze.