Para os mais puristas, no futebol não existe espaço para grande discussão. Tudo tem uma explicação clara e nela a ciência táctica não tem lugar. Todas as situações do jogo encontram uma resposta simples: o génio do jogador. Equação simples - um jogador, uma bola. Resolve o que tiver mais qualidade. Não sei se é uma tese racional ou emocional, mas a verdade é que, por vezes, surgem jogadores que, quase fenómenos estranhos, parecem dar razão a esses puristas.
Di Maria recebe a bola, a jogada desenha-se, da cabeça para as chuteiras, sobretudo a esquerda, tecnicamente perfeita, e pouco depois está na baliza. Varela vê o espaço ainda a bola vem a caminho, deixa-a entrar nele e vai buscá-la, porque percebeu primeiro as suas intenções, e momentos depois está na baliza. Ambos, Di Maria e Varela, vivem em campo a partir de um flanco, onde o futebol sempre foi mais liberto, menos científico e táctico do que no centro, onde se pensa mais o jogo. Os dois simbolizam as notas mais artísticas de duas equipas que buscam o mesmo objectivo, o título.
Mas, apesar da ilusão dos puristas, o jogo (e equipas) tem raízes mais profundas. Como Jorge Jesus reconhece, ao falar na "nota artística da exibição" só depois de garantido o resultado. Neste momento, o seu Benfica vale mesmo mais seis pontos do que o FC Porto. A construção dessa diferença nasceu, porém, mais do que dos rasgos individuais, de uma ideia colectiva de jogo que mudou o futebol benfiquista. Por isso, a importância de Javi Garcia. Por isso, a interrogação de saber como irá o onze reagir tacticamente sem ele (castigado dois jogos). Porque só depois do seu 'relógio' garantir, no centro, o equilíbrio do início de cada jogada, pode surgir a "nota artística" dos avançados.
Ruben Micael deu ao FC Porto a coerência de jogo (organização/criação) que lhe faltava no meio-campo. O onze joga melhor porque pensa melhor. Pelo meio, em 90 minutos europeus, ressurgiu Hulk, protótipo da tese dos puristas. Porque, em cada bola que pega, pensa resolver o jogo sozinho. O contraste entre o jogo 'de equipa' com ele, frente ao Arsenal, e sem ele, frente ao Braga, diz que, no plano colectivo (passe, recepção, novo passe, desmarcação, centro, remate...) a equipa joga melhor sem essa permanente tentação de individualismo. Isto é, a 'nota artística' mais importante é aquela que o colectivo (entenda-se aqui jogadas colectivas) consegue dar em campo. A ausência de Hulk motivou a equipa fora do campo, mas, dentro dele, foi a noção colectiva que o relançou. São os tais 'segredos táctico-científicos' para lá da equação jogador/bola mais purista.
Se o jogo tivesse som (além dos gritos de jogadores e treinadores), a melhor forma de detectar se uma equipa está a jogar bem seria encostar o ouvido à zona central do meio-campo e tentar ouvir qual a cadência do seu 'tic-tac, tic-tac'. Através dela, iria perceber-se o estado do seu relógio táctico (ritmo e equilíbrio). Neste prisma, há jogadores que, em campo, são quase como os "cardiologistas" tácticos da equipa. Como são, em posições diferentes, Javi Garcia e Ruben Micael.
Faltam dez jogos. 30 pontos. Há muito tempo (talvez desde 92) que o campeonato não conhecia um duelo Benfica-FC Porto em moldes competitivos de tanta qualidade. Ainda há o Braga, claro, mas essa é outra história.
Antes falava-se na importância do 'pare, escute e olhe'. No futebol actual, o conceito que hoje faz a diferença é outro. Passa por não parar e, pelo contrário, conseguir olhar e decidir em andamento. Quem o fizer em maior velocidade, ganha! Será essa a equipa com melhor nota 'táctico-artística'.
Twilight zone
A Europa quase como uma porta para uma espécie de twilight zone verde do futebol. Uma quinta dimensão na qual, misteriosamente, entra, raras vezes, a equipa do Sporting. Depois da Fiorentina (pré-eliminatória da Champions) outra viagem sobrenatural, frente ao Everton, com uma exibição fantástica que foge à 'lógica negra' da época. É quase necessário procurar explicações sobrenaturais para estes momentos em que os jogadores se transformam em... 'outros jogadores'. Não é a táctica (embora fosse decisivo passar do 4x4x2 para o 4x2x3x1 e colocar dois médios recuados, Pedro Mendes-Veloso, para pressionar a zona central e ganhar o meio-campo e, depois, de novo para o 4x4x2, com Saleiro e Veloso a lateral-esquerdo), nem será distracção dos adversários. É encontrar um estímulo que não existe noutros jogos.
A pergunta é por que ele não surge mais vezes. Não será pelo treinador. Ele, Carvalhal, que, solitário, mudou o que tudo indicava ser o quadradinho final da história de ontem (sair sozinho...), inventou uma nova vida para a sua imagem. As vitórias têm muitos rostos e origens, mas esta é claramente resultado do instinto de sobrevivência do treinador e dos jogadores. O resto das personagens pertence à outra parte da história da época leonina, aquela onde dominam 'sombras e fantasmas'.
Veloso a estourar pela esquerda, a defesa corajosa de Rui Patrício com Saha isolado, o remate de Pedro Mendes que bate no defesa e vai imparável para as redes, e até o tropeção de Matias Fernandez correu bem para fechar o jogo com um terceiro golo. Parecem todos lances fora da normalidade cinzenta. E agora, o regresso à normalidade? Não perguntem isso aos jogadores.
Monstros e monstros
Mais de dois anos depois, Mourinho reencontrava a 'sua' equipa. Porque, como disse antes do jogo, nela ainda estavam os jogadores do "seu tempo". Terry, Lampard, Drogba... Os 'monstros' que fizeram o seu Chelsea. Ao chegar a Milão, porém, eles traziam outro treinador, Ancelotti, também de regresso à sua "velha casa", Itália. A equipa não joga de forma muito diferente. Mantém os princípios de qualidade e... cinismo.
O Inter cresceu com as mesmas bases. Médios musculados, monstros com os mesmos traços e avançados de passada larga. O jogo foi, assim, o confronto de duas "montanhas futebolísticas". No fim, o Inter ganhou, pela 'esmagadora' vantagem de... um golo. Pelo meio, as faíscas de cada choque Drogba-Lucio, o poder de Cambiasso, o posicionamento de Lampard, os movimentos de Anelka, o golão de Milito. São estes os donos do estilo do futebol moderno a quem só o "Barça dos baixinhos", profeta do passe apoiado, consegue vencer. Duas formas de ciência futebolística em contraste. A táctica das 'máquinas' contra a táctica 'humana'.
O Braga Candidato
Qualquer equipa pode ter um mau dia. Não há drama. Sobretudo após 19 jogos com qualidade. O que essa equipa não pode perder é a sensibilidade táctica de perceber que está na sua mão não abrir a porta ao perigo adversário de forma inconsciente. O Braga caiu, com estrondo, no Dragão (5-1). As falhas defensivas podem ter começado na falta de jogadores-chave dessa organização, mas, no fundo, esses eram factores que obrigavam a não perder a tal "sensibilidade futebolística" que permitiria à equipa perceber as suas limitações actuais. Fazer, talvez, um jogo mais "italiano". Dirão que isso alteraria a sua identidade. Penso que seria antes adaptá-la às circunstâncias (sempre específicas a cada jogo). Quando as derrotas são merecidas fica pelo menos a vantagem de, sendo inteligente, a equipa perceber o que falhou para o não repetir no futuro. Estará nessa "sensibilidade táctica" o futuro do Braga candidato no resto da época.
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010