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A noite de onde ela vem

Onde se explica porque é que Rosa Lobato de Faria não morre.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 20 de fevereiro de 2010

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a noite é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Rosa Lobato de Faria

Rosa era uma mulher deslumbrante e nunca viveu disso. São raras as pessoas de quem se pode dizer que não fazem vida da sua mais imediata qualidade, seja ela a beleza, a inteligência, o sentido de humor, ou mesmo a família, que em Portugal ainda passa por ser uma distinção individual. Rosa era uma pessoa que se empenhava em ser o melhor que podia ser, em tudo, com toda a gente e em toda a parte. Aparentemente sem cansaço. Tinha uma disponibilidade infinita. O seu sorriso era uma torrente de luz e parecia fácil. Se lhe pediam uma letra para uma canção em dois dias, ela fazia-a, e fazia-a bem. Era uma excelentíssima actriz - os seus grandes momentos de televisão ("Humor de Perdição", de Herman José, por exemplo, onde colaborou também como letrista) ou de cinema (o magnífico "Tráfico", de João Botelho) demonstram-no. E era ainda uma boa escritora - durante toda a vida poeta, nas últimas décadas também romancista. Além disso, acarinhava a família e os amigos, para os quais cozinhava com gosto - e muito bem, como era seu timbre. Brincava com o facto de ser considerada "uma senhora bem". Era, isso sim, uma mulher profundamente livre - nessa vocação para a liberdade, nascida de uma apurada intuição e de uma curiosidade avassaladora, residia o segredo dos seus múltiplos talentos. Uma vez perguntei-lhe: "Como é que consegues fazer tudo o que fazes... e sem stresse?" Passávamos dois dias em Lagos, filmando um programa de televisão, e Rosa sugerira que passássemos ao "tu", que tornava as conversas mais fluentes. Com Rosa não havia cerimónias, nem má-língua, nem conversas sobre o tempo ou sobre o valor imenso e mal tratado das produções dos nossos importantíssimos egos. Estar com ela era como morar noutro país, íntimo e voltado para o futuro. A resposta dela foi extraordinariamente simples e concisa: "Penso numa só coisa de cada vez, e em absoluto." Confessar-me-ia depois que levara décadas a afinar esse método e que às vezes ainda tinha as suas escorregadelas - mas tentava, simplesmente, não se preocupar com isso; todas as matérias se contagiam umas às outras quando o que as move é a paixão. E Rosa era uma apaixonada. Uma apaixonada lúcida, porque sem essa capacidade de silêncio e sofrimento a que se chama lucidez não se consegue criar nada.

Apresentei um dos seus romances, "A Trança de Inês", imaginativa transposição para a nossa era da mítica história de amor de Pedro e Inês. Admirava a sua capacidade de efabulação. A crítica, em geral, considerava-a ingénua, porque vivemos numa época em que um romance tem de ser cínico e desabrido para parecer inteligente. A autora de "Romance de Cordélia", narrativa valente centrada numa prisão de mulheres e na violência que torna as vítimas em assassinas, sabia que o mundo era mais do que isso. Nunca se deixou sequer sobrevoar pela sombra da inveja ou do ressentimento. Quando alguém tentava acirrá-la com a falsa cumplicidade das comparações, encolhia os ombros e dizia que cada um tem o seu caminho e faz o que pode. Na autobiografia que, há cerca de dois anos, publicou no "JL", escrevia: "Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme." Tinha a singularíssima arte de não se levar demasiado a sério nem se desmerecer em lamúrias. Sabia amar o tempo e as rugas. Nunca escondeu ou omitiu a idade - por isso mesmo, desapareceu em plena juventude, sem parecer, por fora ou por dentro, os 77 anos que constavam do seu bilhete de identidade e que, de facto, nunca teve. Rosa Lobato de Faria não morreu, porque a faísca dos que muito amaram não se apaga mesmo.

Texto publicado na edição da Única de 13 de Fevereiro de 2010

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A Rosa no Tempo das Paixões
Mukany (seguir utilizador), 1 ponto , 1:31 | Sábado, 20 de fevereiro de 2010
Fico apaixonada a cada leitura que faço sobre essa encantadora escritora e lendo alguns comentários sobre a “Terceira Rosa” de Manuel Alegre me faz lembrar muito o que leio sobre a Rosa Lobato de Faria, como por exemplo os trechos a seguir:

"Não sei se pelos olhos, se pelo modo de andar, quase como quem dança, um pouco curvada para trás para realçar o busto e a cintura, se pelas faces ligeiramente encovadas, o sorriso, o riso, uma certa contracção das comisuras dos lábios. Tanto te chegas como te esquivas, estás e não estás, dás e recusas. Não sei se por tudo isto, se por algo que não se explica. sei que quando me tocas a batida da terra coincide com a do meu coração."

"Foi então que tudo se alterou dentro de mim. Complicou-se ainda mais o esquema de esconjuração. Nunca mais tive qualquer certeza a teu respeito. Era por certo o que querias. Assim te vingavas da tua antiga inquietação. Ou talvez não. Talvez que, a partir de certa altura, tu fosses mesmo assim. Sabias e não sabias. Gostavas e não gostavas. Ou não gostavas de gostar. Ou gostavas e não querias. Ou querias gostar como dantes e já não eras capaz. Talvez a magia tivesse desaparecido. Não sei."

  - Um bom dia a todos e muito sucesso em suas labutas Expressivas!

 
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"A manhã deixarei uma rosa sobre teu peito!"
Barros.Rosa (seguir utilizador), 1 ponto , 1:26 | Domingo, 21 de fevereiro de 2010
Como eu não posso chegar a ti...

"Amanhã passarei ao pé de ti,
E deixarei uma rosa branca no teu peito…

Amanhã triste, triste caminharei até ti!
Deixarei o tempo parado sobre o relógio velho
Guardarei as fotografias na gaveta,
Usarei o perfume que me deste
(A existência, a existência!)
Irei vestir a camisola preta
Que deixei guardada por ti.

Irei a sorrir para junto de ti
De olhar turvo em lágrimas…
Na minha mão ferida e em sangue trarei uma rosa,
A rosa será branca como a esperança…
A que foste no dia em que me deste os teus lábios
Em que apertas-te contra o teu peito a minha mão
Em que me olhaste nos olhos e me disseste:
“Infinito seja o tempo neste dia;
Infinito como o amor que hoje te dou…”

Irei de encontro ao teu corpo por ti!
Irei e caminharei ao teu lado…
Suspiro de aragens,
Vento do abanar das folhas
Sombra sem razão de existir…
E a rosa em minha mão
Baterá a cada passo nosso
Como um coração…

E então com meus olhos eu verei a eterna verdade
Teu corpo pálido sobre a pedra fria jazendo
Então ficarei também eu frio novamente,
Como o era antes de ti!
Então nu de mim novamente,
Deixarei sobre teu peito a rosa branca;
Ou a esperança que tinhas e eras em mim…

O vento (ou o teu sussurro)
Pouco a pouco,
Triste tristemente cada pétala levará…
E então o bater batendo cessará…
E o vento, lenta lentamente me trespassará… ...
 
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