Uma boa maneira de estar actualizado sobre o que se passa no frenético, dinâmico e esotérico "mundo das mulheres" é ver, muito comedidamente, o programa televisivo da Oprah. Há cerca de um ano, a meio de uma sesta, assisti com o cérebro a zapar entre o estremunhado e o fascinado, à discussão entusiasmada sobre o conceito de mulher-cougar: a "nova espécie de fêmea" que após os 40 anos de idade se assume "orgulhosamente predadora de carne fresca" do apático e musculado homem-objecto. Ao lado da sempre empolgada apresentadora, três cougar (pumas em português, acho) loiraças, secas, tonificadas, siliconizadas, arreganhadas, repuxadas, dentes cerâmica, botoxizadas, relatavam as caçadas a jovens efebos, e exibiam o quão felizes estavam por ter largado, ou sido largadas, pelas carcaças dos velhos maridos. Nada, mas nada, tenho a opor. Bom proveito.
Mas ainda bem que vi este episódio da Oprah. Porque tenho lido que 2009 é precisamente o Ano da Cougar e arriscava-me pensar que era um novo tipo de ano chinês. Mas a questão é que a expressão cougar só pode ser proferida por mulheres para não ser entendida como sexista. Um dia, mulheres e homens vão ter que tentar chegar a um acordo semiótico dado o desfasamento normativo que se tem vindo a criar. A mulher, naturalmente foi conceptualizando o mundo à sua imagem. O homem cobardemente ficou a gerir o silêncio grunhindo monossílabos. Basta pegar neste exemplo das pumas/felinas: enquanto as mulheres se auto-intitulam ostensivamente predadoras-cougar, a terminologia masculina apenas quer safar a questão e remete para um conceito de "balzaquianas". Ora dizer que uma cougar é uma balzaquiana é como confundir uma M16 com um arcabuz: está completamente errado em termos de data de uso, capacidade de disparo e, acima de tudo, de peso.
Vejamos. A balzaquiana, tal como existe cristalizada num imaginário masculino preguiçoso estava no "fim do prazo" aos 30 anos, entediada e anafada na chaise longue e cedia por tédio aos assaltos impetuosos dos cavalheiros. Ora a cougar, aos 45, está hiperfit e aero e anaerobicamente vai focalizada para caçar homem jovem e - imagine-se - os ginásios são hoje uma savana ideal com horas certas para este tipo de mulher rondar. É quando ninguém desconfia, tipo entre as 10 da manhã e as 5 da tarde. Para elas foi usada a terminologia de "viúvas de ginásio", as mulheres cujos maridos estão ausentes de facto, ou simbolicamente, e que ali recolhem para continuar o seu objectivo de vida (ser magras).
Isto é conversa de Oprah. Um fait divers? Bom, se não estiver a acontecer com a sua mulher ou a sua mãezinha, acredito que sim.
É que na "novela da vida real", de facto, a vida continua. Um resumo dos capítulos: ao que parece, leio, os homens são cada vez mais o "sexo secundário" se bem que libertos de responsabilidades e as mulheres, cada vez mais poderosas, vivem hoje no "paradoxo da infelicidade". No pico da sua feminilidade, quando se encontram saudáveis, a ganhar melhor, liberadas, sem disposição para aturar casamentos infelizes ou patrões abusadores, vêem-se muitas vezes sós, divorciadas e com o fardo de ainda ter de cuidar de uma casa e criar os filhos num contra-senso de uma liberdade hiperatarefada infeliz.
Criados os filhos resolveram vestir a pele de cougar e marchar para o gim. Cavalheiros: é melhor ir à Oprah de quando em vez para constatar que as balzaquianas faleceram.