A culpa é da Kylie Minogue. Ou da Avril Lavigne. Das músicas e do desejo sexual que os seus vídeos despertam nos homens. Por isso, 'Spinning Around', de Minogue, acompanha todo o livro. A escrita é rápida, feita de frases curtas e muita acção. A voz continua negra. Como nas canções que embalam o choro e a morte. Nick Cave está de volta à escrita de romances.
Foram precisos 20 anos, depois de "E o Burro Viu o Anjo...", mas regressa com um delirante psicopata sexual. Ou talvez assim pareça, à primeira leitura. Talvez assim pareça conforme vamos seguindo os passos obcecados de Bunny Munro, que viaja por Inglaterra, de carro, depois do suicídio da mulher, seguindo o mapa dos seus compromissos profissionais, que o conduzem à intimidade das suas vítimas, mulheres.
Afinal ele é vendedor de produtos de beleza de porta em porta. Mas com as suas acções violentas e desapegadas de qualquer consciência moral ou afectiva, mais presente se vai tornando o olhar do rapaz de nove anos que o acompanha, Bunny Junior, o filho. A visão do mundo surge assim dividida em duas, a do adulto e a da criança, mas em ambas o mundo surge cruel, distorcido e predador. Nick Cave podia ser, nesta novela, um Tarantino, um Lynch ou um Cronenberg da ficção. Ou então simplesmente um Nick Cave da literatura.
O humor nasce da frieza visual com que as acções são relatadas. E o símbolo mais forte desse humor nocturno está no nome da personagem e na imagem escolhida para capa: um coelho de peluche. Fofinho? Os coelhos são animais que procriam imparavelmente, como essas baterias infindáveis de uma publicidade. O princípio e o fim da vida partilham uma intimidade constrangedora, a inocência e a perversão fazem-se companheiros. Não há redenção possível.
Afinal, este é o retrato do mundo de um homem-coelho que, quando vê a sua mulher morta, pensa: "as mamas dela estão giras".
A morte de Bunny Munro
Nick Cave,
Objectiva, 2009,
trad. de José Couto Nogueira,
296 págs.,
€16,50,
Romance
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Setembro de 2009