Nas minhas longas noites escocesas, mesmo sabendo que ninguém viria, abria a luz da sala que mais se visse do exterior. A expectativa era ligar-me às gentes de quem gosto, que, bem longe, estariam a procurar essa mesma ligação. Penso que todos nós, Portugueses, precisamos de abrir a luz nesta nossa grande sala. Falta-nos o elemento de ligação num esforço comum, que se torna mísero se nos lembrarmos apenas do futebol. Ressalva-se a ligação conseguida quando do nosso (por fim) acto fraterno com Timor.
Se não tenho memória próxima de outras coisas dignas do meu Povo digno, ainda as espero, em formas que marquem a memória dos que vêm. Espero-as sobretudo neste momento, por ser mais grave do que muitos o sabem, e que determina cada vez menos tempo para o podermos fazer.
Para 2010, à medida do hoje, com fantasia mas sem deslumbramentos, assim gostaria:
Que os apoios ao desemprego se transformassem em apoios ao emprego; que não se usasse a saúde como meio riqueza; que não se permitisse a ganância nas mutualidades; que a justiça se sobrepusesse ao Direito; que existisse rigor absoluto nos meios de segurança possibilitando-nos uma vivência serena e produtiva; que se eliminasse o desperdício da logística embaraçosa dos processos; que se fizesse a leitura inversa da economia, encontrando o produto final desejado e a partir daí o quociente equilibrado; que as pessoas que crescem culturalmente neste País construíssem o seu caminho sustentando-o na memória de onde vêm; que a atitude dos Portugueses se transformasse no sentido do inconformismo construtivo, pro-activo, criador.
Só assim 2010 será melhor que 2009. Mas a ambição deve ser muito maior do que uma mera comparação com o horribilis. Não fiquemos à sombra da vitória dos outros, esperando que a mesma nos subsidie e nos humilhe. Estamos à espera de quê? de quem? Sejamos os heróis de nós próprios.
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Nota
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