12/02/2012 atualizado às 9:02
Página Inicial » Opinião » Editorial » A Justiça não se redimiu

A Justiça não se redimiu

Ao fim de oito anos, o verdadeiro perdedor do processo Casa Pia é a Justiça, porque uma sentença que demora tanto tempo a proferir já não é justa para ninguém.

(www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 8 de setembro de 2010

Houve crianças, que estavam ao cuidado de uma instituição do Estado, abusadas sexualmente ao longo de anos. Houve abusadores e coniventes. Houve 461 audiências em três tribunais e foram ouvidas 981 pessoas. Ontem, ao fim de um processo iniciado há oito anos e de quase seis anos de julgamento e perante um enorme carnaval mediático, foram conhecidos os factos que o tribunal deu como provados e as penas que aplicou a seis dos réus, ilibando a única arguida.

O abuso sexual de crianças é horrível e deve ser severamente punido, seja quem for que estiver envolvido. Mas a sentença proferida ontem pelo coletivo liderado pela juíza Ana Peres é perturbante. E é-o porque assenta nas 43 alterações das datas e locais onde teriam ocorrido os abusos sexuais solicitadas pelo procurador João Aibéo já durante a fase das alegações finais, sem a concordância dos advogados dos arguidos mas sobretudo sem estes terem tido possibilidade de contraditar essas mudanças. E se a isto se juntar o facto de o tribunal não ter comunicado porque deu como provados esses factos, tudo se torna ainda mais perturbante. Não é esse o reino da justiça. Não é isso que caracteriza um Estado de Direito.

Seria incompreensível para a opinião pública que um processo tão mediatizado como este terminasse sem condenações. Mas também é incompreensível que, num caso tão grave, se possam ter aplicado penas com base em argumentos que aparentemente não assentam em factos incontroversos e irrefutáveis.

Não, a justiça portuguesa não se redimiu através do caso Casa Pia, apesar das condenações que proferiu, por mais justas que algumas delas possam ser.

Queiroz


Carlos Queiroz pode estar a ser vítima de uma operação para o levar a demitir-se. Mas os termos com que se dirigiu aos médicos que iam fazer o controlo antidoping dos jogadores da seleção nacional de futebol não são "menos elegantes": são profundamente chocantes. A sua versão dos factos também é agora contraditada. Por isso, se o que está em causa é a honra das pessoas, então a saída mais honrosa é demitir-se ou negociar uma saída. Porque, como é óbvio, não tem condições para continuar a exercer o cargo.

Moçambique


O que se passou em Maputo esta semana é um sério aviso aos dirigentes africanos. Num país onde a esmagadora maioria da população vive em condições paupérrimas, aumentos de 13% nas tarifas de água e luz e no preço do pão revelam uma total insensibilidade e um corte profundo entre a classe dirigente e o povo, em nome de quem foi feita a luta armada. Mas o colonialismo acabou há muito e hoje o povo responsabiliza os dirigentes pelas dificuldades que enfrenta. E das barricadas à queda do poder vai um passo muito pequeno.

Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010

Palavras-chave  opinião
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Sempre a Justiça
CãodaRosa (seguir utilizador), 3 pontos (Bem Escrito), 12:02 | Quarta feira, 8 de setembro de 2010
Começa a cansar esta cruzada contra a Justiça portuguesa, embora não seja um setor sem problemas é tempo de ser responsabilizada apenas pela parte que lhe cabe em todo o mal que nos afeta. A campanha de diabolização é tanto mais feroz quanto maior é o número de intervenientes de "colarinho branco" e o processo Casa Pia, certamente pelos "podres" de gente influente está a proporcionar aos arguidos o acesso a todos os meios de comunicação e de propaganda que precisam para armadilhaem quem os condenou. Das vítimas poucos se lembram e há os que delas falam para lhes atribuir um poder que não tem. Num programa de televisão, falou-se de tudo em defesa dos arguidos, atacou-se o coletivo de juízes, o bastonário da OA teve o desplante e a pouca vergonha de afirmar que poderosas eram as vítimas que tinham tido os melhores advogados, não explicou foi a razão do abandono desses senhores. Referiu-se o julgamento de Marc Dutroux, como se este tivesse durado apenas alguns meses, é verdade, começou a 1 de Março de 2004, segundo li, mas foi cerca de sete anos e meio depois da sua detenção. Foram ouvidas cerca de 450 testemunhas. Dutroux teerá confessado e foi julgado por outros crimes como roubo de automóveis, rapto, tentativa de homicídio, rapto e abuso sexual. Desde a detenção do belga, até ao final do julgamento, decorreu tanto tempo como no processo Casa Pia, mas para o painel daquele execrável programa demorou apenas um mês e pouco. Comparou-se ainda o caso Farfalha, como se fosse igual.
 
 Regras da comunidade
Evitei
Durruti Blak (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 16:56 | Quarta feira, 8 de setembro de 2010
sempre pronunciar-me sobre o chamado caso Casa Pia - a histeria de que ele se rodeou assim me aconselhava. Mas o que eu mais temia aconteceu, daqui a décadas ainda se há-de falar das conclusões deste tribunal como uma das maiores aberrações da nossa Justiça...
Plenamente de acordo com a frase final: "Não, a justiça portuguesa não se redimiu através do caso Casa Pia, apesar das condenações que proferiu, por mais justas que algumas delas possam ser".
Sobre Moçambique, também plenamente de acordo embora queira aqui recordar que o governo moçambicano apenas se comportou como um governo que geralmente V. apelida de "responsável": cumpriu uma das exigências a que foi sujeito pelos acordos com os seus financiadores.
Quanto a Queiroz... que dizer? Ele insultou a mãezinha dos gajos do "doping", descaiu-se com a verdade do "polvo" e foi responsável por a equipa nacional ter pedido com a campeã mundial - houve algum seleccionador nacional que, de facto, tenha sido bom? Nunca poderá haver um enquanto estivermos convencidos que temos equipa para sermos os campeões mundiais... megalomanias.
 
 Regras da comunidade
Serão as leis ou os agentes.
88dabulota (seguir utilizador), 1 ponto , 17:54 | Quarta feira, 8 de setembro de 2010
A nossa justiça bateu no fundo e há muito tempo. E está assim porque interessa a muita gente que desgoverna, de contrário , se fosse justiça , talvez a bandalheira da desgovernação fosse outra.Não sei se são as leis se os agentes da justiça os culpado disto tudo ,mas uma coisa toda a gente já viu , se os governos quizessem ter uma justiça boa não faziam leis como fazem . Haverá algum país da UE que altere as leis gerais de punição para branquiar pedófilos seus amigos ou sócios do mesmo partido do governo .Isto era mais que soficiente para demitir fosse que fosse em qualquer país , mesmo no mundo não civilizado.Pois mas os senhor Socas fez isso e fez mais , fez uma festa quando libertaram um do pedófilos na sua Sede. Um presidente que dá o indulto a criminosos de sangue está a baixar ao mesmo nivel. Soares fez isso .
 
 Regras da comunidade
SENTENÇA PERTURBANTE
Anamanacosta (seguir utilizador), 1 ponto , 19:24 | Quarta feira, 8 de setembro de 2010

Tantos artigos questionando a sentença da Casa Pia! Ainda não se conhecem os fundamentos da sentença e já são demasiados os artigos que a questionam. Porque será? Como é possível que JORNALISTAS inteligentes, bem informados e que ao longo da sua vida profissional procuraram informar e tentaram ser isentos se atrevam a cair em semelhante erro? A palavra perturbante é muito reveladora. Perturbou-os enquanto pessoas e utilizam a sua profissão de jornalistas para actuar no seguimento dessa perturbação. Resta saber o que os perturbou. Que um colega de profissão tenha sido condenado e que vá recorrer, ao contrário de tantos cidadãos que não têm dinheiro para isso? O crime em si, será que não deveria ser punido, são contra a penalização da pedofilia? O facto de uma instituição do estado não ter sabido proteger as crianças que deveria educar?...
 
 Regras da comunidade
Pobre justiça
leitura (seguir utilizador), 1 ponto , 0:48 | Sexta feira, 10 de setembro de 2010
Eu creio que a justiça não tem de se redimir.
Talvez a actuação dos tribunais, pela impossibilidade imposta, pelos governantes, para que não funcione.

Moçambique.
É verdade que os governantes moçambicanos são como os nossos, mas foram as medidas, impostas, pelo FMI. Não foram opções dos governantes de Moçambique.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Grécia e nós
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012,
Mais pobres mas seguros
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012,
O abismo, outra vez
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
Quem ganha com o acordo?
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012,
Sinais errados
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP