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A "Ilíada" e a guerra

Miguel Monjardino
0:01 Sexta feira, 25 de dezembro de 2009

Há uma longa guerra de guerrilha na Ásia. Vem aí o décimo ano de combates mas o fim do conflito não está à vista. O número de pessoas que suspeitam que o comandante-chefe não tem a determinação necessária para ganhar uma guerra de guerrilha é elevado. Há grandes dúvidas em relação aos objectivos das operações militares. O processo de decisão tem revelado um comandante-chefe em agonia sobre o que fazer.

O comandante-chefe confirma em público as suas dificuldades. Há imensa gente a defender o início da retirada. O melhor guerreiro no terreno parece ter mais qualidades de liderança do que o comandante-chefe e a relação entre os dois é complicada. Os militares nunca conseguiram cercar e destruir o inimigo. Os aliados estão descontentes com a maneira como a guerra tem sido conduzida e com a pouca influência no processo de decisão militar do comandante-chefe.

Parece o Afeganistão, não é? Parece, mas não é. A guerra a que me refiro é a Guerra de Tróia, um longo conflito que opôs os gregos e troianos há mais de três mil anos supostamente por causa do rapto ou da fuga de Helena, a mulher mais bonita do mundo, para Tróia. A segurança internacional e a liberdade foram temas importantes nesta longa e amarga guerra.

A "Ilíada" de Homero, a primeira grande obra da cultura europeia, é um excelente guia para os nossos debates sobre o Afeganistão. Homero escreveu sobre tudo o que é verdadeiramente importante e imortal na guerra - o enorme sofrimento e a destruição causadas, a coragem e a determinação daqueles que têm de combater e as marés psicológicas que rodeiam os conflitos de longa duração. Ao contrário do que muitas vezes é dito, a "Ilíada" não é um poema épico que glorifica a guerra e o combate. Homero é particularmente claro em relação ao preço que a guerra cobra a todos os que a abraçam por obrigação ou opção. No discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz em Oslo, Barack Obama falou sobre isto.

Na sua coluna de quarta-feira no "New York Times", David Brooks chamou a atenção para a influência de teólogos cristãos como Reinhold Niebuhr (1892-1971) no pensamento, discursos e acção política de Barack Obama. Mas, em Oslo, Obama também disse coisas que estão no centro da mensagem da "Ilíada". Depois de dizer que "a guerra é, infelizmente, necessária em certas circunstâncias", o Presidente americano disse que "a coragem e o sacrifício dos soldados é cheia de glória, expressando devoção ao país, à causa e aos camaradas em armas. Mas a guerra em si mesma nunca é gloriosa e nós nunca devemos trombeteá-la como tal". Aquiles e Heitor disseram o mesmo no poema de Homero.

Na véspera de os Comandos partirem mais uma vez, silenciosamente e ignorados pelo resto do país para o Afeganistão, há pelo menos três razões para a "Ilíada" ser lida e discutida com atenção nos departamentos governamentais, parlamento, universidades, academias militares e pelo público em geral.

A primeira tem a ver com a frustração e o cansaço que acompanham qualquer campanha de contra-insurreição como aquela que está a decorrer no Afeganistão. Tal como a maioria dos eleitorados europeus, os portugueses nunca pensaram que as suas tropas poderiam vir a combater nos vales do sul da Ásia. A opção militar da Administração Obama exige mais botas no chão, mais combates e muita paciência estratégica. Para governos como Lisboa isto é um grande problema político. A segunda razão pela qual devemos ler a "Ilíada" está relacionada com aquilo que é necessário para exercer o comando político e militar de uma forma competente na guerra. Finalmente, o poema de Homero explica como é que os líderes da aliança grega geriram e resolveram o problema da desmoralização das suas tropas e opinião pública.

A "Ilíada" é uma obra indispensável para os decisores políticos, militares e civis e, graças à tradução de Frederico Lourenço, pode ser lida integralmente em português.

"The Good Soldiers"

Como é que os soldados de infantaria olham para a guerra? David Finkel do "Washington Post" acaba de publicar um livro indispensável sobre o assunto. Em "The Good Soldiers", Finkel segue o dia-a-dia de um batalhão de infantaria do exército americano em Bagdade entre Abril de 2007 e 2008 determinado a cumprir o seu dever em circunstâncias dramáticas. O que os jovens soldados vivem é uma mistura poderosa de sangue, violência, humanidade, medo, bravura, camaradagem, desespero e tragédia.

 


Número

3


mil anos depois da Guerra de Tróia, a Ilíada é uma obra essencial para compreender o que está a acontecer no Afeganistão. As dificuldades de uma guerra de guerrilha, o problema do comando e a desmoralização das tropas explicam actualidade da obra de Homero.

Soluções

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Miguel Monjardino


Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009

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AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 9:52 | Segunda feira, 28 de dezembro de 2009
A essencialidade da leitura da Ilíada para compreensão do conflito no Afeganistão é a pura constatação de que a humanidade pouco ou nada evoluiu! O homem belicoso e prepotente habita ainda o planeta. Mesmo que essa condição humana seja uma fatalidade, não nos deviam faltar razões para nos envergonharmos, com recato. Qualquer explicação das guerras do presente, forçosamente parcial, inflamará consciências e ajudará a perpetuar justificações injustificáveis.
Não vislumbramos qualquer tipo nobreza na guerra do Afeganistão que nos faça reportar à imortal obra de Homero. Ficamo-nos pelo eventual paralelo do relato histórico que só o futuro poderá confrontar com alguma consistência.
Obama é um homem do seu tempo. Demasiado bem-falante para servir de modelo... Culto e inteligente, fará o que aqueles que o suportam exigirem dele.
Portugal, que não os portugueses, está no Afeganistão para se habilitar aos trunfos diplomáticos. Os soldados lusitanos, numa guerra que não lhe diz respeito, são assim forçados á condição de mercenários, vil moeda de troca para as tramas internacionais.
 
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