Quando se chega a esta época do ano, as assembleias gerais das grandes empresas ou das com maior notoriedade ganham particular destaque. Numas ou noutras há questões que enchem a gula dos jornalistas por boas notícias. Agitam a ansiedade dos gestores em final de mandato. Aumentam a esperança dos candidatos. Empolam o orgulho ou a depressão dos CEO. Despertam a inveja relativamente às remunerações pagas e as que vão ser votadas para o futuro. Mostram o rigor e a independência dos órgãos de fiscalização. Fazem salivar os accionistas à espera do payout, o que traduzido na nossa língua e que toda a gente percebe (embora pronunciar ou escrever payout seja mais chique e confere outro estatuto) significa o montante dos lucros distribuído aos accionistas. Verdade se diga que os critérios de apreciação e crítica quanto aos sucessos ou insucessos, relativamente à qualidade da gestão e fiscalização, sobre a adequação dos montantes das remunerações e dos dividendos são exemplos magníficos da geometria variável. Dependem de quem os faz e a quem se destinam. Há sociedades, por mais republicanas, que não vivem sem os seus 'reizinhos'. Por mais igualitárias, que resistam à tentação de dar tratamento diferenciado conforme as forças e as fraquezas dos visados. Por mais democráticas, que não usem e abusem da demagogia como instrumento para alcançarem os seus objectivos.
Começam a aparecer notícias sobre o payout a votar nas próximas assembleias gerais. É humano e legítimo que os accionistas, públicos e privados, esperem receber o máximo de dividendos. É também compreensível que os gestores tudo façam para apresentar propostas generosas de distribuição dos lucros. Satisfazem quem tem o poder de os eleger e o cutelo para os despedir. Justificam a remuneração variável. Confortam as cotações. Trata-se de meros pecadilhos. A vida é mesmo assim. Desse modo é que tem graça e assim continuará.
Mas em período de grave crise económica, financeira e social, que constantemente é recordada, valeria a pena ponderar as vantagens que alguma contenção na distribuição de dividendos também proporciona. A crise agravou endividamentos e, para muitas empresas, tornou mais difícil o recurso ao crédito. A redução do payout diminuía o endividamento. Reforçava os capitais próprios e a solidez das empresas, o que facilitaria o recurso ao crédito bancário. Criava gorduras para a hipótese, que nunca é de afastar, de um penoso arrastar dos pés na recuperação da economia ou mesmo de haver uma recaída. Os efeitos a médio prazo suplantariam algum desconforto imediato decorrente da diminuição do cash in para os accionistas.
A verdade é que apesar dos efeitos no 'pneu', nos diabetes, no colesterol, no cansaço a subir escadas e na carteira, o pecado mortal da gula é tão velho como o homem. E a gula não se confina aos prazeres da boca.