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A guerra nas estradas

8:00 Segunda feira, 11 de agosto de 2008

Há duas semanas recebi em Alfragide a visita de um colega meu finlandês. No final da reunião perguntou-me se tinha alguma sugestão para passar o fim-de-semana. Disse-me que quer ele quer a mulher não conheciam Portugal mas já tinham ouvido falar no Algarve e que tinham curiosidade em conhecer o local.

Como sei que é um casal que joga golfe pelo mundo inteiro sugeri um dos melhores "resorts" no Algarve. A sugestão foi bem aceite.

Sugeri, também, que para conhecer a paisagem do sul do país fossem de carro em vez de avião. Erro meu.

Sábado, pela tarde, telefona-me a agradecer a sugestão do "resort", mas que em relação a conduzir nas estradas portuguesas a experiência era simplesmente aterrorizante.

Desabafou um rol de peripécias cada uma pior que a outra. Eu ia ouvindo sem saber muito bem o que dizer, porque de facto é impossível tentar explicar o inexplicável. Dizia-me que na A2, desde tentativas de abalroamento por não sair da faixa esquerda suficientemente depressa, passando pelas vulgares ultrapassagens pela direita, pelos carros colados na traseira a pressionar com sinais de luzes e buzinadelas. Um terror, dizia-me este colega habituado a conduzir na Finlândia. Na 125 nem queria falar.

Lá o acalmei mas não o demovi de regressar a Lisboa de avião.

Realmente o que se passa nas nossas estradas é de todo inaceitável e cabe-nos a nós portugueses alterar esta situação. Porque o discurso das estradas más e da deficiente sinalização é chão que já deu uvas.

Por motivos profissionais tenho conduzido bastante em Espanha. Que diferença. Há civismo e há cumprimento do código. Perguntei a alguns colegas e amigos espanhóis como chegaram a este ponto. Alguns responderam-me que a introdução da carta por pontos contribuiu muito para a mudança de comportamento.

Penso que no nosso caso não será apenas por métodos repressivos que vamos lá. Estou convencido que se tem que repensar muito seriamente o método de formação. A preparação para tirar a carta devia ter três componentes de igual peso: educação e atitude cívica na estrada, código e prática de condução, esta com ênfase na condução em auto-estradas.

A perda de vidas humanas pela autêntica guerra civil nas estradas portuguesas é indesculpável. Devemos às futuras gerações mudar isso agora.

João Picoito, professor catedrático convidado, Universidade de Aveiro

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