Onde o nosso Comendador, no meio da sua papelada, descobre e analisa as linhas com que se cose uma antiga e celebrada Ordem portuguesa que se notabilizou por ser, quase sempre, a que manda.
O fundador da antiga, nobre e celebrada Ordem do Desconchavo foi um cavaleiro medieval de Lagarelhos a quem chamavam Rui Pedro Solares, por ter um solar e se chamar Rui Pedro e ainda não haver Portugal Telecom que o acolhesse. Ou, se havia, não se sabia - o que não é exactamente o mesmo, mas é praticamente igual. A dita Ordem funcionou, durante anos, com uma regra que tinha apenas três artigos:
1) Rui Pedro, trata de ti;
2) Trata de ti, Rui Pedro;
3) Fica revogada toda a legislação em contrário.
No entanto, por volta do século XVI, ou talvez fosse em 2001 - nisso, as fontes não são precisas -, o dito Rui Pedro alargou a sua Ordem e permitiu que nela entrassem, além de um tal Paulo, rapaz de leis, um ou outro moinante que, tendo poder, ajudasse a mendicante organização a desembaraçar-se das angústias financeiras. O chanceler da época, que era bom rapaz, nomeou-o para tratar de umas máquinas, e ele fez-se à vida confiante, alargando a regra para outros três pontos significativos:
1) Membros da Ordem, tratai de vós;
2) Tratai de vós, membros da Ordem;
3) Fica revogada toda a legislação em contrário.
A mudança de chanceler depois da Guerra dos 100 Anos, ou talvez em 2005 - ele há sempre coisas nos documentos antigos que não se vêem bem -, levou a que o dito Solares, de nome Rui Pedro, alcançasse um poder inaudito. Foi dessa altura a construção do mosteiro do Tagus Parcus, que ainda hoje é monumento nacional, todo em estilo 'espera aí que eu já pago com dinheiro de uma empresa do Estado', e também as alterações das regras da Ordem, de forma a acomodar os interesses do chanceler (ou do chefe grande - eis outra parte que se compreende mal).
De então para cá, aquela que se convencionou chamar nos manuais de História a regra magna da muito antiga, nobre, poderosa e celebrada Ordem do Desconchavo ficou estabelecida, não havendo mais mudanças, ainda que as investidas do Cister e do Cluny (não é o do MP, é primo) tenham tentado alterar as coisas.
A regra, no essencial, diz isto (as gralhas são do original, porque na Ordem, apesar de ricos influentes, são quase todos das Novas Oportunidades):
1) Se lá cheguemos, é porque merecemos;
2) Se não merecemos, é porque somos melhores do que pensemos;
3) Se não fôssemos a gente, eram outros a meter o dente;
4) Uns milhões para a PT não é nada, nem se vê;
5) Um Granadeiro encornado fica mais engraçado;
6) Do chefe o querer, assim há-de ser;
7) Guarda a sexta-feira para almoçar no Mercado do Peixe à maneira e o dia que calhar para ir ao comício do chefe gritar;
8) Nem só do PS vive um homem que enriquecer merece, com o PSD também a fortuna fica à mercê;
9) O curso no IPAM ou na Independente não faz o monge, mas fá-lo parecer engenheiro ou doutor de longe;
10) Quem me nomeia leva mão cheia;
11) Comprar um jornal nunca fez mal, mas uma televisão é que dá emoção;
12) E, se a coisa der para o torto, tira-se este e põe-se o outro.
E pronto, aqui tendes as sábias palavras que vêm do fundo dos tempos. Não vale a pena disfarçar - elas estão sempre actuais.
COMENDADOR MARQUES DE CORREIA
Texto publicado na edição da Única de 20 de Fevereiro de 2010