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A Grande Regra Magna da mui antiga nobre e celebrada Ordem do Desconchavo

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 27 de fevereiro de 2010

Onde o nosso Comendador, no meio da sua papelada, descobre e analisa as linhas com que se cose uma antiga e celebrada Ordem portuguesa que se notabilizou por ser, quase sempre, a que manda.

O fundador da antiga, nobre e celebrada Ordem do Desconchavo foi um cavaleiro medieval de Lagarelhos a quem chamavam Rui Pedro Solares, por ter um solar e se chamar Rui Pedro e ainda não haver Portugal Telecom que o acolhesse. Ou, se havia, não se sabia - o que não é exactamente o mesmo, mas é praticamente igual. A dita Ordem funcionou, durante anos, com uma regra que tinha apenas três artigos:

1) Rui Pedro, trata de ti;

2) Trata de ti, Rui Pedro;

3) Fica revogada toda a legislação em contrário.

No entanto, por volta do século XVI, ou talvez fosse em 2001 - nisso, as fontes não são precisas -, o dito Rui Pedro alargou a sua Ordem e permitiu que nela entrassem, além de um tal Paulo, rapaz de leis, um ou outro moinante que, tendo poder, ajudasse a mendicante organização a desembaraçar-se das angústias financeiras. O chanceler da época, que era bom rapaz, nomeou-o para tratar de umas máquinas, e ele fez-se à vida confiante, alargando a regra para outros três pontos significativos:

1) Membros da Ordem, tratai de vós;

2) Tratai de vós, membros da Ordem;

3) Fica revogada toda a legislação em contrário.

A mudança de chanceler depois da Guerra dos 100 Anos, ou talvez em 2005 - ele há sempre coisas nos documentos antigos que não se vêem bem -, levou a que o dito Solares, de nome Rui Pedro, alcançasse um poder inaudito. Foi dessa altura a construção do mosteiro do Tagus Parcus, que ainda hoje é monumento nacional, todo em estilo 'espera aí que eu já pago com dinheiro de uma empresa do Estado', e também as alterações das regras da Ordem, de forma a acomodar os interesses do chanceler (ou do chefe grande - eis outra parte que se compreende mal).

De então para cá, aquela que se convencionou chamar nos manuais de História a regra magna da muito antiga, nobre, poderosa e celebrada Ordem do Desconchavo ficou estabelecida, não havendo mais mudanças, ainda que as investidas do Cister e do Cluny (não é o do MP, é primo) tenham tentado alterar as coisas.

A regra, no essencial, diz isto (as gralhas são do original, porque na Ordem, apesar de ricos influentes, são quase todos das Novas Oportunidades):

1) Se lá cheguemos, é porque merecemos;

2) Se não merecemos, é porque somos melhores do que pensemos;

3) Se não fôssemos a gente, eram outros a meter o dente;

4) Uns milhões para a PT não é nada, nem se vê;

5) Um Granadeiro encornado fica mais engraçado;

6) Do chefe o querer, assim há-de ser;

7) Guarda a sexta-feira para almoçar no Mercado do Peixe à maneira e o dia que calhar para ir ao comício do chefe gritar;

8) Nem só do PS vive um homem que enriquecer merece, com o PSD também a fortuna fica à mercê;

9) O curso no IPAM ou na Independente não faz o monge, mas fá-lo parecer engenheiro ou doutor de longe;

10) Quem me nomeia leva mão cheia;

11) Comprar um jornal nunca fez mal, mas uma televisão é que dá emoção;

12) E, se a coisa der para o torto, tira-se este e põe-se o outro.

E pronto, aqui tendes as sábias palavras que vêm do fundo dos tempos. Não vale a pena disfarçar - elas estão sempre actuais.

COMENDADOR MARQUES DE CORREIA

Texto publicado na edição da Única de 20 de Fevereiro de 2010

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sou a rosa e alerta para comendador abusivo
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos , 22:36 | Domingo, 28 de fevereiro de 2010
ai senhor marquês isto é um abuso e o senhor não devia brincar com coisas sérias e então esse doutor pedro não é aquele amigo do senhor engenheiro e então não vejo nada de mal e já o meu tio torpécio que é merceeiro meteu como marçano para os recados o abdégano e que era bom moço mas um bocadinho lerdo e até se diz que fez a terceira classe porque o senhor prior engelécio se meteu no assunto e recordo-me do meu tio e perante o espanto das pessoas dizer e é que ele sabe que sem mim volta outra vez para debaixo da ponte e que diabo é só para os recados e olhe que o meu tio já tem seis mercearias e voltando ao assunto e diga-me se o doutor pedro fosse incompetente deixava-mos de falar ao telefone e é que não e a net parava e é que não e parava alguma coisa na pêtê e é que não e então como vê ele nunca podia fazer mal à pêtê e portanto tal como o meu tio torpécio o senhor engenheiro não é estúpido
 
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Se não fôssemos a gente...
Jonatas (seguir utilizador), 1 ponto , 13:01 | Sábado, 27 de fevereiro de 2010
eram outros a meter o dente.

Os membros da ordem são quase todos das novas oportunidades e depois dá nisto - frases bem construídas.

Um texto notável, de inteligência e humor. Era capaz de propor este Comendador para Prémio Pessoa.
 
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Parabéns pelo humor
brit55 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:04 | Sábado, 27 de fevereiro de 2010
Embora não concorde com tudo o que está subjacente à construção da história, dou os parabéns pelo são humor. A personagem merece o lugar de destaque que tem...
 
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