12/02/2012 atualizado às 19:35
Página Inicial » Opinião » Daniel Amaral » A fúria dos preços

A fúria dos preços

8:00 Segunda feira, 26 de maio de 2008
Perspectiva europeia: a economia está doente, o desemprego ameaça e a confiança desapareceu. O normal seria embaratecer o dinheiro para facilitar a retoma. Mas a inflação já atingiu os 3,3% e está a subir, pondo em risco um dos objectivos mais emblemáticos do Banco Central Europeu (BCE): andar à volta de 2%, sem exceder este valor. Resultado: a prioridade vai para o controlo da inflação e não para o estímulo ao crescimento. E as taxas de juro resistem aos 4% que já levam um ano.

Perspectiva americana: a inflação já atingiu os 3,9% e ameaça prosseguir, podendo vir a tornar-se incontrolável. O normal seria encarecer o dinheiro para evitar o pior. Mas a economia está de rastos, com um crescimento baixíssimo, e há mesmo quem advogue que já terá entrado em recessão. Resultado: a prioridade vai para o estímulo ao crescimento e não para o controlo dos preços. E a Reserva Federal (FED) não pára de mexer nas taxas de juro, que já caíram de 5,25% para 2% desde Agosto.

Por muito lamentável que tudo isto possa parecer, as coisas são o que são: o BCE e a FED não se entendem. E, sem a menor capacidade de intervenção, Portugal acaba por sofrer por tabela dos dois lados: sofre, primeiro, com as altas taxas de juro europeias e sofre, depois, com a "subprime" americana, que levou à falta de liquidez bancária e fez subir as taxas de juro ainda mais. Com o nível de endividamento que se conhece, a gestão financeira dos portugueses é hoje dramática.

Entretanto, a crise americana foi fazendo mossa. As sucessivas desvalorizações do dólar desesperaram os países produtores de petróleo, com moedas alinhadas. O aumento da procura de alguns países emergentes, como a China e a Índia, elevou a pressão. E os especuladores fizeram o resto. Num ápice, estava cozinhado o caldinho: aumento dos preços do petróleo, indução deste aumento nas matérias-primas, disparo dos preços nos produtos alimentares. E o espectro da fome, que já estava em alta, recrudesceu.

Com isto chegamos aos combustíveis. Nos últimos três anos, o preço do barril de petróleo passou de 60 para 120 dólares (+100%). Mas, no mesmo período, o dólar desvalorizou-se 25% face ao euro, pelo que aqueles 120 passam para 90 (+50%). Não conheço a estrutura de formação dos preços, mas arrisco um palpite: o efeito petróleo terá sido incorporado pelo dobro do valor correcto. E a loucura generalizou-se: impostos sobre impostos, ineficiência, ganância, caos. Portugal no seu melhor.

Se o mundo fosse perfeito, todos estes problemas se resolveriam: calculava-se o impacto global no nível de vida e corrigiam-se os salários em conformidade. Mas o mundo não é perfeito e há quem se aproveite disso. A dura realidade é esta: os acréscimos salariais foram calculados no pressuposto de uma inflação média de 2,1% e esta já atingiu os 2,6% e vai subir. Não pensem em correcções, que ninguém fará. Pensem no murro no estômago que é mais este decréscimo em termos reais.

E vão quatro: os juros, a alimentação, os combustíveis, os salários. Alguém se preocupa?

Daniel Amaral

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Re: A fúria dos preços
biatriz (seguir utilizador), 1 ponto , 13:53 | Terça feira, 27 de maio de 2008
Talvez se preocupassem, mas infelizmente a classe politica deste país não sabe o que é ter que passar necessidade.
Ainda na passada 6ª feira deu uma reportagem num canal de televisão português sobre os novos pobres.
É aterrador ver que existem pessoas que não tem dinheiro para comer, pior, não tem dinheiro para dar de comer aos filhos.
É desumano.
Talvez, quando metade dos portugueses ficarem sem casa para morar e forem bater à porta do 1º ministro, aí as coisas se resolvam.
mas como diz e muito bem " o mundo não é perfeito e há quem se aproveite disso "
 
 Regras da comunidade
A arte de esmurrar
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 11:21 | Terça feira, 3 de junho de 2008
As elites governamentais do rotativismo (ora o PS ora o PSD) são eximias na arte de esmurrar os portugueses e de aproveitar todas as ocasiões para empobrecer o país e beneficiar economicamente.

Daniel Amaral diz bem que num mundo justo quando se prometeu que os salários acompanham a inflação que se previu a 2% e que afinal é de 5% corrige-se e cumpre-se a palavra. No mundo das elites de Portugal, vê-se nesta situação a possibilidade de encaixar um bom murro no estômago dos governados. Um murro bem forte directo ao estômago. Toma lá que já almoçaste.

E a diferença entre os 5% da inflação e os 2% previstos para onde vão? Adivinhe o leitor. Uma pista. Se tiver uma empresa e se em vez de aumentar os salários em 5% os aumentar em 2% quem ganha?
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Tentações do diabo
8:00 Segunda feira, 29 de setembro de 2008, 2
De quem são os pés?
8:00 Segunda feira, 15 de setembro de 2008,
Turnaround?
8:00 Segunda feira, 1 de setembro de 2008, 1
A crise e os demagogos
8:00 Segunda feira, 18 de agosto de 2008, 5
Ensaio sobre a loucura
8:00 Segunda feira, 4 de agosto de 2008, 3
Os 'bota-abaixo'
8:00 Segunda feira, 21 de julho de 2008, 9
Um tiro no pé
8:00 Segunda feira, 7 de julho de 2008, 1
No fio da navalha
8:00 Segunda feira, 23 de junho de 2008, 2
A marcha do desemprego
8:00 Segunda feira, 9 de junho de 2008, 2
A fúria dos preços
8:00 Segunda feira, 26 de maio de 2008, 2
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP