José Sócrates garante que nunca o Governo deu qualquer orientação à Portugal Telecom para comprar uma estação de televisão. É bem provável. Formalmente não terá sido o Governo a fazê-lo. Formalmente não terá reunido, em Conselho de Ministros, e decidido a coisa. Assim como formalmente o primeiro-ministro nunca terá sabido de nada do que se preparava na PT para domar a TVI. Também é formalmente muito discutível se deveríamos conhecer como conhecemos estas conversas telefónicas. E formalmente o primeiro-ministro não tem de explicar o que disse ou outros disseram em conversas telefónicas. E formalmente José Sócrates continua a ter toda a legitimidade para governar.
Resumindo, formalmente José Sócrates está carregadinho de razão.
Só que para além da forma há o conteúdo. E o conteúdo diz-nos como José Sócrates ou um grupo em seu nome usou as participações do Estado em empresas para calar as vozes de que não gostava. O conteúdo diz-nos que José Sócrates criou uma rede que, nos bancos e na PT, tratava de premiar e punir quem não obedecesse à voz do dono. O conteúdo diz-nos que é uma impossibilidade que isto se passasse sem a participação activa ou passiva do primeiro-ministro. O conteúdo diz-nos que é difícil confiar os destinos de um país a um homem que não respeita as regras da democracia, da liberdade de imprensa e da separação clara entre os interesses partidários e pessoais de cada governante e o papel do Estado na economia.
Resumindo, o conteúdo diz-nos que se confirmam todas as piores suspeitas que tínhamos sobre José Sócrates: que não tem dimensão ética e política para o lugar que lhe calhou em sorte.
É importante a forma, ninguém o poderá negar. Mas será que ela é suficiente para nos esquecermos do conteúdo?