Só passaram dois meses sobre as legislativas e já todos temos a sensação de que caminhamos para novas eleições. A campanha eleitoral não acabou, houve um intervalo mas a festa continua.
O Governo ficou seriamente baralhado com as escutas. Perdeu a cabeça e enquanto a procura deu de bandeja à oposição a oportunidade para discutir parvoíces como a espionagem política, uma ideia saída de um ministro tecnicamente competente mas politicamente desastrado. A loucura chegou ao ponto de o Parlamento discutir a espionagem, apesar de o ministro saber que disse uma parvoíce e da oposição saber isso mesmo.
Mas a loucura continua no PS. O deputado Ricardo Rodrigues resolveu dizer que Manuela Ferreira Leite sabia das escutas quando disse em Julho que José Sócrates conhecia o negócio PT/Media Capital. Caro Ricardo Rodrigues, isso até o Rato Mickey sabia! Eu lembro-lhe: o Governo sabia de tudo e sempre ajudou a Prisa a encontrar comprador para a Media Capital. Isso foi tema de conversas com o Governo espanhol (incluindo na Cimeira de Zamora) e com outras empresas como a Mediapro. Tudo isso foi escrito no Expresso e, acredite, nós não sabíamos das escutas.
Mas mesmo sem conhecer as tais escutas, aposto que o tema faz parte das conversas entre Sócrates e Armando Vara. Não acho isso bem, mas acho normal, não me armo em ingénuo ou moralista como o PSD.
O PSD deve estar a brincar se pensa que ninguém se lembra como é que Henrique Granadeiro foi afastado da Lusomundo ou foi montado o sindicato bancário que salvou a OPV da Media Capital e Pais do Amaral entregou a cabeça de Marcelo como pagamento por conta. Se houver escutas dos valetes de Durão Barroso e dos banqueiros da altura está lá tudo.
A irracionalidade alastrou à elite que dirige o PSD, que, incapaz de ganhar as eleições ou de impedir a entrega do partido a Passos Coelho, acha que Sócrates vai cair pela via judicial e esquece-se do resto. Só isso explica que Manuela Ferreira Leite tenha ressuscitado a expressão do "primeiro-ministro sob suspeita", uma frase que Aguiar Branco inventou no Pontal e depois enfiou no bolso, e se refira às escutas como provas.
O Governo está, obviamente, aflito com a possível divulgação das escutas, mesmo que estas não tenham relevância judicial. Com esta ameaça sobre a cabeça, perdeu o tino político e esse desgoverno acabará por alastrar a todas as pastas do Executivo. É uma questão de tempo.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009