Manuela Ferreira Leite está disposta a sair mas só depois do debate do Orçamento do Estado. Marcelo Rebelo de Sousa pediu quatro semanas para hibernar. Paulo Rangel acha que Marcelo é o melhor e acha isso ao mesmo tempo que todos os barrosistas, numa curiosa epifania colectiva.
Aguiar Branco acha que o melhor é esperar porque o tempo e o Parlamento vão mostrar que ele é tão bom como Rangel. Rui Rio acha que se está melhor no Porto e que Marcelo é melhor do que Rangel. Alexandre Relvas acha o mesmo e faz colóquios. Morais Sarmento acha que Marcelo é o melhor mas que, no fim, ele não avança e o partido cai nos braços de Passos Coelho. E todos acham que isso é o desastre.
Antes de mais, convém perceber que todas as pessoas que povoam o parágrafo anterior têm uma coisa em comum: deitaram abaixo a direcção de Luís Filipe Menezes, estiveram contra Pedro Santana Lopes (alguns embarcaram no Governo dele por pura obediência ao verdadeiro chefe que partiu para Bruxelas) e nunca ajudaram Marques Mendes porque, no fundo, não era um dos seus. Não tenho dúvidas de que neste grupo há pessoas com capacidades óbvias para liderar o PSD e aspirar a governar Portugal. Há, aliás, pessoas cujas capacidades são muito mais evidentes do que as de Pedro Passos Coelho, um mistério para todos nós. Mas não consigo perceber porque é que este grupo se entretém ora em marcações à zona (uns aos outros) ora em estudos do calendário sem que ninguém dê um passo em frente.
Há um ano e meio, este mesmo grupo convenceu Manuela Ferreira Leite a 'salvar' o partido da deriva de Menezes, impedir que o poder ficasse nas mãos de Passos Coelho ou Santana e, já agora, retirar a maioria absoluta a Sócrates. Conseguiram as duas primeiras e Sócrates encarregou-se da última.
Passou um ano e meio e as coisas estão na mesma. No meio da confusão, todos se dedicam a uma profunda hermenêutica do ciclo político e ninguém arrisca um centímetro. A política faz-se com ponderação, é certo. Mas também se faz com coragem.
Não é preciso evocar Sá Carneiro ou Mário Soares para ver que só quem corre riscos chega longe. Cavaco perdeu umas eleições presidenciais para Sampaio. Sampaio perdeu um congresso para Guterres e arriscou o pescoço contra Marcelo nas autárquicas. Aznar perdeu uma eleição para González, Mitterrand perdeu muito. Sarkozy arriscou contra todos. Obama idem. No PSD ninguém arrisca nada. Agora é cedo e depois logo se vê. E vê-se o quê? Nada.
Ricardo Costa
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009