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A Europa das pátrias

José Cutileiro
8:00 Terça feira, 16 de junho de 2009

O futuro Kaiser Guilherme II perguntou ao seu mestre de equitação prussiano o que era mais importante para saltar obstáculos: as características do cavalo, as do cavaleiro, as dos arreios? "O coração, sire, o coração" respondeu o Junker. "O resto vai atrás".

Nas eleições de domingo passado a abstenção foi maior do que em 2004. Cresce desde 1979 quando os deputados europeus passaram a ser eleitos por sufrágio universal em vez de continuarem a ser escolhidos por parlamentos nacionais. E os poucos europeus que votam fazem-no mais para castigarem ou premiarem os governos dos seus países do que para intervirem na Europa. Como esses governos têm vindo a dar ao Parlamento de Estrasburgo papel cada vez mais importante na feitura de legislação que afecta todos os europeus, caminha-se para situação insustentável quanto à legitimidade das instituições europeias. O Junker do Kaiser saberia porquê: os cavalos são bons, os cavaleiros exímios e não há melhores arreios mas falta à Europa coração. Este ficou na pátria de cada um.

Muita gente que conheço estaria disposta a morrer pela sua pátria; não conheço ninguém pronto a morrer pela Europa. Há sessenta anos, os pais fundadores esperavam que, como os lagartos, franceses, alemães, italianos, belgas, luxemburgueses, holandeses e os mais que se lhes juntassem fossem largando as velhas peles nacionais e ganhando pele europeia. Não aconteceu até agora, nem sequer na Alemanha dividida ou na Bélgica irreal. Quanto mais depressa eurocratas e europeístas demagogos admitirem publicamente que assim é, melhor. (Muitos sabem-no mas calam-se com medo que o povo dê por isso).

Ao contrário do que apregoam os eurocépticos, porém, o projecto da União Europeia é a base do bem-estar dos europeus e das suas vantagens competitivas no mundo. A livre circulação de pessoas, bens, dinheiro e serviços dentro do mercado interno; a gestão pela Comissão Europeia quer do comércio dos 27 com o resto do mundo quer da concorrência e, dentro de poucos anos, da energia e do ambiente; a moeda única; a promoção, dentro e fora de portas, de decência cívica e política são pilares essenciais do conforto e segurança das populações e constituem fonte de influência que nenhum membro da União só por si poderia ter agora ou no futuro. Os europeus criaram na União uma espécie de cooperativa fortíssima que promove os seus interesses morais e materiais e é insubstituível.

Mas em tempo de guerra - e a guerra virá um dia - não é defensável porque os corações nacionais se aninharam no pacifismo. Salvo honrosas excepções os orçamentos militares andam há anos abaixo do mínimo necessário à segurança das nações. A União Europeia poderia ajudar a corrigir esse engano perigoso. Foi criada à socapa - se os europeus tivessem ido sabendo não teriam deixado - mas deveria mostrar-lhes agora o que perderiam se ela desaparecesse. Talvez depois gastassem mais em armas, o que à falta de um coração europeu seria melhor que nada.

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A língua agregadora (1ª parte)
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 20:01 | Terça feira, 16 de junho de 2009

1.ª parte
O artigo é uma excelente e sábia reflexão sobre a Europa.
Permito-me algumas notas à margem, possam elas ilustrar uma outra leitura das aspirações e possibilidades do que constitui a união deliberada de uma parte significativa (sucessivamente ampliada) dos países do continente europeu.
Como projecto económico cooperativo, defensor dos valores materiais, como o texto aponta, esta Europa tem tido e terá, na realidade, um potencial imenso de concretização da eficácia da economia de mercado e do consequente bem-estar dos cidadãos, genericamente falando.
Contudo quando o articulista junta os interesses materiais aos interesses morais, aí é que as coisas se tornam algo difusas. Pois que o conceito de moral entrosa necessariamente com a tal questão do «coração», o busílis que tão bem a metáfora do texto nos mostra.
(cont/...
 
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A língua agregadora (2ª parte)
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 20:04 | Terça feira, 16 de junho de 2009

2.ª parte
…cont/)

A Europa, que poderá vir a ter uma lei geral única, à semelhança dos EUA, nunca (ou pelos menos num futuro previsível…) terá a união da língua como acontece com os americanos. A língua, que está na génese da pátria, e portanto do «coração», dividirá por muito tempo os europeus. Ou seja, a Europa, quer queiramos ou não, será sempre um conjunto de pátrias…
Que sabe um alemão das “utopias” de um português, ou que sabe um irlandês dos “existencialismos” de um francês… A língua agregadora, a língua que fabrica a nossa mundividência, é exclusiva de cada país e dividirá sempre os cidadãos europeus, não deixando nunca de fortalecer os cidadãos de cada país membro. Tudo o resto é conversa de estadista.
Quanto à guerra falarei, embora a contragosto, noutra ocasião…
 
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