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A espada de Dâmocles

8:00 Segunda feira, 19 de maio de 2008

A DGCI comete um número excessivo de erros. A DGCI faz liquidações que podem afectar gravemente o sujeito passivo e sem qualquer base. Os funcionários da DGCI não podem ser directamente responsabilizados pelos erros que cometem.

Os erros da DGCI, as liquidações mal feitas que depois de causarem graves prejuízos acabam por ser revogadas pelos tribunais são um problema antigo que se agravou com o fim da farsa fiscal e o combate efectivo à fraude.

Combater a fraude era o mais urgente. Aumentar a competência dos funcionários, e criar meio para a reparação pronta dos inevitáveis excessos, ficaria para depois.

A conciliação da necessidade de combater a fraude com a prevenção dos excessos não era uma questão fácil. A Lei da Responsabilidade Civil do Estado com o incentivo do direito de regresso contra o funcionário foi uma solução simples e completamente errada.

Já deparámos com a liquidação de milhões de euros assentes numa argumentação tão viciada e demonstrando uma tal ignorância sobre princípios elementares que me não parece difícil demonstrar, em acção contra o Estado, a negligência grave do funcionário e o respectivo direito de regresso.

Mas se um qualquer funcionário que foi empurrado para o desempenho de funções que excedem a sua competência acaba processado - já não digo condenado - quem vai fazer a próxima liquidação mesmo num caso de fraude fiscal que brada aos céus?

E vão ser os contribuintes com maior propensão para a fraude quem mais vai usar esta arma que lhes foi posta irresponsavelmente nas mãos contra quem quer que vá perturbar as suas manigâncias.

Perante isto, o sindicato dos trabalhadores dos impostos fala num seguro. Com que limite e com que custo?

O director-geral dos Impostos, compreensivelmente preocupado com a moral das suas hostes, promete uma assunção institucional das responsabilidades. A lei permite-o? Temos dúvidas, uma vez que foi criado pela lei um direito de regresso contra o funcionário.

A Lei da Responsabilidade Civil do Estado e a avidez - há gente a babar-se de gozo antecipado só a pensar no que vai obter com tais acções - pode por isso fazer regressar a Administração fiscal a um estado ainda pior do que aquele em que se encontrava há quatro ou cinco anos.

Como é possível tomar decisões em questões fiscais com um cutelo sobre a cabeça?

As decisões irresponsáveis que causam sérios danos a todas as categorias de contribuintes são, não temos dúvidas, um problema grave do nosso sistema. Ao lado da impotência da Administração perante um pequeno número de criminosos fiscais - menos do que há poucos anos - que continuam impunes.

Vão para os tribunais demasiados processos e tem que ser criado um qualquer sistema de revisão interna - com funcionários qualificados - para as decisões injustas que depois ficam anos e anos pendentes enquanto vão correndo os custos das garantias.

A solução não pode ser ameaçar com a ruína financeira e os descontos para o resto da vida os funcionários que foram enviados para a execução de tarefas que excediam manifestamente as suas competências, o elo mais fraco da cadeia administrativa.

Criar um risco deste tipo é convidar à inacção e desenvolver uma tendência que já existe na função pública: encontrar razões para não fazer e justificações - justificações sólidas, com brilhantes argumentos - para a inacção total.

É bastante mais fácil parar uma estrutura administrativa do que pô-la em movimento. A Lei da Responsabilidade Civil do Estado mostra grande aptidão para conseguir essa paragem definitiva.

Fiscalista

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As motivações por detrás de uma Lei...
Luso1973 (seguir utilizador), 1 ponto , 20:29 | Segunda feira, 19 de maio de 2008
Parabéns pela posição por si defendida, Dr. Saldanha Sanches.
No meio de alguma histeria "anti-Fisco" que se vai vivendo pelo País, é gratificante ver que alguém percebeu bem as consequências de tal Lei no nosso sistema fiscal.
Porém, mais importante ainda seria tentarmos todos - Sociedade Civil - perceber a motivação que está por detrás da recém aprovada Lei da Responsbilidade do Estado.
Não é mera coincidência que todos falem da DGCI e/ou da DGAIEC (Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo), i.e., da máquina fiscal, como exemplo-mor do alvo desta Lei; e eu pergunto-me: então e dos demais Agentes e Funcionários Públicos, ninguém fala??
O professor que se engane na correcção de um teste, o funcionário judicial que deixe passar certo despacho sem diligência, o médico que cometa um qualquer erro numa operação num hospital público.... não são todos eles exemplos de funcionários e Agentes da Administração Pública? E, na teoria, não lhes é igualmente aplicável esta Lei??
É claro que sim...em teoria... mas parece que só estão todos preocupados com os erros dos funcionários do Fisco.
Já todos perceberam que o alvo a abater é a máquina fiscal... certamente que não por mera coincidência, repare-se... afinal de contas, os últimos 5 anos foram "apenas" aqueles em que o Fisco mais cobrou, coercivamente, em valores absolutos; e qual é o prémio para o seu desempenho?
Mais e melhor formação profissional para os seus funcionários, por forma a assim colmatar lacunas existentes na sua formação de base? Incentivos à realização profissional?
Não... pensaram os nosso politicos: "vamos antes fazer uma Lei que faça todos os funcionários da máquina fiscal tremer de medo de cada vez que um contribuinte singular ou empresa o ameace com o recurso à via judicial...".
Gostava de deixar aqui uma pequena reflexão aos leitores do EXPRESSO: um qualquer funcionário do Fisco encontra-se por Lei proibido de exercer (e bem, diga-se) quaisquer outras funções profissionais fora do Fisco, existindo uma exclusividade absoluta do mesmo; mas os Deputados da Nação, licenciados em Direito, que aprovam Leis como a que agora analisamos, podem perfeitamente ser Advogados de um qualquer contribuinte... mesmo daqueles que têm interesse na existência de Leis como a que os seus Mandatários Legais aprovam quando estão no Parlamento... isto não choca a nossa Sociedade Civil??
São os mesmos Politicos que sempre ouvimos defender o mérito das escolhas de outros politicos para certos cargos... curioso que todos sem excepção se queixam do pouco que ganham no exercicio da coisa pública, quando comparado com os lugares que têm à espera em certos empresas e escritórios privados... curioso também que nenhum desses politicos nunca se lembre que, sem antes passarem pela politica, e ai ganharem notoriedade, jamais teriam oportunidade de acederem aos tais lugares no privado onde podem ganhar muito mais...
Mas depois o Mau da fita é o Fisco...
Despeço-me com os melhores cumprimentos.
 
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