Quando nasceu, há 10 anos, o Bloco de Esquerda prometeu desbloquear a esquerda portuguesa. Não era apenas um jogo de palavras. Portugal tinha o partido comunista mais ortodoxo da Europa e, graças ao PREC, o Partido Socialista mais anticomunista da Europa. E, no meio, um enorme vazio. Mesmo que alguns, fora e dentro do Bloco, julgassem que estavam a assistir ao renascimento da extrema-esquerda, os principais dirigentes do BE sabiam que era esse espaço que teria de ser ocupado.
Como todos os partidos, o Bloco tem voto convicto e voto de protesto. Mas tem também, mais do que qualquer um, voto de expectativa depois da desilusão com os outros. E é com esses eleitores que o BE tem mantido uma relação ambígua. A maioria deles espera, um dia, ver o BE no poder. Saberá que, por razões evidentes, isso não acontecerá com Sócrates. Mas acredita que ao dar peso ao BE ele virá a ser um parceiro incontornável e determinará o próprio comportamento do Partido Socialista. O problema é que os principais dirigentes do Bloco ainda não disseram se estão ou não interessados no poder. Assim como não disseram se se vêem a si próprios como uma alternativa programática ao PS ou como alternativa ao PCP na defesa do património comunista. As duas escolhas são legítimas, as duas têm perigos, mas qualquer uma delas tem de ser clara.
Alguns sinais, apesar do crescimento à custa de um eleitorado moderado vindo do PS, apontam para a segunda possibilidade. Com mais peso eleitoral, o Bloco parece ser hoje um partido menos plural, mais ideológico, mais concentrado na figura do seu líder, com maior peso político do seu aparelho e mais parecido com o PCP do que era há dez anos. Alguns destes pecados eram inevitáveis. Outros não. Mas o Bloco está longe de ser monolítico. E nele não falta quem não tenha esta escolha como fechada.
Ao contrário do PCP, o Bloco não foi forjado na disciplina do centralismo 'democrático'. O seu crescimento eleitoral obrigará a escolhas difíceis e internamente dolorosas. Saberemos então se o Bloco desbloqueou realmente a esquerda e é um espaço onde socialistas desencantados se podem vir a sentir bem ou se mudou tudo para tudo ficar na mesma. Depois da alegria da vitória, virão tempos difíceis. Apenas uma coisa é certa: a nebulosa de uma escolha por fazer não poderá durar muito mais tempo. Porque nenhum partido com o peso que se espera que o Bloco venha a ter pode viver de mal-entendidos.
As bestas
Setenta e três eritreus morreram de fome e de sede nas águas do Mediterrâneo enquanto tentavam chegar a Itália. Sobre esta tragédia, escreveu-se no "Avvenire", diário da Conferência Episcopal italiana: "Quando hoje lemos sobre as deportações dos judeus sob o nazismo perguntamo-nos: seguramente as populações não sabiam. Mas estes comboios cheios, as vozes, os gritos nas estações, ninguém os via nem ouvia? Na época era o totalitarismo e o terror que faziam fechar os olhos. Hoje não. É uma indiferença tranquila, resignada". Não se comoveu a Itália profunda. Os cinco sobreviventes poderão vir a ser julgados por imigração ilegal. A bestialização do outro começa sempre pelos estrangeiros. Mas quando for tarde de mais, o silêncio e a indiferença já terão feito o seu trabalho. Quem virá depois?
Daniel Oliveira