No voo da Pamir Airways que saiu atrasado do aeroporto de Cabul, seguiam mais três ocidentais para Herat. No terraço que dá para a pista, enquanto esperávamos pela chamada do avião, conversei um pouco com um deles. Scott é um sueco que viveu e estudou na Califórnia, onde aprendeu a falar farsi, a língua do Irão, muito semelhante ao dari, a língua oficial afegã. Scott ia passar duas semanas a Herat, para apalpar terreno e, como ele disse, "fazer amigos". Trabalha para uma empresa que escreve relatórios actualizados sobre segurança e que tem como clientes as organizações não-governamentais presentes no país. "A situação em Herat está a deteriorar-se rapidamente, toda a faixa este da província até ao norte tem grupos de insurgentes, não necessariamente talibãs, a actuar."
Na sala de embarque, duas mulheres loiras liam a New Yorker, de cabeças cobertas com chadors de tecidos requintados. Uma delas, vestida de preto, comentou comigo à entrada do avião: "Tem sorte em não precisar de usar um lenço". Descobri, nesse momento, que se tratava de uma jornalista do Los Angeles Times e, tal como eu, ia passar apenas uma noite em Herat para escrever uma reportagem para o jornal dela.
Durante a viagem, sentei-me ao lado de um capitão do exército afegão e do seu assistente pessoal. Sem saber uma palavra de inglês, o oficial apadrinhou-me desde o momento em que entrei no aeroporto, facilitando-me a passagem no controlo das malas e oferecendo-me amavelmente um isqueiro depois de os seguranças terem retido o meu quando me revistaram. Da janela do avião, as montanhas despidas de Ghor deram lugar às estepes que rodeiam Herat, a capital que dá nome à província.
Perdi os meus companheiros de viagem mal desembarquei no descampado ventoso do pequeno aeroporto. Alim, o motorista da agência das Nações Unidas que se dedica ao crime e à droga, a UNODC, estava à minha espera num todo-o-terreno branco para me levar a um hotel, antes de seguir para as entrevistas que eu planeara fazer para a edição impressa do Expresso sobre o cultivo da papoila do ópio e os agricultores que deixaram de a produzir, dedicando-se a culturas alternativas.
Só depois soube que cheguei a Herat num momento de viragem, quando Wazid Fayeed, o funcionário sénior afegão da UNODC na província, me pôs ao corrente das últimas informações. Ontem, começaram os combates com os talibãs no distrito mais a sul da província, Shandand, onde ainda há campos de papoila activos. Os combates prosseguiam hoje, contra as tropas afegãs que foram enviadas de Herat para conter a escalada dos rebeldes e impedir que eles se aproximem demasiado da cidade.
Wazid apontou para o mapa da província, com os seus 15 distritos (numa área total equivalente a pouco mais de metade de Portugal), e explicou-me que em sete deles a situação se tornou instável, não só por causa dos talibãs, mas também devido às incursões de outros movimentos de insurgentes. A cidade está praticamente sitiada, por não haver saídas seguras por terra, a não ser por Ghoryan, que liga à cidade fronteirça de Islam Qala, por onde entram todas as importações vindas do Irão. A viagem de carro que íamos fazer ao interior da província, para visitar campos de cultivo, foi subitamente desautorizada pela sede da UNODC em Cabul.
O ex-presidente de câmara que faz raptos
Até dentro da cidade de Herat a segurança deixou, na prática, de estar garantida, apesar da presença da polícia e das forças internacionais da NATO. Há um grupo a fazer constantes raides na estrada de oito quilómetros que liga o aeroporto ao centro. O grupo actua a partir da aldeia de Siyasham, nos arredores a norte, e é liderado por Ghulam Yahya, um senhor da guerra que, ironicamente, foi presidente da câmara de Herat até 2004, no mesmo período em que o seu protector e também senhor da guerra Ismael Khan era o governador da província.
"Os homens de Ghulam já atiram vários rockets contra o nosso compound das Nações Unidas", diz Wazid, que se ri da situação, talvez pelo facto de ainda não terem acertado em cheio nas instalações. "Também andam a bloquear a estrada e fazer raptos de passageiros que vêm do aeroporto, como aconteceu com uns japoneses há poucos dias".
Para mim tudo isto foi uma novidade. Em Cabul, a indicação que eu tinha de várias fontes era de que Herat ainda se conservava como uma zona relativamente calma. Além de mudar rapidamente, o cenário é confuso porque os vários movimentos de insurgentes parecem ter motivações diversas e não está provado que funcionem com uma organização coordenada. No distrito de Chashte Sharif, que liga com as províncias de Badghis e Ghor, Mullah Mustafa, um ex-comandante mujahidin (não talibã, portanto), também faz assaltos com as suas tropas privadas, rebelando-se contra o governo de Hamid Karzai e saqueando ricos e estrangeiros.
Herat foi durante séculos uma cidade-estado que enriqueceu por ser um dos entrepostos principais da rota da seda. Uma espécie de oásis na imensidão das estepes que continuam pelo Turquemenistão adentro, as suas ruas estão cheias de pinheiros e está em muito melhor estado do que Cabul. É um sítio agradável e tem o núcleo urbano histórico menos destruído de todo o Afeganistão, com o velho bazar do tempo do rei Shah Rukh e a célebre Mesquita de Sexta-feira, construída há 800 anos e que ainda é hoje um dos maiores edifícios de arquitectura islâmica do mundo. Infelizmente, não vim na melhor altura para fazer turismo.