Estamos a assistir em directo ao aumento da influência de Berlim e de Moscovo no processo de decisão europeu. O primeiro ponto tem sido notado, mas é a sua conjugação com o segundo que torna os actuais acontecimentos verdadeiramente significativos do ponto de vista histórico.
A crise de confiança dos mercados financeiros internacionais na Grécia representa uma ameaça à credibilidade e à ambição económica e política da zona euro. Para complicar mais as coisas, Atenas precisa de levantar este ano nos mercados internacionais cinquenta e três biliões de euros. Trinta e três terão de ser levantados até Junho.
Com os financiadores a correrem para a porta e com dúvidas sobre a saúde financeira de uma série de países europeus, na terça-feira a resposta da Alemanha e dos seus aliados em Bruxelas foi brutal.
Atenas tem 30 dias para mostrar que vai mesmo tomar medidas para reduzir o défice orçamental de 12,7% em quatro pontos até ao final do ano. Em 2012, o défice grego tem de estar nos 3%. Se até 16 de Março as medidas do Governo grego não forem consideradas credíveis, a União Europeia exigirá outras que suspenderão de facto a soberania fiscal do país.
Como, em Abril, Atenas tem de recorrer aos mercados internacionais, a ameaça que foi feita esta semana parece fazer sentido.
Mas será razoável esperar que Atenas faça num mês o que nunca foi capaz de fazer desde a sua independência, em 1832? Um olhar para o que se tem vindo a passar nas ruas gregas diz-nos que Atenas terá enorme dificuldade em se transformar numa austera Esparta.
Como ficamos? Numa situação em que será a Alemanha a ter a palavra decisiva em todos os cenários.
A sociedade alemã nem quer ouvir falar no salvamento da Grécia. As medidas anunciadas esta semana em Bruxelas destinam-se a acalmar o eleitorado alemão, a tornar claras as regras internas da união monetária, a fazer suar os decisores gregos e a avisar outros países fiscalmente irresponsáveis. Ninguém em Atenas, Bruxelas e Berlim quer passar pela humilhação de chamar o Fundo Monetário Internacional.
Os decisores alemães, todavia, sabem que o colapso de Atenas abriria uma caixa de Pandora sobre a credibilidade e influência internacional da zona euro e para a sua política externa. Para evitar este cenário, Berlim teria de apoiar a transformação da união monetária numa união política em que ditaria as regras económico-financeiras no Velho Continente. De uma forma ou de outra, Berlim estará sempre com as mãos no volante político e financeiro da União Europeia.
Mais a leste, Moscovo publicou a sua nova doutrina militar. A NATO é vista como um perigoso inimigo geopolítico. A vitória de Viktor Yanukovych nas presidenciais ucranianas mostra que Kiev dá sinais de regresso à esfera de influência de Moscovo. O Kremlin sabe que a partir de 2020 irá ter problemas internos muito complicados pela frente. Até lá, o grande objectivo é consolidar a sua influência na região que vai dos países bálticos e da Polónia até ao Mar Negro.
O aumento da influência de Berlim e de Moscovo está a deixar as capitais dos países da Europa de Leste extremamente apreensivas. Os tempos mudaram, mas é evidente que nestas capitais a história não foi abolida como no resto da Europa atlântica. Ali teme-se Moscovo e a sua convergência de interesses com Berlim.
Para onde é que estes países se vão virar então? A resposta é para Washington. Nas últimas semanas, a Polónia, a Roménia e a Bulgária disseram que querem componentes do sistema de defesa antimíssil da Administração Obama nos seus territórios.
A União Europeia chegou a uma encruzilhada histórica importante.
Credibilidade
11 anos depois da sua criação, a zona euro está com um problema de credibilidade. Moscovo quer aumentar a sua influência na Ucrânia e Europa de Leste. Berlim e Moscovo mostram que a Europa chegou a uma encruzilhada histórica
Altos e baixos
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Miguel Monjardino
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010