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A dúvida

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:01 Quinta feira, 17 de dezembro de 2009

Seria necessário imaginar uma cabala sem precedentes para explicar porque quase toda a comunidade científica que estuda o fenómeno entrega a sua credibilidade à tese da influência humana no aquecimento global. Perante isto, a estratégia negacionista passa por instalar a dúvida. E a dúvida faz todo o sentido em relação a qualquer tese científica. Só há um pequeno problema: a dúvida, neste caso, tem a perna demasiado curta e não podemos esperar para ver. Só nos calhou este planeta em sorte. Não teremos outro para corrigir os nossos erros.

No entanto, a dúvida funciona aqui como uma extraordinária eficácia. O que temos de fazer implica um esforço descomunal. Mudar estilos de vida, mudar de formas de produção, perder dinheiro. E se isto não for verdade? Na dúvida, talvez seja melhor não fazer nada. Tentador, não é?

Claro que entre os negacionistas haverá de tudo. Desde os que acreditam genuinamente que estamos perante a patranha do século até aos que olham para a bolsa e acham que o planeta pode esperar pela sua vez. Mas estou convencido que o que move a maioria, como tantas vezes acontece na resistência às evidências científicas, é a ideologia. A ideia de que o mercado, acima de todas as outras coisas, comanda a vida. Que tudo - as pessoas, o tempo, a cultura - é um bem consumível. E se assim é com tudo seria uma maçada se assim não fosse com o primeiro de todos os bens: o planeta. Não são apenas as consequências económicas e políticas que os preocupam. São as consequências morais e filosóficas. E se antes de vender e comprar, de consumir e gastar, fossemos mesmo obrigados a cuidar?

Os cobardes

A história do Sara Ocidental tem muitas semelhanças com a de Timor: as responsabilidades do ex-colonizador, a pobreza do território ao lado do gigante que o ocupou, o não reconhecimento internacional da ocupação, a tentativa de colonização populacional por parte do ocupante, a resistência pacífica do ocupado. Há talvez uma diferença: a causa sarauí tem entre os seus rostos uma mulher extraordinária.

No momento em que escrevo Aminatu Haidar ainda está viva. E ainda está em greve de fome. Num parque de estacionamento de um aeroporto, na ilha de Lanzarote. A Europa vive um dilema: ou deixa morrer no seu solo uma resistente repetidamente premiada ou aborrece o Rei Mohammed VI. Até agora, escolheu o silêncio. Pior. O Governo espanhol tem-se comportado como um diligente delegado da ditadura marroquina. Do resto da Europa, Governo português incluído, a cobardia do costume. E, no entanto, as exigências de Aminatu Haidar não são muitas: regressar ao seu país, à sua casa e aos seus filhos. Coisa que Marrocos, com a ajuda activa de Espanha, tem impedido.

Quando Marrocos fez saber que Aminatu só poderia regressar se pedisse desculpas ao monarca absoluto de Marrocos, o seu filho mais novo, de 13 anos, não teve dúvidas: "a minha mãe nunca vai voltar a casa porque nunca vai pedir perdão ao Rei". O que a sua mãe disse pode parecer brutal para nós, que nunca tivemos sobre os ombros o futuro de um povo: "podem viver sem mãe, mas não sem dignidade". Ao ver esta mulher morrer num parque de estacionamento de um aeroporto europeu só podemos sentir vergonha. E um desprezo enorme pelos cobardes que nos governam. Tivessem eles uma ínfima parte da coragem de Aminatu Haidar e talvez os europeus ainda sentissem que há políticos em quem vale a pena a acreditar.

Daniel Oliveira

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009

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Algumas notas
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 12:21 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
Notas à margem:
- Não existem tais ´coisas` como evidências científicas.
- Nos tempos que correm não se diz «não comprem, não consumam, não gastem…» mas antes se apresenta um produto mais ´competitivo`...
- A obrigação (cuidar) que o articulista quer ditar implica uma transformação prévia da economia mundial.
- A dramatização da história de Aminatu só enfraquece a sua causa. Depois, o articulista espera convencer o leitor que a corajosa e combativa contestatária apenas pretende «regressar ao seu país, à sua casa e aos seus filhos»

@AnitiFar (twitter.com/AntiFar)
 
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O planeta está-se nas tintas!
impertinente (seguir utilizador), 1 ponto , 20:43 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
Não tenho formação científica mas tenho informação bastante para alertar para a manifesta (mas demasiado frequente) desfocagem da questão em que incorre D. Oliveira. Por 2 vezes fala expressamente no planeta (obviamente o nosso) como se ele não pudesse esperar e fosse consumível. É uma ideia muito difundida - "salvemos a Terra".
É óbvio que isto não convence ninguém a mudar nada. E com boas razões. Todos os cientistas nos dizem, nomeadamente os geólogos, que o planeta se "está nas tintas" para o que nós fizermos. Ele continuará a orbitar durante mais muitos milhões de anos por maior que seja o aquecimento global ou o aumento do efeito de estufa, ou a densidade de CO2 ou...O planeta como tal não está em perigo, e já passou, dizem-nos, por coisas piores.
O que está em perigo, isso sim, é a espécie humana, a vida humana neste planeta. Essa é que está a mais ou menos curto prazo ameaçada de extinção. São milhares, dizem-nos biólogos, zoólogos e outros cientistas, as espécies animais que, tendo povoado boa parte da Terra, deixaram de existir em virtude de alterações do meio, nomeadamente climáticas. Ora nós somos animais da terra e é a vida da nossa espécie que está ameaçada. O planeta continuará a girar com uma espécie a menos - a nossa.
  Em vez de se apelar à salvação do planeta ( que não tem sentido nenhum) temos é de apelar explicitamente à salvação da vida humana na terra, para já os nossos descendentes próximos. Esse apelo será não só verdadeiro como mais mobilizador.
 
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Check
MiguelCM (seguir utilizador), 1 ponto , 13:58 | Sexta feira, 18 de dezembro de 2009
Três coisas simples:

1. Perante a Ciência e neste caso, perante o aquecimento global, não se trata de acreditar, ter fé ou não. Trata-se sim de confirmar os estudos e resultados a que a comunidade científica chegou e, posteriormente, formar uma opinião.

2.Aconselho todos os interessados nesta questão a pesquisar pela expressão "Climategate".

3.Aconselho ainda, e uma vez mais, todos os interessados a pesquisar por um senhor chamado Lord Christopher Monckton.

A Ciência, ainda que exacta, é também manipulável e é por isso que devemos ver os estudos, confirmar os resultados e factos e não simplesmente acreditar e ter fé como se o Ambientalismo de uma religião se tratasse, algo que para alguns parece ser verdade.
 
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Dúvida Metódica
Manolo Heredia (seguir utilizador), 1 ponto , 14:24 | Sexta feira, 18 de dezembro de 2009
Durante muitos anos muita gente acreditava quase cegamente em tudo o que os cientistas diziam, porque consideravam os cientistas imbuídos do primado da razão, segundo o qual não seria impossível ter duas interpretações diferentes para o mesmo fenómeno natural.
Hoje, essas pessoas constatam, perplexas, que, relativamente a verdades que pareciam inquestionáveis, há cientistas que defendem o oposto: Que não houve holocausto, que a gripe A é inofensiva, que o aquecimento global não se deve à produção massiva de CO2, que nem sequer existe aquecimento global pois os dados científicos que suportam essa afirmação foram falsificados.
Por detrás de cada uma destas contradições giram grandes negócios: As indemnizações chorudas ao estado de Israel, o Tamiflu, os equipamentos para diminuir a produção de CO2 e a criação de justificações para implementação de medidas comerciais e financeiras que prejudicam os países em vias de desenvolvimento e favorecem os países que já se desenvolveram num contexto de produção descontrolada de lixo prejudicial ao planeta.
Deixemo-nos de hipocrisias. Quem está do lado de cá, dos países do 1º mundo, que alinhe com as interpretações que mais lhe convêm, quem está no outro lado da barricada que faça o mesmo. Guerra é guerra. Quem ganhar que sobreviva. É assim a Mãe Natureza.
 
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A ciência, a cobardia e a ignorância
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 15:16 | Segunda feira, 21 de dezembro de 2009
Devia ser do conhecimento do comum dos mortais, que quando existe um alargado consenso entre os cientistas, é que a coisa já passou para além do grave. O chamado Climagate é uma lamentável historieta, que tenta desacreditar cientistas com base na sua personalidade (afinal utilizam palavrões e congratulam-se até com a morte de um cientista negacionista) e manipulando supostos conceitos como o tão propalado truque que aparece na correspondência dos cientistas. Nestes tempos de informação global, toda a gente opina sobre tudo, sem se dar ao trabalho de estudar. E dá nisto. O desplante de imaginar um conluio global entre a comunidade científica sobre as alterações climáticas. A velha teoria da conspiração que com a internet ganhou foros de ciência global. Ignorânia, cobardia a coberto do anonimato e uma indigência intelectual de meter dó. E cobardia foi o que mostrou a Europa no caso de Haminatu. Falta de princípios e de valores e uma confrangedora cobardia política. É por estas e por outras que a superioridade moral do Ocidente abre cada vez mais brechas. E os comentários que aqui vi são indignos de pessoas por quem muitos morreram para se puderem expressar.
 
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