Seria necessário imaginar uma cabala sem precedentes para explicar porque quase toda a comunidade científica que estuda o fenómeno entrega a sua credibilidade à tese da influência humana no aquecimento global. Perante isto, a estratégia negacionista passa por instalar a dúvida. E a dúvida faz todo o sentido em relação a qualquer tese científica. Só há um pequeno problema: a dúvida, neste caso, tem a perna demasiado curta e não podemos esperar para ver. Só nos calhou este planeta em sorte. Não teremos outro para corrigir os nossos erros.
No entanto, a dúvida funciona aqui como uma extraordinária eficácia. O que temos de fazer implica um esforço descomunal. Mudar estilos de vida, mudar de formas de produção, perder dinheiro. E se isto não for verdade? Na dúvida, talvez seja melhor não fazer nada. Tentador, não é?
Claro que entre os negacionistas haverá de tudo. Desde os que acreditam genuinamente que estamos perante a patranha do século até aos que olham para a bolsa e acham que o planeta pode esperar pela sua vez. Mas estou convencido que o que move a maioria, como tantas vezes acontece na resistência às evidências científicas, é a ideologia. A ideia de que o mercado, acima de todas as outras coisas, comanda a vida. Que tudo - as pessoas, o tempo, a cultura - é um bem consumível. E se assim é com tudo seria uma maçada se assim não fosse com o primeiro de todos os bens: o planeta. Não são apenas as consequências económicas e políticas que os preocupam. São as consequências morais e filosóficas. E se antes de vender e comprar, de consumir e gastar, fossemos mesmo obrigados a cuidar?
Os cobardes
A história do Sara Ocidental tem muitas semelhanças com a de Timor: as responsabilidades do ex-colonizador, a pobreza do território ao lado do gigante que o ocupou, o não reconhecimento internacional da ocupação, a tentativa de colonização populacional por parte do ocupante, a resistência pacífica do ocupado. Há talvez uma diferença: a causa sarauí tem entre os seus rostos uma mulher extraordinária.
No momento em que escrevo Aminatu Haidar ainda está viva. E ainda está em greve de fome. Num parque de estacionamento de um aeroporto, na ilha de Lanzarote. A Europa vive um dilema: ou deixa morrer no seu solo uma resistente repetidamente premiada ou aborrece o Rei Mohammed VI. Até agora, escolheu o silêncio. Pior. O Governo espanhol tem-se comportado como um diligente delegado da ditadura marroquina. Do resto da Europa, Governo português incluído, a cobardia do costume. E, no entanto, as exigências de Aminatu Haidar não são muitas: regressar ao seu país, à sua casa e aos seus filhos. Coisa que Marrocos, com a ajuda activa de Espanha, tem impedido.
Quando Marrocos fez saber que Aminatu só poderia regressar se pedisse desculpas ao monarca absoluto de Marrocos, o seu filho mais novo, de 13 anos, não teve dúvidas: "a minha mãe nunca vai voltar a casa porque nunca vai pedir perdão ao Rei". O que a sua mãe disse pode parecer brutal para nós, que nunca tivemos sobre os ombros o futuro de um povo: "podem viver sem mãe, mas não sem dignidade". Ao ver esta mulher morrer num parque de estacionamento de um aeroporto europeu só podemos sentir vergonha. E um desprezo enorme pelos cobardes que nos governam. Tivessem eles uma ínfima parte da coragem de Aminatu Haidar e talvez os europeus ainda sentissem que há políticos em quem vale a pena a acreditar.
Daniel Oliveira
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009