Meus amigos, temos uma direita muito sexual. A nossa direita vive da alcova e para a alcova. A direita portuguesa só é mesmo de 'direita' quando a conversa mete 'cama'. Nas grandes questões económicas (ex.: código laboral), PSD e CDS não têm coragem para rasgar com a lengalenga socialista. PSD e CDS só marcam uma ruptura em relação ao PS nas 'causas da cama' (casamento gay, aborto). Estas 'causas da cama' costumam ser vistas como bandeiras da esquerda-caviar que alimenta o BE e o PS. Lamento, mas tenho de discordar. Para serem de esquerda, o BE e o PS não precisam destas causas fracturantes. PS e BE constituem a versão 'legal' e 'ilegal' do socialismo. Mesmo sem causas fracturantes, a normalidade do PS e BE já é uma overdose esquerdista. Ao invés, o PSD e o CDS precisam das 'causas da cama' para serem de direita. Porque a nossa direita só existe nestes regateios de alcova. No resto, que é o essencial, o PSD e o CDS são cópias do PS. Meus amigos, as 'causas da cama' são bandeiras da direita, não da esquerda.
Há dias, uma bela balzaquiana do PSD dizia que o casamento só pode existir "entre um homem e uma mulher". Com este argumento, a deputada laranja estava a marcar uma legítima posição de ruptura perante o PS. O problema, meus amigos, é que esta ruptura com os dogmas socialistas nunca acontece nos assuntos realmente importantes. Há um ano, um deputado do PSD afirmou que o código laboral de Vieira da Silva era "neoliberal". Ora, mesmo com as mudanças de Vieira da Silva, o nosso código laboral continua a ser o mais esquerdista de toda a OCDE. Como é que o PSD pode dizer que o código laboral mais rígido do mundo civilizado é um código "neoliberal"? Bom, existem duas hipóteses de resposta. Primeira: o PSD é incapaz de sair do complexo de inferioridade ideológico, esse quarto dos fundos onde o PS colocou a direita. Segunda: os líderes do PSD são mesmo socialistas (hipótese que não devemos desprezar).
Seja como for, uma coisa é certa: a nossa direita só age com convicção quando o assunto é a moral que rege o interior das quatro paredes. Para lá das quatro paredes, já no espaço da 'coisa pública', o PSD e CDS não se distinguem do PS. E, assim, a direita partidária acaba por ser uma espécie de anexo incompetente da Igreja Católica. Em 2010, devido à inoperância de PSD e CDS, a Igreja é a líder da direita portuguesa. O que é triste. A direita não se importa de viver num Estado e numa economia de esquerda, desde que as pessoas continuem a fazer amor de luz apagada.
Europa
The Monopoly of Violence" (Faber and Faber) é a história de uma ninfomaníaca que se transforma numa freira. Passo a explicar este estranho enredo. James Sheehan conta aqui a história da relação da Europa com a guerra. Em 1900, as nações europeias tinham um ethos guerreiro. Coisa normal, diga-se: os Estados europeus foram feitos pela guerra, e os europeus conquistaram o mundo através da guerra. Porém, cem anos depois, descobrimos que a Europa é o único actor político que 'ilegalizou' a guerra. Não há memória de tamanha mudança de personalidade: a Europa de 1900, a ninfomaníaca belicista, deu lugar à Europa de 2000, a freira pacifista.
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010