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A degradação

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
8:00 Segunda-feira, 23 de Nov de 2009
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Cada vez que surge uma investigação sobre corrupção não falta quem esteja disposto a trocar o rigor por facilidades. Por mim, só estou disponível para debater regras claras, previsíveis e eficazes.

Primeira: levantamento do sigilo bancário. Não deixa de ser extraordinário que sejam os mesmos que tão facilmente aceitam a banalização de escutas telefónicas a mostrar tanto amor ao segredo das contas. Talvez porque o dinheiro nos diga muito mais sobre quem realmente manda neste país.

Segunda: acabar com a distinção absurda entre corrupção para acto lícito e para acto ilícito. Tudo o que resulta da compra de favores ao Estado é ilícito.

Terceira: criminalização do enriquecimento ilícito. A indignação com a possibilidade da inversão do ónus da prova é sonsa. Não é o que acontece quando somos obrigados a explicar ao fisco de onde vêm os nossos rendimentos? Quarta: mudança das formas de financiamento das autarquias, que são um autêntico convite à corrupção e à promiscuidade.

Mas este debate é um rodapé no que tem dominado todas as conversas. E sem se conhecer sequer em rigor o conteúdo das escutas de que todos falam está feita a condenação. Não nos enganemos: esta repetitiva novela de escutas e fugas de informação é um sinal de uma degradação geral de todas as instituições fundamentais para a democracia.

Degradação da Justiça, antes de mais. Incapaz de levar as suas investigações até ao fim, sobretudo quando elas envolvem pessoas com algum poder, os julgamentos formais são substituídos pela divulgação cirúrgica de conteúdos seleccionados dos processos e, mais grave, de escutas telefónicas em relação às quais todos os cuidados deveriam ser poucos. O julgamento que conta faz-se nos jornais, sem direito a defesa.

O dos tribunais acaba invariavelmente em nada. É a mesma Justiça que condenou Névoa ao pagamento de uns míseros cinco mil euros por corrupção quando tinha todas as provas necessárias que espalha a suspeita na imprensa quando as provas faltam. É activa no que não lhe compete e temerosa no uso dos seus reais poderes.

Degradação do jornalismo. Em vez de fazerem investigações próprias ou investigarem a informação que recebem, muitos jornalistas passaram a ser meros receptáculos de denúncias e informação parcelar sobre processos judiciais. Não controlam a torrente de informação que recebem e que divulgam sem qualquer filtro. Em vez de tornarem transparentes os mecanismos do poder, participam na criação de cortinas de fumo em que as faces de poderosos se ocultam.

Degradação do debate político. Atingimos esta semana o mais alto nível de desemprego da nossa história recente e este foi um assunto lateral no Parlamento e na imprensa. Mesmo em relação à corrupção, a sucessão de casos sem consequências substitui o debate sobre as suas causas profundas e os remédios necessários. Aumenta a sensação de impotência e a desconfiança difusa, sem que no entanto se consiga tirar de cada episódio nenhuma lição.

Se José Sócrates está envolvido em algum ilícito terá de vir a ser investigado, julgado e, se for o caso, condenado. Se alguma coisa ficar politicamente evidente através de provas legítimas, deverá demitir-se. Aquilo a que eu, como cidadão, não estou disposto a ceder é à facilidade populista e à destruição de todas as garantias democráticas. Nenhum primeiro-ministro, por pior que seja, justifica tamanha irresponsabilidade.

Daniel Oliveira

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009

 

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regras, claras, previsíveis e ineficazes
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:46 | Segunda-feira, 23 de Nov de 2009
Se como afirma, tem disponibilidade (de tempo) para discutir, porque não aproveita para verificar como as "coisas" realmente funcionam?

1- Sigilo bancário - Ouviu-o na SICN, dar o exemplo da Espanha, perante a observação que iria afectar o sistema financeiro (bancário).

  a) Em Espanha, é normal "alguns" empresários ( espanhóis e chineses) proporem a compra de notas altas do Euro. Pelas de 500, pagam entre 1,5 a 2%. Porque será?

A corrupção em Espanha está bem e recomenda-se. Pela "sua" teoria bastava dar uma espreitadela no saldo bancário.

O efeito seria, que até ao nível do pequeno biscateiro, que sem factura ganha "algum", se deixava de usar a Banca.

No fim, considerar que com o acesso às contas, se fica a saber quem manda no País, é ingenuidade p'ra caramba.

Tudo o resto concordo e está incluído no politicamente correcto.

Não aqui, mas na SICN, declarou que quem paga sempre são os trabalhadores por conta de outrem dando a entender que as empresas choram sem razão.

Pergunto: Quem paga aos trabalhadores por conta de outrem?

Pergunto: O Grupo Impresa teve prejuízos, será que tocaram no seu sacrossanto salário? Será que têm os Impostos em dia? Será que não farão "engenharias financeiras" ( a um certo nível é o nome da fuga aos impostos), para pagar menos? Quando pagam.

Ou como sucedeu em PME, que para cumprir o Fisco não se pagaram salários. Já pensou que isso lhe pode suceder?

Você precisa de mais "prática" de vida.

cumprimentos

  ...
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O caso do senhor Névoa "padrinho" de Braga
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 1:51 | Terça-feira, 24 de Nov de 2009
Volto a si não para o chatear, mas chamar a atenção de um facto curioso.

Segundo li, o tal Névoa não demonstrou qualquer dificuldade, em arranjar dinheiro para o "pagamento".

  Bastaria esperar uns dias e com os pagamentos nos parques de estacionamento dos que não exigem recibo ( a maioria) resolvia-se o assunto.

Num caso tão mediático era normal que alguém nas Finanças agisse, porém, as máquinas para pagamento, continuam a perguntar: se quiser recibo carregue no botão

Para Serviços, tão rápidos a agir na perseguição dos tenebrosos e mortos de fome, pequenos delinquentes fiscais. Não seria fácil determinar que as máquinas fornecessem "sempre" o recibo?

Isso tornaria mais difícil ao sr. Névoa arranjar dinheiro para os esquemas. Ou será precisamente por isso que tudo continua na mesma?

PS. Nos vários países da Europa que conheço, as máquinas de pagamento dos parques de estacionamento emitem "sempre" o recibo.

Tão ingénuos que nós somos...
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acto lícito e acto ilícito
Luis Manuel Dias (seguir utilizador), 1 ponto , 11:19 | Terça-feira, 24 de Nov de 2009
Oh Daniel, evite embaraçar-se de uma maneira tão idiota como esta de exigir a "distinção absurda entre corrupção para acto lícito e acto ilícito.

APRENDA os termos da lei. A distinção não tem NADA a ver se a corrupção é "lícita" ou não, mas sim se o acto desejado (e comprado) pela corrupção é "lícito" ou "ilícito".

DOU EXEMPLO:

1. Imagine que você já sabe que um licenciamento que mandou para a câmara licenciar vai ser aprovado porque está conforme todas as leis. Mas não está para esperar 6 meses. Então suborna alguém para colocar o seu licenciamento no primeiro lugar da fila de espera, e assim aprovar mais rapidamente o seu licenciamento.

O licenciamento é legítimo, LÍCITO. Percebe?

2. Imagine que você sabe que um licenciamento que mandou para a câmara licenciar NÃO VAI SER aprovado. Então suborna alguém para o aprovar.

O licenciamento é ilegítimo, ILÍCITO, Percebe?

Aprenda a lei antes de dizer barbaridades. A distinção é útil do ponto de vista da investigação e do processo judicial. E como é óbvio, a primeira é menos onerosa para todos nós (embora ainda o seja) do que a segunda.

Que raios estes "pundits" de terceira a mandar vir com aquilo que desconhecem totalmente. Irra! Haja pachorra! E depois queixam-se dos nossos governantes! Têm os que merecem!
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estatutos especiais
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 15:20 | Terça-feira, 24 de Nov de 2009
Sim, mas tudo isso que o articulista apresenta são medidas e conclusões a jusante do problema, das causas do problema. A saber, "o sistema corporativo" do regime democrático "à portuguesa". Sistema corporativo, que concentra muito poder em poucas organizações, obrigando outros parceiros sociais a “fintá-lo” de qualquer maneira; “democracia à portuguesa” que permite ascensões meteóricas de lideres formados meramente nas escolas partidárias, que forma maiorias representativas absolutas com 30% da população votante. Uma “democracia à portuguesa” em que altos protagonistas do Estado não estão nos seus cargos para servir o bem comum, mas sim para se pensarem senhores de estatutos especiais, quais monarcas intocáveis vivendo para a fama, a glória e as mordomias que julgam ser suas prerrogativas naturais!
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