Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais
A década, pois. Tenho de fazer o balanço. Mais logo. Agora tenho de verificar se as reservas estão ok e fazer um print. Não preciso. Está tudo em G-mail. Faço o check-in online e faço o print do cartão de embarque. Chega. O passaporte é electrónico, por causa da alfândega americana. Uma consequência do 11 de Setembro. A propósito, convém não levar aquelas botas compensadas para o aeroporto, a segurança manda descalçar. Mais uma consequência do 11/9. E a mala? Se for de cabine, nada de tesourinhas ou limas, e tenho de arranjar frasquinhos e enfiá-los numa saqueta. E a roupa? Vou checar (checar? Isto é Acordo Ortográfico, que é o ciberportuguês), dizia eu, checar (isto é acima de tudo um americanismo, o anglicismo morreu), checar o tempo no Weather Underground ou na CNN. Fiz o print da factura? Isto dos prints é obsoleto. Agora tenho duas licitações finais no Ebay e tenho de me despachar. Uma das coisas vem da Austrália, ver o fuso horário. E quanto é um dólar australiano? Abro o XE Currency Converter, o euro aguenta-se, finalmente pertenço ao clube da moeda forte. A Europa. O tempo vai estar tempestuoso. Odeio aviões em tempestades. E parece que um avião se partiu ao meio por causa da chuva. Chuva na Jamaica? Vai uma pessoa para a Jamaica para apanhar sol. Vou ver ao YouTube o que aconteceu. O pior é que abro o Youtube e fico por lá. O tempo corre. E tenho ainda de comprar uns presentes de Natal e ir ao supermercado. Abro a Amazon, os livros devem estar a chegar. A Amazon não falha. E fartei-me de comprar presentes, embora o site UK nunca seja tão bom como o USA. Montes de promoções. O Nordstrom e outra loja em Seattle têm umas ofertas incríveis, tenho de fazer o cálculo. Talvez compense. Ou espero por Janeiro. Se não fossem as taxas alfandegárias comprávamos tudo fora da Europa. Venha daí um Blackberry. Ou o novo Chocolate da LG, mais giro que o iPhone. Esta coisa do i em caixa baixa faz lembrar o ee cummings. Ninguém lê poesia. No Kindle, talvez. É como beber um Nespresso, whatelse? Ah, o supermercado, compro online, escuso de tirar o carro. Poupo o ambiente. Ah, os bilhetes. Fiz o print da reserva? Sem bilhetes não se consegue ver uma ópera, um teatro ou uma exposição. Reserva-se online, no dia vai-se à bilheteira. A única maneira de ver o tecto da Capela Sistina ou a "Última Ceia" do Leonardo em Milão (Dan Brown é o autor mais lido da década, culpa dele) é assim. Ou de comer no Adriá. Toda a gente viaja. As low cost e o Lonely Planet, culpa deles. Que fazem as agências? Os pacotes, claro. Para a Jamaica. Onde chove a potes. Deve ser do clima alterado. Abro o NY Times. Pode estar a perder dinheiro mas ainda é o melhor site de jornal do mundo. A década. Que aconteceu de mais importante esta década? Eles sabem. O 11 de Setembro, as alterações climáticas, Obama, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irão. Etc. Bush e os neocons, como é que se chamava aquele tipo que não tinha dúvidas e nunca se enganava, o accionista do Tamiflu? Rumsfeld. O que andará o Rumsfeld a fazer? O Google sabe. A propósito de Tamiflu, tenho de ver se aquelas acções dos fabricantes de líquidos antibacterianos estão a render. Abro os índices, ok, venha a gripe A e o dinheirinho a ganhar. Qual crash capitalista. E o Bush? O executor de Saddam, a quem Rumsfeld se fartou de apertar a mão noutra década. Deve estar no Google Images. Estamos todos no Google. E no GoogleEarth. Não é só o Rumsfeld. Obama também é uma consequência do Rumsfeld. Foram precisos oito anos de Bush para aqui chegar, ao Presidente Nobel da Web. Tenho de ir ao site da Atlantic, será a New Yorker?, ler o artigo que vinha reproduzido nuns blogues. O das novas guerras e armas de destruição. Maciça? As novas Daisy Cutters. Microondas. Lasers. Drones. Talvez dê para falar disso no balanço da década. O tempo corre. Ainda nem abri o mail e limpei o spam. Tenho de checar o extracto bancário. Já não há pachorra para o mail, nem para blogues. O Twitter. É mais fast. Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais. Coitadas. Com a Wikitude podemos aprender física quântica. E reproduzir o Big Bang, como o LHC. Ou fabricar uma arma de destruição. Maciça. Se inventarem uns robôs canalizadores, o mundo será perfeito na próxima década. Como dizia o Woody Allen, provar a existência de Deus é mais fácil que arranjar um canalizador ao domingo. Tenho de rever este dinossauro no video on demand. A década? Olha, o melhor é dizer que tudo foi uma consequência do 11 de Setembro. Será que dá para ir hoje ver o "Avatar"?
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009