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A década, pois

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 7 de Jan de 2010
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Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais

A década, pois. Tenho de fazer o balanço. Mais logo. Agora tenho de verificar se as reservas estão ok e fazer um print. Não preciso. Está tudo em G-mail. Faço o check-in online e faço o print do cartão de embarque. Chega. O passaporte é electrónico, por causa da alfândega americana. Uma consequência do 11 de Setembro. A propósito, convém não levar aquelas botas compensadas para o aeroporto, a segurança manda descalçar. Mais uma consequência do 11/9. E a mala? Se for de cabine, nada de tesourinhas ou limas, e tenho de arranjar frasquinhos e enfiá-los numa saqueta. E a roupa? Vou checar (checar? Isto é Acordo Ortográfico, que é o ciberportuguês), dizia eu, checar (isto é acima de tudo um americanismo, o anglicismo morreu), checar o tempo no Weather Underground ou na CNN. Fiz o print da factura? Isto dos prints é obsoleto. Agora tenho duas licitações finais no Ebay e tenho de me despachar. Uma das coisas vem da Austrália, ver o fuso horário. E quanto é um dólar australiano? Abro o XE Currency Converter, o euro aguenta-se, finalmente pertenço ao clube da moeda forte. A Europa. O tempo vai estar tempestuoso. Odeio aviões em tempestades. E parece que um avião se partiu ao meio por causa da chuva. Chuva na Jamaica? Vai uma pessoa para a Jamaica para apanhar sol. Vou ver ao YouTube o que aconteceu. O pior é que abro o Youtube e fico por lá. O tempo corre. E tenho ainda de comprar uns presentes de Natal e ir ao supermercado. Abro a Amazon, os livros devem estar a chegar. A Amazon não falha. E fartei-me de comprar presentes, embora o site UK nunca seja tão bom como o USA. Montes de promoções. O Nordstrom e outra loja em Seattle têm umas ofertas incríveis, tenho de fazer o cálculo. Talvez compense. Ou espero por Janeiro. Se não fossem as taxas alfandegárias comprávamos tudo fora da Europa. Venha daí um Blackberry. Ou o novo Chocolate da LG, mais giro que o iPhone. Esta coisa do i em caixa baixa faz lembrar o ee cummings. Ninguém lê poesia. No Kindle, talvez. É como beber um Nespresso, whatelse? Ah, o supermercado, compro online, escuso de tirar o carro. Poupo o ambiente. Ah, os bilhetes. Fiz o print da reserva? Sem bilhetes não se consegue ver uma ópera, um teatro ou uma exposição. Reserva-se online, no dia vai-se à bilheteira. A única maneira de ver o tecto da Capela Sistina ou a "Última Ceia" do Leonardo em Milão (Dan Brown é o autor mais lido da década, culpa dele) é assim. Ou de comer no Adriá. Toda a gente viaja. As low cost e o Lonely Planet, culpa deles. Que fazem as agências? Os pacotes, claro. Para a Jamaica. Onde chove a potes. Deve ser do clima alterado. Abro o NY Times. Pode estar a perder dinheiro mas ainda é o melhor site de jornal do mundo. A década. Que aconteceu de mais importante esta década? Eles sabem. O 11 de Setembro, as alterações climáticas, Obama, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irão. Etc. Bush e os neocons, como é que se chamava aquele tipo que não tinha dúvidas e nunca se enganava, o accionista do Tamiflu? Rumsfeld. O que andará o Rumsfeld a fazer? O Google sabe. A propósito de Tamiflu, tenho de ver se aquelas acções dos fabricantes de líquidos antibacterianos estão a render. Abro os índices, ok, venha a gripe A e o dinheirinho a ganhar. Qual crash capitalista. E o Bush? O executor de Saddam, a quem Rumsfeld se fartou de apertar a mão noutra década. Deve estar no Google Images. Estamos todos no Google. E no GoogleEarth. Não é só o Rumsfeld. Obama também é uma consequência do Rumsfeld. Foram precisos oito anos de Bush para aqui chegar, ao Presidente Nobel da Web. Tenho de ir ao site da Atlantic, será a New Yorker?, ler o artigo que vinha reproduzido nuns blogues. O das novas guerras e armas de destruição. Maciça? As novas Daisy Cutters. Microondas. Lasers. Drones. Talvez dê para falar disso no balanço da década. O tempo corre. Ainda nem abri o mail e limpei o spam. Tenho de checar o extracto bancário. Já não há pachorra para o mail, nem para blogues. O Twitter. É mais fast. Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais. Coitadas. Com a Wikitude podemos aprender física quântica. E reproduzir o Big Bang, como o LHC. Ou fabricar uma arma de destruição. Maciça. Se inventarem uns robôs canalizadores, o mundo será perfeito na próxima década. Como dizia o Woody Allen, provar a existência de Deus é mais fácil que arranjar um canalizador ao domingo. Tenho de rever este dinossauro no video on demand. A década? Olha, o melhor é dizer que tudo foi uma consequência do 11 de Setembro. Será que dá para ir hoje ver o "Avatar"?

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009

 

 

9 comentários
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sou a rosa e escrevo como a dona clara
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 1:29 | Quinta-feira, 7 de Jan
dona clara desculpe o atrevimento mas quando ouvi o meu patrão dizer assim essa ferreira alves escreve como a rosa com os copos e ora eu não gostei de ouvir e fui ler o artigo da dona clara e realmente a dona clara sabe e conhece muita coisa e tudo graças à bondade do doutor balsemão que lhe paga para se divertir e viajar e tomara eu tê-lo como patrão mas diga-me sinceramente a dona clara não tomou nada é que me faz lembrar a minha prima veridiana que veio passar uns dias comigo e foi a uma festa com o gabiru do vlademiro e eu bem a avisei mas pronto e chegou a casa cheia de pó de talco na cara e a falar assim muito depressa e a meter os pés pelas mãos e até tive que a meter no chuveiro e olhe dormiu a noite toda mas apesar disso telefonei à minha prima reunião a programadora a contar e ela disse-me que nos programas dela não queria nada disso e que por vezes nas reuniões havia clientes que parecem ter bicho carpinteiro e que faz a mesma coisa e é banho com eles e também me disse que essa bichesa se apanha muito em festas de dondocas e a dona clara tenha cuidado se for a um desses sítios fuja quando vir uns bichinhos brancos muito pequeninos e que se agarram ao nariz e faça isso volte para casa tome banho e não escreva
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    ... e escrevo como a dona Rosa Engueitada    Ver comentário
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 11:30 | Quinta-feira, 7 de Jan
    sou a rosa e e a dona antifar imita-me que é feio    Ver comentário
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 1 ponto , 13:07 | Quinta-feira, 7 de Jan
Brilhante
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 2 pontos , 20:01 | Quinta-feira, 7 de Jan
A articulista é das que melhor escreve neste jornal e é das que realmente merecem a pena ser lidas.
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Boa ideia
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 17:03 | Sexta-feira, 8 de Jan
A ideia foi boa mas não consigo ler o texto, assim...
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Gostei...
soniras (seguir utilizador), 1 ponto , 10:03 | Quinta-feira, 7 de Jan
...particularmente da timing que imprime ao texto.
Estonteante mas também sufocante...
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A indeoendência e a pontuação
águiadois (seguir utilizador), 1 ponto , 10:41 | Quinta-feira, 7 de Jan
Tratar da vidinha com aquelas entrevistas na Televisão a Mário Soares.A partir daí a independência foi-se. Cada um sabe das pontuações que precisa.
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Boa sorte para 2010!
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 11:45 | Quinta-feira, 7 de Jan
Aí está! Um retrato possível e perspicaz da década. Folgo em poder aceder tão facilmente à brilhante prosa da articulista, á sua síntese tão entendida quanto verídica.
Boa sorte para 2010!
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A Grande Experiência
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 16:24 | Terça-feira, 12 de Jan
De uma coisa eu gosto na Clarinha. É quando ela se encontra semanalmente com os outros quatro zeros a arrotar postas de pescada. É a prova provada que as sinergias de elementos com valor entre zero e um não é positiva. O valor resultante é sempre inferior à soma das parcelas. Ter uma tal experiência ao alcançe da mão e de borla é excelente. Obrigado, Clarinha, e não te percas mais ainda.
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