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A década inculta

Oficialmente, a cultura tornou-se, como a definiu Agustina, "um conjunto de prerrogativas".

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 9 de janeiro de 2010

Nas políticas culturais, esta não foi a década zero, porque foi a década menos dez: aquela em que o trabalho que vinha a ser feito na década de 90, em particular de 1995 a 2000, foi deitado para o lixo. O desprezo a que foram votadas as políticas culturais na última década representou um retrocesso concreto não só na afirmação da cultura portuguesa dentro e fora de portas mas sobretudo no desenvolvimento das capacidades e expectativas dos cidadãos. Assistimos a uma inflexão do conceito de cultura, que se tornou acontecimento ou festa pontual, em vez de estratégia transversal de estímulo à criatividade. Oficialmente, a cultura tornou-se, como a páginas tantas a definiu Agustina Bessa-Luís, "um conjunto de prerrogativas", ou seja, um instrumento de alienação dos criadores e uma fórmula de controlo e aquietação das populações. Multiplicaram-se os festivais de rock, as feiras medievais, as exposições de encher o olho e os concursos gastronómicos, e desapareceram os projectos de desenvolvimento sustentado nas mais variadas áreas da criação. Esta foi uma década de estilhaços, promessas inconsequentes, celebrações e citações desgarradas. Finou-se a política para o cinema e o audiovisual, finou-se a política do livro e da literatura, finou-se a política teatral e museológica. Todas estas políticas morreram à fome. Concentraram-se todos os meios nas novas tecnologias, esse deus contemporâneo e vazio, sem que ninguém parecesse pensar que o crescimento tecnológico depende, ele mesmo, da cultura. Preferiu-se a palavra "educação". É uma palavra importante, essa, num país que passou demasiados anos a falar de direitos de professores e alunos, sindicatos e comissões de estudantes, esquecendo o objectivo final e fundamental de toda essa agitação: mais e melhor educação. Mas educação sem cultura, como é? Computadores e redes sem pensamento, para que servem? A despromoção da filosofia nos currículos escolares sinaliza a menorização da inteligência desejante, investigadora, sem a qual não existe cultura.

O desinvestimento na área cultural tem sido acompanhado e apoiado nos media por um discurso neoliberal, pretensamente libertário, que afirma que a intervenção estatal nesta área deve cingir-se à preservação do património museológico. Segundo este discurso, os escritores não precisam de bolsas de criação para escrever, nem os pintores para pintar, e toda a actividade criativa que exija investimento prévio deve esfolar-se por arranjar mecenas. O problema é que os mecenas não estão à vista, e a lei do mecenato existente está, como aliás metade do país, embalsamada em burocracia; no Brasil, o Ministério da Cultura orçamenta os projectos e garante aos mecenas que cada cêntimo do dinheiro investido lhes será subtraído dos impostos. E há ainda outro problema, basilar: uma obra de arte que dependa do lucro imediato ou dos públicos já existentes é pouco susceptível de gerar inovação ou de ampliar os horizontes da sua época. Numa perspectiva mercantilista, o ensaio e a poesia acabarão por morrer nas gavetas de quem os escreve.

A estratégia de promoção da cultura portuguesa no estrangeiro, através de traduções, presenças marcantes em feiras internacionais de literatura e artes plásticas, apoio à divulgação externa do cinema, acabou precisamente no momento em que o reconhecimento exterior da cultura nacional começava a tornar-se realidade. Alguns artistas das novas gerações, já educados na cultura do individualismo absoluto e da competição feroz, lá vão correndo mundo com as obras debaixo do braço e de telemóvel em punho, para anunciarem à imprensa os seus quase sucessos num ou noutro cantinho, o que cria uma ilusão de cultura em movimento. A verdade é muito mais parada e triste do que isso. Fernando Pessoa é um desígnio universal que, para espanto dos muitos estrangeiros que desembarcam em Lisboa em busca dos seus sinais, não interessa como desígnio nacional. O pouco que se tem feito em matéria de cultura deve-se à energia de alguns seres luminosos e à sensibilidade específica de alguns autarcas - é o caso do Festival Literário Internacional Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, que celebrou este ano o seu décimo aniversário. O abandonado Pavilhão de Portugal é o símbolo de um país que a si mesmo se maltrata, se delapida, se interrompe, se afoga. Um país que nunca mereceu os criadores que teve e continua a não merecer os criadores que tem - por isso tantos deles se exilaram e exilam. "É a hora!", escrevia Pessoa, há 75 anos. Não foi. Será agora?

Texto publicado na edição da Única de 31 de Dezembro de 2009

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Dantes
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 16:59 | Segunda feira, 11 de janeiro de 2010
Dantes era chique ser artista e ir ganhar o pão no estrangeiro - afinal todos os artistas dignos desse nome se queixaram da incomprensão dos seus conterrâneos...
Era chique o Mário de Sá Carneiro morrer em Paris, a Paula Rego morar em Londres ou o Hemingway viver em Cuba (exemplos aos milhões).
Agora, coitados, diz-se que vão para o exilio...
Eu sei, eu sei, eu até concordo que não há investimento na Cultura e o que há é medíocre - como a maioria das propostas culturais, aliás, que não passam de CAÇA-SUBSIDIOS.
Mas o meio cultural português é pior que o PSD, o que é que querem??? São meia dúzia de gatos pingados com dezenas de capelinhas...
Nunca houve, não há e nunca haverá uma energia cultural nacional, um movimento cultural de múltiplas expressões, mas comum, nacional. É um meio de gente canalha e invejosa, completamente subsidio-dependente!
Mas a culpa, claro, é dos politicos... do Sócrates, sobretudo!
 
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quase de acordo
lataes (seguir utilizador), 1 ponto , 11:53 | Domingo, 10 de janeiro de 2010
Bom dia. Não estou 100% de acordo com o conteúdo do artigo mas estou bastante de acordo, o suficiente para manifestar a minha opinião. Os exemplos da incultura poderiam ser multiplicados, bastaria estender uma quadrícula sobre o nosso mapa e apontar um exemplo por unidade... mas o pior é que não estamos no momento pessoano de ser "a hora". Falta muito. Basta ver o que se passou nas compras de Natal: livros estrangeiros a potes por todo o lado, uma ou outra edição portuguesa...e das menos boas. No tempo pessoano, com todos os defeitos, pelo menos havia sobretudo títulos portugueses à venda, nºão estávamos na voga desta tendência uniformizadora e universal que a todos quer incutir os mesmos gostos e a cada um privar do seu carácter.
Está a haver falta de cultura porque há falta de carácter. Claro que também não há carácter se abdicarmos da nossa cultura...
 
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Cresça!!
aquitoueu (seguir utilizador), 1 ponto , 12:53 | Domingo, 10 de janeiro de 2010
A qualidade do processo criativo tem que ser sufragado pelas pessoas.

Esse seu discurso da protecção duma determinada cultura, decretada como de "qualidade" por uma minoria bem pensante, pretensiosamente inteligente, é um perfeito disparate.

A cultura de um país é determinada pelo povo desse país. Serão as pessoas a escolher quais as manifestações culturais que querem. Tem que ser através dos livros ou dos quadros que são vendidos, dos espectadores que vão ver determinado teatro ou filme que determinado autor ou determinada manifestação cultural tem ou não condições para se manter.

Acha mal que os portugueses prefiram ir a um festival de rock do que a uma determinada exposição? Azar o seu! Agora, o que não pode pedir é que esteja o estado, todos nós, a alimentar artificialmente "artistas" que escrevem livros que ninguém lê, que pintam quadros de que ninguém gosta, só porque a suposta elite intelectual acha que eles têm muita qualidade. Isso é um discurso esquerdista radical que já devia estar extinto. Isso era assim nas ditaduras comunistas e deu no que deu.

A cultura colectiva dum povo também muda, como é por demais evidente. Mas deve mudar fruto do incremento da educação e formação individual de cada um dos seus elementos e nunca por imposição daquilo que sua excelência entende como sendo o correcto para combater o seu "deus contemporâneo e vazio", entenda-se, o progresso civilizacional.
 
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a morte por perda de identidade
dadada (seguir utilizador), 1 ponto , 23:02 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
o ideal de eficiência tecnocrática que invade as escolas, universidades, instituições diversas, políticos e tudo o que mexe definha-nos. não por a eficiencia tecnocrática ser um mal em si , mas porque é totaliza o pensamento, não deixa nenhum outro alternativo desenvolver-se. veja-se a política educativa e cultural do país: formar mão-de-obra barata, sócio-políticamente ignorante e com alguns conhecimento de matemática para fazer umas contas e aplicar umas fórmulas aqui e ali. Isto está a traduzir-se na perda de memória e de sentido comum.
Assim, não admira que sejamos saqueados não só pelos ricos ou o último grito tecnológico mas do que culturalmente são fortes. é só olhar...
 
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