Não havia dinheiro para nada. Agora, que são outros a estar em aflições, nadamos em dinheiro para lhes dar. A crise económica e social, para a qual os governos nunca encontraram disponibilidade política para fazer frente, associada à crise financeira, que mereceu rápido socorro e um saco sem fundo de ajudas, explica a indiferença com que muita gente olha para as próximas eleições. Mas se julgávamos que tínhamos visto tudo, os números da cratera deixada no BPN ainda conseguiram espantar-nos. A Caixa Geral de Depósitos já lá enterrou cerca de 1,5% do PIB nacional. Dispensam-se explicações sobre o que o banco público poderia fazer com tanto dinheiro para ajudar as pequenas empresas e a economia.
A esta sangria de fundos e à incoerência política que ela evidencia junta-se o facto de a União Europeia acordar para a democracia de cinco em cinco anos e julgar que nos intervalos tudo se pode fazer sem o incómodo de ouvir os cidadãos da Europa. Nós, europeus, não o fomos quando o Pacto de Estabilidade e Crescimento sufocou as nossas economias ou quando o Tratado de Lisboa foi assunto exclusivo para elites políticas. Nós, europeus, não tínhamos camioneta para tanta areia. O desinteresse por estas eleições é o preço que a Europa paga por achar que se pode construir sem as dificuldades da democracia e o preço que os Governos pagam por se manterem reféns de negócios privados.
Aproveitando o clima de desinteresse, Marinho Pinto disse esta semana que o não-voto seria uma excelente arma contra "mais do mesmo". A prova de que não acredita no que diz está no simples facto de, quando era ele o candidato às eleições para bastonário da Ordem dos Advogados, não ter dividido com os seus colegas tão profunda reflexão.
É evidente que os políticos não são todos iguais. Quem vende a indiferenciação apenas premeia os incompetentes. Mas mesmo que, por absurdo, o fossem, a política não é um clube reservado. Quem acha que tudo deve mudar tem, para ser consequente, obrigação de se envolver no jogo democrático. Um cidadão não é um cliente e a democracia não é um supermercado. Quem decide alhear-se da vida política não pode depois queixar-se da vida política.
Um país não é um guichê de reclamações em que do outro lado estão uns tipos que nasceram para nos servir ou para se servir de nós. Os direitos dos cidadãos dependem antes de mais de uma obrigação: a de escolherem quem os representa. Porque a política não é diferente do resto da vida: quem prefere não decidir nada não se pode queixar das escolhas de quem se deu a esse trabalho. O voto não é a única arma. Mas é ele que nos dá autoridade para exigir coerência aos demais. Um cidadão que não é exigente com as suas obrigações perde a autoridade para ser exigente com os eleitos.
Bem sei que vivemos num tempo em que o político é um produto e o eleitor um cliente. E que, como se sabe, o cliente tem sempre razão. Mas a democracia é mais exigente do que isso. Sem qualquer ironia, se os governos não prestam, se os políticos são fracos, se as políticas são erradas, a culpa é nossa. Se o nosso dinheiro está a servir para pagar o jogo dos banqueiros, a culpa é nossa. Se quem não cumpre os seus compromissos é reeleito, a culpa é nossa. Se tudo parece ser mais do mesmo, a culpa só pode ser nossa. É esta a vantagem da democracia. A culpa é sempre nossa. E é por isso que a solução também passa sempre por nós. Quem nos diz o contrário não dá voz à nossa indignação. Apenas a quer calar.
Daniel Oliveira