Um olhar atento sobre as economias avançadas revela dois grandes problemas: o crescimento do produto, sempre a descer, já ameaça a barreira do vermelho; e a variação dos preços, sempre a subir, poderá vir a tornar-se incontrolável.
Trata-se de um fenómeno complexo, a que os economistas chamam estagflação. E, para o combater, há um instrumento poderoso chamado taxas de juro. Mas aqui surge uma dúvida: baixamos as taxas para estimular a economia ou subimos as taxas para controlar a inflação?
Quem sabe de taxas de juro são os bancos centrais: que pensam eles sobre o assunto? Vejamos os dois mais importantes. O Banco Central Europeu, partindo de uma taxa de referência de 2% em 2005, foi subindo, subindo até estabilizar nos 4,25%. E a Reserva Federal, partindo de 5,25% em 2007, foi descendo, descendo e só parou nos 2%. São dois caminhos antagónicos, a sugerirem a ideia de que, mais do que não se entenderem entre si, os dois bancos pensam o contrário um do outro.
É neste campo minado que hoje se movimenta a inflação. Números recentes colocam a fasquia em 4-5% ao ano, algo perigoso e de que não há memória nesta década. Mas, se àqueles números retirarmos os produtos petrolíferos e alimentares, obtendo a chamada "core inflation", ela pouco excede os 2%, o que é muito bom. As dúvidas aumentam: a tendência altista é conjuntural ou estrutural? O petróleo avança ou recua? Que remédios para a inflação importada? Perguntem aos gurus do mundo: ninguém sabe.
Ninguém, vírgula. Não minimizemos o saber português. Há entre nós muita gente que considera que a inflação não é bem um problema, porque tem um antídoto: os salários. Então é assim: quando sobem os preços, devem subir os salários, e se os preços subirem mais, os salários deverão subir outro tanto... - o processo gera uma dinâmica de tal ordem que tudo se passa como se a crise não existisse. Não riam, que a coisa é séria. Os demagogos andam mesmo por aí - e actuam.
O tema é delicado, porque mexe com as pessoas. Mas nem por isso devemos perder a razão. Como se sabe, o preço do dinheiro e das matérias-primas está a colocar as empresas numa situação de ruptura. Sabe-se também que, em termos médios, os encargos laborais pesam cerca de 50% na estrutura de custos. Se juntarmos tudo, os preços incorporados e os salários dinâmicos, não é difícil adivinhar o resto: um caos social. É por isso que os salários não devem ligar-se à inflação importada mas aos ganhos de produtividade.
O país tem vindo a ser alertado para a existência de dois graves problemas: o baixo crescimento e a alta inflação. Sugiro que à esta lista se junte mais um: a demagogia. A demagogia é um fenómeno perigosíssimo, que se desenvolve tanto mais quanto mais as crises se avolumam. Imaginem um país com alto desemprego, salários de miséria, a prestação da casa por pagar: é um oásis para os demagogos. Demagogo é aquele que, pensando sobretudo em si próprio, excita e estimula as paixões dos outros, dizendo ao povo aquilo que o povo quer ouvir.
Apetece gritar: calem-se!
Daniel Amaral