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A crise e os demagogos

8:00 Segunda feira, 18 de agosto de 2008

Um olhar atento sobre as economias avançadas revela dois grandes problemas: o crescimento do produto, sempre a descer, já ameaça a barreira do vermelho; e a variação dos preços, sempre a subir, poderá vir a tornar-se incontrolável.

Trata-se de um fenómeno complexo, a que os economistas chamam estagflação. E, para o combater, há um instrumento poderoso chamado taxas de juro. Mas aqui surge uma dúvida: baixamos as taxas para estimular a economia ou subimos as taxas para controlar a inflação?

Quem sabe de taxas de juro são os bancos centrais: que pensam eles sobre o assunto? Vejamos os dois mais importantes. O Banco Central Europeu, partindo de uma taxa de referência de 2% em 2005, foi subindo, subindo até estabilizar nos 4,25%. E a Reserva Federal, partindo de 5,25% em 2007, foi descendo, descendo e só parou nos 2%. São dois caminhos antagónicos, a sugerirem a ideia de que, mais do que não se entenderem entre si, os dois bancos pensam o contrário um do outro.

É neste campo minado que hoje se movimenta a inflação. Números recentes colocam a fasquia em 4-5% ao ano, algo perigoso e de que não há memória nesta década. Mas, se àqueles números retirarmos os produtos petrolíferos e alimentares, obtendo a chamada "core inflation", ela pouco excede os 2%, o que é muito bom. As dúvidas aumentam: a tendência altista é conjuntural ou estrutural? O petróleo avança ou recua? Que remédios para a inflação importada? Perguntem aos gurus do mundo: ninguém sabe.

Ninguém, vírgula. Não minimizemos o saber português. Há entre nós muita gente que considera que a inflação não é bem um problema, porque tem um antídoto: os salários. Então é assim: quando sobem os preços, devem subir os salários, e se os preços subirem mais, os salários deverão subir outro tanto... - o processo gera uma dinâmica de tal ordem que tudo se passa como se a crise não existisse. Não riam, que a coisa é séria. Os demagogos andam mesmo por aí - e actuam.

O tema é delicado, porque mexe com as pessoas. Mas nem por isso devemos perder a razão. Como se sabe, o preço do dinheiro e das matérias-primas está a colocar as empresas numa situação de ruptura. Sabe-se também que, em termos médios, os encargos laborais pesam cerca de 50% na estrutura de custos. Se juntarmos tudo, os preços incorporados e os salários dinâmicos, não é difícil adivinhar o resto: um caos social. É por isso que os salários não devem ligar-se à inflação importada mas aos ganhos de produtividade.

O país tem vindo a ser alertado para a existência de dois graves problemas: o baixo crescimento e a alta inflação. Sugiro que à esta lista se junte mais um: a demagogia. A demagogia é um fenómeno perigosíssimo, que se desenvolve tanto mais quanto mais as crises se avolumam. Imaginem um país com alto desemprego, salários de miséria, a prestação da casa por pagar: é um oásis para os demagogos. Demagogo é aquele que, pensando sobretudo em si próprio, excita e estimula as paixões dos outros, dizendo ao povo aquilo que o povo quer ouvir.

Apetece gritar: calem-se!

Daniel Amaral

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Re: A crise e os demagogos
Filipe Albuquerque (seguir utilizador), 1 ponto , 14:08 | Quarta feira, 20 de agosto de 2008
Demagogia é entender que a diversificação dos mercados, a inovação e a correcta gestão da estrutura empresarial são medidas que vem sempre depois da desvalorização salarial...e que o povo como é habito, pau para toda a colher... tem que pagar permanentemente a estupidez e a incompetência de quem o dirige !
O que diz é eticamente vergonhoso... e olhe que eu não sou do bloco nem do PCP...

Atentamente>FILIPE DE ALBUQUERQUE
 
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Má gestão !
Filipe Albuquerque (seguir utilizador), 1 ponto , 14:59 | Quarta feira, 20 de agosto de 2008
As PME´s são a principal entidade empregadora e dirigem a sua acção ao mercado interno essencialmente, mercado esse que asfixia devido à alta dos preços e à baixa salarial que vem consecutivamente se consolidando desde os anos 90...neste panorama necessariamente colapsam e geram mais desemprego... mas o grande patronato nem quer ouvir falar do assunto...
A Economia Portuguesa não está sobre-aquecida, está fria ! A má gestão é a principal responsável...

Atentamente>FILIPE DE ALBUQUERQUE
 
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Re: A crise e os demagogos
Filipe Albuquerque (seguir utilizador), 1 ponto , 15:24 | Quarta feira, 20 de agosto de 2008
Outra que eu acho extraordinária é a questão da baixa produtividade dos Portugueses, que é baixa em Portugal e alta no estrangeiro...as causas deviam ser evidentes, uma monumental depressão colectiva, sustentada por patrões com uma mentalidade de exploração do século dezanove que são em boa parte analfabetos e de uma incompetência monumental...não estimulam a meritocracia nem a competitividade, estimulam a idiotia, a delação e a autoridade do Poder pelo Poder !

Atentamente>FILIPE DE ALBUQUERQUE
 
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Carlos Daniel
Dunca (seguir utilizador), 1 ponto , 14:06 | Terça feira, 26 de agosto de 2008

Parece-me que a sua análise é correta, e no caso de Portugal, em particular, coloca muito bem a palavra chave: DEMAGOGIA. Palavra que se aplica tanto à esquerda quanto a direita, ou melhor, a todos os partidos que têm assento na assembléia da republiqueta.

Mas qual é a saída, com os políticos que temos? Sinceramente, não a há vejo nem a curto, médio ou longo prazo. E, certamente, estou em boa companhia quando transcrevo as observações do Eça de Queirós feitas em 1871...

"ORDlNARlAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?" (Eça de Queiroz, 1867 in “O distrito de Évora")

E agora José? Pois é... O nosso descalabro já tem séculos de existência, e tudo como dantes no quartel de Abrantes.
 
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    Corrigindo: 1867    Ver comentário
Dunca (seguir utilizador), 1 ponto , 14:15 | Terça feira, 26 de agosto de 2008
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