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A crise e os bancos centrais

8:00 Segunda feira, 28 de abril de 2008

Diz a teoria económica e o senso comum: uma economia com excesso de mão-de-obra tende a pressionar os salários em baixa, melhorando o comércio e reduzindo a inflação. Na fase seguinte, há um acréscimo de actividade, que vai arrastar o emprego, que arrasta os salários, gerando-se um novo equilíbrio a um nível mais alto. Dizem as estatísticas: tanto na Europa como nos Estados Unidos o desemprego é elevado e, não obstante, num lado e no outro, a inflação não pára de subir. O que é que se passa?

Separemos as águas. Os EUA tiveram dois problemas: um problema de "subprime", que travou a economia e já terá provocado uma recessão, e um problema de moeda, que se desvalorizou imenso, arrastando na onda os preços do petróleo e depois a generalidade dos preços alimentares. A Europa começou por ter uma crise importada, ainda que menos violenta, e só depois apareceu a inflação, que entretanto se generalizou. Não é a mesma coisa. Digamos que há 'crime' num dos lados, mas 'castigo' nos dois.

Muito bem. E como é que os 'castigados' se comportam? Olhando para o seu próprio umbigo. A Europa está convencida de que a situação económica não é grave; grave mesmo são as tendências inflacionistas. Solução: manter as taxas de juro a um nível alto, para travar os preços. Os EUA estão-se nas tintas para o dólar fraco, que agrava os preços mas beneficia as transacções correntes; grave mesmo é o colapso empresarial. Solução: baixar as taxas de juro, para estimular a economia.

Daqui resulta que se instalou a confusão. Os bancos centrais das duas regiões mais poderosas do mundo não se entendem entre si. E seria crucial que se entendessem. Foi com acções concertadas que se resolveram todas as crises semelhantes que ocorreram no passado: os desajustamentos na paridade entre o dólar e o euro em 1985 e 1987; a sustentação do dólar face ao iene em 1995 e o posterior suporte do iene em 1998; a intervenção do G7 para fortalecer o euro em 2000; etc. Que obsta desta vez a que se faça o mesmo?

Uma acção concertada entre o BCE e a Reserva Federal levaria, por exemplo, a uma política comum sobre taxas de juro. Mas que vemos nós? A Reserva Federal, desde Agosto até hoje, já baixou a sua taxa de referência de 5,25% para 2,25% - uma taxa real negativa e altamente inflacionista. O BCE, no mesmo período, manteve os seus 4% inalterados e ameaça continuar assim. Independentemente das razões invocadas, estamos a falar de uma prova de força que a todos prejudica sem beneficiar ninguém.

Como é que tudo isto se resolve? De uma de três formas: 1) Com um acordo entre a Europa e a América sobre a política monetária e financeira: seria a solução ideal; 2) Com a manutenção das actuais divergências, até que um dos parceiros se canse: presumo que sejam os EUA a cansar-se; 3) Com a estabilidade do dólar e dos preços de petróleo, fazendo regressar a inflação aos níveis da chamada "core inflation", que não andarão longe dos 2% que se pretendem: é uma aposta arriscada.

Qualquer que ela seja, convinha que fosse rápida.

Daniel Amaral

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