A situação é estranha. Olha-se para os países desenvolvidos e na sua maioria estão a crescer a um ritmo abaixo dos 2% ao ano, o que é de facto muito mau. Exemplos: Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França. Mas, ao olharmos para os países emergentes, encontramos taxas de crescimento da ordem dos 7-10%, um ritmo espectacular. Exemplos: China, Índia, Rússia, Tailândia, Argentina. Afinal, que crise é esta? E uma dúvida metafísica: em que grupo se situa Portugal?
As pessoas que mais bem se identificam com estes problemas sabem que a actividade económica, quando analisada do lado da despesa, reage ao impulso de três grandes motores: o consumo, o investimento e aquilo a que poderemos chamar exportações líquidas, ou seja, a diferença entre exportações e importações. O que quer que seja que aconteça, acontece aqui. E embora nem sempre as estatísticas sejam fidedignas, elas são-no o bastante para uma primeira abordagem sobre o assunto. Vamos ver.
Comecemos pela procura interna. É óbvio que o consumo, função do rendimento disponível, não pode estar bem: as famílias vivem o drama dos baixos salários e do endividamento crescente e já esgotaram todas as formas de arranjar dinheiro. Também é óbvio que o investimento, função da sensibilidade dos empresários relativamente à procura global, tem hoje um espaço muito limitado de intervenção. Pretender, como faz o Governo, que ele cresça mais do que no ano anterior não é uma atitude sensata.
Mas é na procura externa que o problema se complica. Como se sabe, o destino das nossas exportações é essencialmente a Europa, em fase complicada, pelo que é inverosímil que venha a aumentar a procura. Já as importações, sofrendo do mesmo mal, deverão apesar de tudo sofrer menos, porque há produtos de que não podemos prescindir. Os reflexos de tudo isto vão ser dramáticos. Assumir, como faz o Governo, que não se passa nada, e que as previsões iniciais são para manter, é de uma leviandade inimaginável, que todos de bom grado dispensaríamos.
A dúvida que coloquei tem a ver com isto. Na divisão simplista entre países desenvolvidos e países emergentes, ou países ricos e países pobres, Portugal tem-se situado naquela 'terra de ninguém' que são as zonas fronteiriças. Com episódios às vezes burlescos: para uns, somos o mais pobre dos ricos; para outros, o mais rico dos pobres. Pois bem, esta crise tem o mérito de clarificar as coisas: assumindo que é uma crise importada, estão definidos os parceiros - importámos a crise dos ricos. Qual a melhor forma de a abordar?
No plano económico, há que esperar para ver. Mas a abordagem política é crucial. É legítimo que o Governo seleccione alguns projectos para relançar o investimento. Mas deve ser cuidadoso na escolha, para evitar aqueles que careçam de um bom efeito multiplicador. Também é legítimo que as oposições critiquem o Governo a seu bel-prazer. Mas seria de um profundo mau gosto afirmar que esta crise existe porque o Governo é incompetente.
Enfim, se há apelo a fazer, é um apelo ao bom senso.
Daniel Amaral