A crise, esse conceito abrangente que justifica todos os males económicos e sociais que nos rodeiam, acabou. É o que se lê nas declarações políticas e nas análises económicas.
Foi uma crise marcada pela perda de confiança e, nessa medida, está vencida quando a confiança recupera e atinge níveis normais nas economias mundiais. É o que está a acontecer.
À economia portuguesa não chega que a crise tenha acabado. O nosso nível de endividamento externo, o aumento do desemprego, o desequilíbrio das contas públicas, a baixa produtividade, a perda de competitividade, a divergência com a União Europeia, constituem problemas estruturais muito sérios.
Sem criar as condições para que estes problemas sejam ultrapassados, não há fim de crise que as resolva.
Sem empresas inovadoras e autónomas em relação ao poder político, não há sucesso garantido e sustentável a médio prazo.
Se não soubermos inovar, poupar e investir de forma produtiva; se não ousarmos enfrentar seriamente os sistemas de justiça e de educação, não será fácil explicar o que nos espera.
Sem se poder continuar a invocar a crise para justificar as nossas dificuldades, há que criar uma outra figura mítica que desempenhe este papel - talvez as 'consequências da crise'.
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009